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Cimeira da ITV na iTechStyle Summit

As quatro associações da indústria – ANIVEC, ANIT-Lar, ATP e ANIL – sentaram-se no mesmo painel da iTechStyle Summit para analisar o presente e as perspetivas de futuro da indústria têxtil e vestuário, incluindo na discussão o Brexit, a Administração Trump, as matérias-primas e os custos energéticos.

No primeiro dia da 1.ª edição da iTechStyle Summit – Conferência Internacional de Têxteis e Vestuário, organizada pelo Citeve em parceria com a Associação Selectiva Moda, representantes das quatro principais associações abordaram a resiliência da indústria têxtil e vestuário (ITV), mas também os desafios que se avizinham, da política internacional à falta de recursos humanos.

César Araújo, presidente da direção da ANIVEC, sublinhou o crescimento de 44% das exportações de vestuário desde 2009 (ver Vestuário cresce 44% desde 2009), equivalente a mais de mil milhões de euros, para um valor superior a 3 mil milhões de euros, e focou a necessidade de «desenvolver e consolidar o nosso cluster industrial como um dos mais importantes e completos de toda a Europa», afirmou. «A produção nacional de vestuário e confeção é das mais qualificadas e reconhecidas a nível mundial, sobretudo no meio profissional», apontou, sublinhando que «a cadeia de abastecimento do sector de vestuário em Portugal é provavelmente a melhor do mundo considerando a competência, a abrangência e a flexibilidade». Aliás, referiu César Araújo, «Portugal já é sem qualquer dúvida o fator de diferenciação e de valorização dos negócios internacionais no mundo da moda». No entanto, «não podemos ser passivos e adormecer à sombra dos resultados obtidos nos últimos anos. Temos de ir mais longe para estarmos mais regularmente na rota dos grandes compradores mundiais», explicou, sem negligenciar o facto de que «a incerteza voltou» com a situação no Reino Unido e nos EUA. «As consequências ainda são completamente desconhecidas», frisou o presidente da ANIVEC, mas «seguramente que este sector do vestuário vai superar os próximos desafios que daí advêm. Portugal pode contar com as empresas e com os empresários deste sector, que nos últimos anos tem dado inúmeras provas de competência, de seriedade, competitividade e de enorme compromisso com o país», declarou.

Tal como o vestuário, também os têxteis-lar nacionais têm uma forte posição mundial. Segundo o secretário-geral da ANIT-Lar, Luís Ribeiro Fontes, «a indústria dos têxteis-lar é a 4.ª fornecedora de lençóis de algodão de fios tintos, a 3.ª fornecedora mundial de colchas, a 5.ª fornecedora mundial de felpos – e estamos a falar de um conjunto de 150 a 160 países fornecedores. Não há experiência em qualquer sector da indústria portuguesa de algo que se aproxime deste desempenho», destacou na sua intervenção. Com uma forte vertente internacional, os têxteis-lar partilham das preocupações que afligem o sector do vestuário, enumeradas por César Araújo, agravada pela importância do mercado americano nas vendas das empresas da indústria de roupa para a casa. «Obviamente que sobre [a Administração Trump] ainda se conhece muito pouco sobre se em termos comerciais vai determinar as opções dos consumidores locais. No caso do Brexit, esta opção política poderá demorar à vontade 10 anos a negociar com Bruxelas, mas a economia vai ajustar-se muito mais rapidamente, como se tem ajustado noutras situações», referiu.

Acima de tudo, considera Paulo Melo, presidente da ATP, «temos de estar atentos, tentar antecipar, tentar que as empresas consigam defender-se e estar atentos às oportunidades». Acima de tudo, Paulo Melo fez questão de frisar na sua intervenção que há duas décadas o sector teve morte anunciada e que houve uma evolução muito positiva. «Ninguém acreditava neste sector, mas conseguimos dar a volta. Os empresários, as empresas e os colaboradores acreditaram. Conseguimos com feiras, inovamos, diferenciamos», enumerou, dando conta que, depois do valor recorde de exportações registado em 2016, este «é um ano que tem de correr bem».

Para José Robalo, presidente da ANIL, «os industriais são heróis», tendo em conta tudo aquilo que foram capazes de ultrapassar. O cenário atual, contudo, não é «animador», tendo em conta a situação no Reino Unido – um mercado importante para as empresas de lanifícios –, assim como o investimento público no sector. «Se pensarmos que as políticas portuguesas de apoio à indústria estão paradas, penso que o cenário não é animador», afirmou. «Vamos ter que batalhar como temos vindo a batalhar desde 2002», acrescentou.

A esta situação geopolítica, os desafios para 2017 passam ainda, segundo os líderes das associações da ITV, pelo aumento do custo com as matérias-primas, resultante de «especulação», como apontou Paulo Melo. «As matérias-primas traçam desde o ano passado uma evolução de aumento, conhecemos bem quais são os efeitos que isso tem sobre o preço final», referiu Ribeiro Fontes, com a preocupação a estender-se também à lã, nomeadamente junto de fornecedores como a Austrália, citou José Robalo. Também custos como a eletricidade estão a pesar nas contas. «As empresas estão carregadas de custos que não têm nada a ver com a sua atividade», referiu Paulo Melo. «É completamente fora do contexto que o custo energético, que é um dos custos fundamentais para esta indústria, tenha neste momento uma componente, que é uma componente imaterial de acesso à rede, que representa 50% do valor final da fatura de eletricidade. Para este ano de 2017, essas tarifas de acesso à rede aumentaram mais 4% a 5%.  Por muito boa negociação que a indústria faça com os operadores de eletricidade sobre a tarifa a pagar por hora, toda essa vantagem desaparece face àquilo que o Estado determina quando faz o aumento das tarifas no acesso à rede», acrescentou Luís Ribeiro Fontes.

Os recursos humanos, são outra das preocupações que ocupa o espírito dos empresários. «É preciso formar quadros técnicos», alertou o presidente da ANIVEC. O painel, contudo, terminou de forma positiva, com César Araújo a lembrar que o conceito de Indústria 4.0 é já aplicado ao vestuário há 20 anos e a desafiar a uma maior cooperação entre empresários. «É preciso estar presente fisicamente nos mercados. Tem um custo mas pode ser partilhado. É importante partilhar o conhecimento comercial», concluiu o presidente da ANIVEC.

A iTechStyle Summit continua hoje, com um programa dividido entre a Indústria 4.0 e a Internet das Coisas, processo digital e multifuncionalização, vestuário de proteção e soluções inovadoras têxteis para a área militar e novos mercados e soluções para têxteis técnicos (ver iTechStyle Summit em estreia).