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Crescimento do comércio em risco

O crescimento do comércio mundial de mercadorias deverá recuperar este ano em comparação com a performance tépida em 2016, mas os resultados estão, de acordo com a Organização Mundial do Comércio, muito dependentes da retoma da economia mundial e das políticas governamentais dos diferentes países.

Os principais indicadores do crescimento real do comércio estão em alta nos primeiros meses de 2017, sugerindo o reforço do comércio no início deste ano, de acordo com a Organização Mundial do Comércio (OMC). O tráfego de contentores nos principais portos recuperou da queda de 2015-2016 para atingir um nível recorde, com o crescimento em termos anuais de 5,2% nos primeiros dois meses de 2017.

O principal indicador das encomendas mundiais de exportação também subiu para o seu nível mais elevado em vários anos em fevereiro, apontando para um crescimento comercial mais rápido nos próximos meses. E as estimativas do crescimento do PIB mundial a taxas de câmbio de mercado subiram de 2,3% em 2016 para 2,7% em 2017 e 2,8% em 2018.

Para 2017, a OMC prevê que o comércio mundial cresça 2,4%, enquanto o crescimento do comércio em 2018 deverá situar-se entre 2,1% e 4%.

Contudo, a contrariar estes indicadores positivos estão vários riscos evidentes e significativos, indica a OMC. «O crescente sentimento antiglobalização e o aumento dos movimentos políticos populistas aumentaram a probabilidade de que as medidas restritivas ao comércio sejam usadas de forma mais generalizada», aponta a organização. «Medidas direcionadas e específicas provavelmente não terão impacto no comércio mundial e na produção, mas medidas transversais ou o abandono de acordos comerciais existentes podem prejudicar a confiança do consumidor e das empresas e minar o comércio internacional e o investimento», refere.

Com as pressões inflacionárias a aumentarem gradualmente nos países desenvolvidos, os bancos centrais podem também acelerar o ritmo de libertação de moeda, com consequências negativas para o crescimento económico e o comércio a curto prazo, adianta a OMC. As mudanças na política fiscal, acrescenta, podem também ter consequências internacionais imprevistas que podem reduzir a atividade económica e o comércio mundial.

Além disso, as difíceis negociações do Brexit entre o Reino Unido e o resto da União Europeia irão aumentar a incerteza em relação à forma das relações comerciais no futuro. Ao mesmo tempo, a dívida soberana nos países endividados da UE é ainda uma questão pendente que pode vir ao de cima mais uma vez nos próximos dois anos.

A OMC acredita que a direção imprevisível da economia mundial no curto prazo e a falta de clareza sobre a ação dos governos em termos de políticas monetárias, fiscais e comerciais aumenta o risco de que a atividade comercial ser reprimida. Um pico na inflação que leve a taxas de juro mais altas, políticas fiscais mais restritivas e a imposição de medidas para reduzir o comércio pode minar um crescimento maior do comércio nos próximos dois anos.

«O comércio tem o potencial de reforçar o crescimento mundial se a movimentação de bens e o fornecimento de serviços fora das fronteiras nacionais não forem afetados», afirma o diretor-geral da OMC, Roberto Azevêdo. «Contudo, se os legisladores tentarem responder à perda de emprego no país com restrições severas às importações, o comércio não poderá ajudar a impulsionar o crescimento e pode mesmo constituir um atraso na recuperação», acrescenta.

Assumindo que as economias desenvolvidas mantêm políticas fiscais e monetárias abrangentes, que a recuperação económica nas economias emergentes avança gradualmente e que as medidas restritivas do comércio não proliferam, a OMC espera que o comércio de mercadorias aumente 2,4% em termos de volume em 2017.

Contudo, tendo em conta os riscos significativos e o período prolongado de fraco crescimento económico nos últimos anos, o crescimento pode ficar entre 1,8% e 3,6%.

«O crescimento do comércio mundial pode ser tão baixo quanto 1,8% em 2017 se os riscos emergirem ou pode ser tão alto quanto 3,6% se as nossas assunções básicas forem demasiado pessimistas, mas o potencial positivo é menos provável. Em 2018, o crescimento do volume de comércio deve ficar entre 2,1% e 4%», conclui a OMC.