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Etiópia atrai novos investimentos

Com eletricidade barata, mão de obra abundante e o apoio governamental à indústria têxtil e vestuário, a Etiópia está a atrair novos investidores, sobretudo provenientes da China, mas também da Índia. Nos primeiros seis meses do atual ano fiscal, o investimento estrangeiro já ultrapassou os mil milhões de euros.

A Etiópia atraiu investimento estrangeiro no valor de 1,2 mil milhões de dólares (cerca de 1,12 mil milhões de euros) nos primeiros seis meses do ano fiscal 2016/2017, com estas injeções financeiras a serem dominadas por grandes empresas chinesas – metade das quais no sector têxtil e vestuário. Os investidores, revela o just-style.com, incluem o Jiangsu Sunshine Group, que está ligado a têxteis e vestuário em lã, assim como a diversos outros sectores. A empresa decidiu investir cerca de mil milhões de dólares na Etiópia, segundo a Comissão de Investimento da Etiópia, tendo começado por preparar os recursos humanos, com a abertura de uma escola para melhorar as qualificações dos trabalhadores da indústria têxtil e vestuário na Etiópia.

De acordo com Mekonnen Hailu, diretor de relações públicas da comissão, «a maior parte do investimento recente está a ser feito por empresas chinesas na indústria têxtil e vestuário. O elevado nível de investimento está a ajudar a Etiópia a desenvolver-se como um centro produtor para o mercado têxtil mundial».

Dos 124 investidores estrangeiros que expressaram interesse no sector têxtil e vestuário da Etiópia nos últimos três meses, 71 eram chineses, segundoa Comissão de Investimento da Etiópia. Contudo, a indústria têxtil e vestuário indiana pode também ser um player importante no futuro, com mais de 30 dos investidores a serem provenientes deste país.

O conglomerado chinês Jiangsu decidiu criar um grande centro de produção têxtil na Etiópia pela mesma razão que vários outros investidores chineses estão a escolher deslocalizar as suas operações têxteis para este país africano, acredita Helen Hai, vice-presidente da produtora chinesa de calçado Huajian Group e conselheira do governo etíope para questões de estratégia industrial. «As empresas têxteis chinesas estão a mover-se para mais perto da sua base de matérias-primas, países produtores de algodão como a Etiópia. Isto faz parte do reposicionamento da cadeia de aprovisionamento, uma estratégia que a maior parte das empresas chinesas estão a adotar. As empresas estão também a usar África como porta e entrada para mercados emergentes no continente e para o mercado europeu», explica Hai, que ajudou a firmar o acordo de investimento do Jiangsu.

Crescimento económico

A economia da Etiópia registou um crescimento de dois dígitos nos últimos anos, evidenciando o ritmo mais elevado na África Subsaariana. O Banco Mundial projeta um aumento de 8,9% para o corrente ano. O investimento estrangeiro tem tido um papel crítico no sucesso económico do país, com o governo a assumir uma abordagem proativa ao oferecer pacotes de benefícios para atrair empresas têxteis e de vestuário que estão a tentar deslocalizar as suas bases de produção para África.

Os incentivos incluem acordos comerciais preferenciais e políticas de terra, que podem dar aos investidores isenção de impostos sobre os lucros até nove anos. As importações sem taxas de maquinaria, equipamentos e materiais de construção são igualmente incentivos usados para atrair investidores.

Todas as exportações de produtos fabricados na Etiópia para os EUA não têm impostos nem quotas sob o acordo African Growth and Opportunity Act (Agoa). Os mesmos benefícios estão igualmente disponíveis sobre as exportações para a União Europeia sob o acesso comercial “Tudo menos armas” concedido aos países menos desenvolvidos.

Além disso, a Etiópia oferece eletricidade extremamente barata, a 0,04 dólares por kWh. É atualmente o segundo maior produtor de eletricidade na África Subsaariana devido às suas barragens hidroelétricas – a Etiópia é a fonte de grandes rios, incluindo o Nilo Azul.

Estes custos baixos são particularmente atrativos para as empresas chinesas, já que o aumento dos custos da terra e do trabalho no seu país levou muitos negócios da indústria têxtil e vestuário a analisarem a mudança da produção para países africanos, como a Etiópia, para responder a este trabalho barato abundante – os salários são aproximadamente um décimo do dos trabalhadores chineses, segundo a comissão de investimento.

«A Etiópia tem uma população de 100 milhões, a segunda maior em África a seguir à Nigéria, e mais de 65% tem menos de 20 anos, tornando-a num centro de mão de obra que pode ser facilmente formada para corresponder aos requisitos da indústria têxtil e vestuário», destaca Zemedeneh Negatu, presidente do conselho de administração do Fairfax Africa Fund e ex-sócio da Ernst & Young Ethiopia.

Invasão estrangeira

As empresas locais também têm razão para ficarem otimistas com a «invasão têxtil estrangeira», considera Worku Zewde, diretor-geral da especialista etíope em sportswear em malha Knit to Finish. «Os investidores estão a colocar dinheiro na formação da força de trabalho local para ajudar a melhorar os padrões de produção. Para satisfazer os compradores estrangeiros, a qualidade da produção de algodão tem também vindo a melhorar. Espero que estas melhorias na indústria se expandam e beneficiem as empresas locais», aponta.

Para encorajar a procura, o governo etíope está a trabalhar para aumentar a qualidade e o volume do algodão produzido no país. Atualmente, estão disponíveis três milhões de hectares para cultivo de algodão na Etiópia, mas apenas 30 a 40 mil hectares estão a ser utilizados.

De acordo com a Comissão de Investimento da Etiópia, nenhum investidor estrangeiro parou as operações desde que o governo anunciou o estado de emergência em outubro passado. Embora algumas restrições tenham sido levantadas em março, foi colocada em prática uma extensão de quatro meses, que estará em vigor até 8 de agosto.

Para Hai, os benefícios de investir no sector têxtil na Etiópia ainda superam qualquer risco, acrescentando que a estratégia do governo de dar prioridade à indústria têxtil para que esta possa impulsionar o desenvolvimento económico e a criação de emprego é uma grande fonte de confiança para os investidores têxteis chineses. «Ao contrário de outros países africanos onde a corrupção na esfera política e financeira tornou os investidores muito nervosos, a Etiópia destaca-se para os investidores têxteis já que eles veem que os seus objetivos de negócio estão alinhados com os objetivos de desenvolvimento e a agenda do país», resume Helen Hai.