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A era do streetwear

Até agora, o streetwear esteve circunscrito a um nicho de consumidores, na sua maioria jovens, em busca de autenticidade e de afirmação pessoal. No entanto, o código de vestuário da rua, marcado por sapatilhas e peças encapuzadas, depressa se assumiu como macrotendência que domina agora as passerelles de marcas como Givenchy, Vetements, Raf Simons e, mais recentemente, Louis Vuitton, que assinou uma parceria com um dos pesos-pesados do segmento, a Supreme.

A Supreme é uma marca de streetwear fundada há 23 anos dentro da subcultura skater e pisou a passerelle da semana de moda masculina parisiense em janeiro, intersetando os coordenados assinados por uma das marcas mais icónicas da moda francesa, fundada em 1854 e avaliada em 22,5 mil milhões de libras (aproximadamente 26,4 mil milhões de euros) em 2016. O portal da especialidade Highsnobiety escreveu a este propósito: «é oficial, o streetwear e a moda de luxo são a mesma coisa», recorda o The Guardian.

Na opinião dos especialistas, as peças resultantes deverão esgotar antes mesmo de chegarem às lojas, em julho, não apenas pela qualidade dos designs mas também devido à história que rodeia a colaboração. Em 2000, a Louis Vuitton processou a Supreme, quando a marca de streetwear colocou uma versão do monograma da casa nos seus skates. Volvidos 17 anos, as duas são aliadas.

Ainda que o leque de preços seja muito mais baixo dos valores praticados pela Louis Vuitton (embora uma t-shirt custe ainda 60 libras e uma sweatshirt 120), a perspicácia comercial de uma marca voltada para o consumidor jovem pode alargar os horizontes de uma casa de moda estabelecida. Em dia de chegada de novo stock, por exemplo, o tráfego no website da Supreme pode aumentar 16,8%.

Não obstante, a colaboração Louis Vuitton x Supreme fomentou rumores de que o LVMH, conglomerado que detém a Louis Vuitton, havia comprado a Supreme por 411 milhões de libras. Nenhuma das marcas confirmou, até ao momento, essa informação.

A colaboração provocou ainda reações muito diferentes dentro das comunidades da moda e streetwear.

Virgil Abloh, designer da marca de streetwear Off-White e colaborador do rapper Kanye West, descreveu a colaboração como «o momento mais moderno na moda nos últimos tempos». Já Guy Trebay, crítico de moda no jornal New York Times, considerou a ligação «a versão da moda de um assassinato-suicídio». A Highsnobiety, entretanto, avançou que a base de seguidores da Supreme se sentiu traída. «Eles começaram a marca como uma alternativa à moda e agora tornaram-se moda», terão afirmado os clientes. O feedback levou inclusive a Supreme a divulgar um comunicado de imprensa. «Ao longo da história da marca, os nossos clientes mostraram-se sempre apreensivos quando fizemos algo inesperado», declarou a marca. «No entanto, sempre nos mantivemos fiéis à cultura da qual viemos».

O streetwear está indiscutivelmente associado ao hip-hop, subcultura na qual o respeito pelas raízes é também tido em alta consideração. Disseminado pelas comunidades jamaicanas, latinas e afro-americanas da cidade de Nova Iorque, as origens do hip-hop foram revistas no documentário “Fresh Dressed”, com direção de Sacha Jenkins. Jenkins conta que, no início, as roupas eram uma forma de transcender a pobreza que rodeava muitos dos envolvidos na subcultura.

Apesar de marcas clássicas americanas como a Tommy Hilfiger e a Ralph Lauren serem populares entre a comunidade, a chegada deste estilo musical ao mainstream – que atingiu o seu pico nos anos 1990 – acabou por levar à criação de marcas específicas para este universo, desenvolvidas por “insiders”.

A Fubu (For Us By Us) foi uma dessas insígnias, lançada em 1992 por Daymond John. As encomendas eram tantas, como mostrou o documentário, que as lojas vendiam malhas polares em agosto no Texas. Em 1999, as vendas globais da Fubu totalizaram 228 milhões de libras.

A estética e a própria expressão “streetwear” ainda são por isso acompanhadas, como sustenta Jason Dike, editor da Hypebeast, plataforma exclusivamente dedicada ao segmento, por uma «codificação racial». «Se o indivíduo for negro e usar um boné ou um bomber ou o que quer que seja, é mais provável que seja visto como streetwear do que se alguém branco vestir exatamente a mesma coisa», refere.

Contudo, nem a Supreme nem a Palace (outra das marcas favoritas) têm designers negros ao leme – James Jebbia, da Supreme, é um britânico a viver em Nova Iorque, enquanto Lev Tanju, da Palace, é filho de pai turco e mãe britânica.

Ainda assim, a associação destas duas marcas, que gradualmente se foram assumindo como a tradução mais genuína das ruas no vestuário, às subculturas, significa que ambas apresentam elevado grau de inclusão e respeito pela diversidade – qualidades que nem todos os consumidores reconhecem à alta moda.

Por isso, alguns especialistas têm argumentado que as marcas de luxo que levam o streetwear para a passerelle estão a praticar uma espécie de apropriação cultural. Rachel Lifter, professora de estudos de moda na Parsons, em Nova Iorque, considera que, pelo menos, esta tendência levanta algumas questões. «Enquanto prática de design, o streetwear bebe inspiração no hip-hop», aponta. Esse estilo «surgiu a partir da experiência vivida por jovens negros e latinos, que sofriam diferentes formas de subordinação racial e de classe: esses designs [de alta moda] operam ao nível representacional», explica.

Shayne Oliver, da Hood By Air, é um dos designers negros no panorama do luxo e tem falado abertamente sobre os designers de moda deste segmento – na sua maioria brancos – abordarem o streetwear com o qual ele cresceu. «Há um jogo de poder quando se é inspirado por algo, mas não se quer dar o devido crédito», admite.

Virgil Abloh, que agora vende na Net-a-Porter e desfila na passerelle de Paris, mostrou-se mais otimista sobre a política racial. Enquanto designer negro, Abloh defende que «o streetwear é o que é usado na rua e é como as pessoas reais usam as roupas, sapatilhas com um vestido, um hoody, é misturar géneros».

Estas marcas são agora parte da economia. Se alguns criticam os preços da Off-White (normalmente situados entre as 200 e as 1.500 libras) porque alienam o hypebeast (expressão utilizada para descrever os consumidores ávidos por cada novo lançamento dentro da cena streetwear), Abloh advoga que se deve olhar para a marca que assina como uma fábrica de ideias. «No streetwear, as marcas estão lá para atrair outras marcas, para desafiá-las», resume.

Neste encadeamento, recentemente, uma publicação da Highsnobiety referia-se à Supreme como a «marca mais vendável do mundo» e a famosa t-shirt “Kermit The Frog”, resultante da parceria entre o fotógrafo Terry Richardson e a Supreme, lançada pela primeira vez em 2008, está a ser vendida no eBay por 640 libras.