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Inditex: futuro assegurado

Amancio Ortega, fundador da Inditex, a maior retalhista de vestuário do mundo, e o homem mais rico da Europa, transferiu uma participação maioritária da empresa proprietária da Zara para uma holding de forma a garantir que o controlo familiar seja salvaguardado depois da sua morte.

Desde que a ex-mulher e cofundadora da Inditex, Rosalia Mera, faleceu em agosto de 2013, tem havido intensa especulação sobre a sucessão de Amancio Ortega. A segunda esposa, Flora Perez, faz parte da administração da Inditex e a filha de ambos, Marta, que teve a sua formação profissional na empresa, incluindo trabalho em loja, é frequentemente apontada como a sucessora.

Segundo a Reuters, o empresário de 81 anos colocou uma participação de 50,01% na Pontegadea Inversiones em dezembro de 2015, a par de mais de 6 mil milhões de euros em bens imobiliários.

Os herdeiros de Ortega vão agora receber participações na Pontegadea Inversiones, que agrega ativos no valor de cerca de 57 mil milhões de euros, em vez de ações da Inditex, que poderiam ser vendidas.

«A prioridade absoluta de Ortega é garantir o futuro da empresa, garantir uma participação controladora na Inditex que não seja diluída», afirmou fonte próxima da Pontegadea Inversiones à agência noticiosa quando questionada sobre iniciativa do empresário. A medida visa preservar a continuidade na propriedade e gestão, explicou a fonte.

Amancio Ortega construiu o seu império em meados dos anos 1970, passando de uma loja Zara na cidade natal de La Coruña, para uma rede de mais de 7.200 lojas que emprega dezenas de milhares de pessoas à escala global.

O seu sucesso teve um efeito bola de neve envolvendo empresas locais, como a Trison, que fabrica os monitores para as lojas da Zara, e a Candido Hermida, a fabricante do mobiliário que equipa todas as lojas do grupo Inditex. Já a Fundação Amancio Ortega investiu milhões em projetos de natureza social, como a abertura de jardins de infância na região e a formação de professores.

Ao fundar a Pontegadea Inversiones, Ortega pretendeu assim evitar o destino de empresas como a fabricante de chocolates Cadbury e a casa de moda Laura Ashley, cujas famílias fundadoras perderam o controlo dos seus impérios à medida que as suas participações se diluíram e se foram retirando da administração.

Ortega prefere assim o exemplo de outros fundadores de impérios corporativos bem-sucedidos. O designer Giorgio Armani criou uma fundação no ano passado para controlar o negócio, que começou a construir na década de 1970. Hans Wilsdorf, fundador da fabricante de relógios de luxo Rolex, colocou em 1944 todas as suas ações na Fundação Hans Wilsdorf, que detém e dirige a empresa desde a sua morte, em 1960. «Dependendo dos termos, isso deve ajudar a aliviar qualquer medo de que as ações sejam colocadas no mercado depois da morte de Ortega», explica Adam Cochrane, analista de retalho do UBS.

Por seu lado, Richard Hyman, analista de retalho independente, considera que a medida foi uma forma de proteger o portefólio de marcas da Inditex. «O ativo mais importante que a Inditex tem são as suas marcas e o maior risco para as marcas é a diluição», esclarece Hyman. «É difícil prever o que vai acontecer na indústria de vestuário, o sector mais arriscado do retalho. Proteger uma participação maioritária reduz as probabilidades de uma aquisição que poderia levar a cortes de custos que acabariam por prejudicar a marca», acrescenta.

Tudo em família

Amancio Ortega tornou-se o homem mais rico de Espanha aos 65 anos e, na última lista de milionários da revista Forbes, o empresário geria uma fortuna avaliada em 66,6 mil milhões de euros, assumindo-se como o quarto mais rico do mundo. À sua frente ficaram Bill Gates, fundador da Microsoft, Warren Buffett, investidor, e Jeff Bezos, fundador da Amazon.

Zelador da sua privacidade – raramente é entrevistado ou fotografado –, Ortega é um rosto familiar em La Coruña, cidade próxima de Arteixo, onde a Inditex está sediada. Jose Arnau é vice-presidente do conselho de administração da Inditex e tem estado envolvido na gestão da riqueza pessoal da Ortega desde 1997, tendo gerido os assuntos fiscais da Inditex entre 1993 e 2001. Flora Perez, a segunda esposa de Ortega, tem um lugar no conselho da Inditex como representante da participação de 50,01% da Pontegadea Inversiones. Os seus irmãos ocupam também posições-chave – Oscar Perez é diretor da marca Zara, enquanto Jorge Perez é diretor da Massimo Dutti.

A par de Marta, agora com 33 anos, Ortega tem dois filhos do primeiro casamento, Sandra, de 48 anos, e Marcos, de 46, nenhum dos quais fez carreira na Inditex. Sandra, a segunda maior acionista da Inditex, com uma participação de 5,05%, trabalha numa instituição de caridade galega focada em ajudar pessoas com deficiência a encontrarem trabalho. Marcos nasceu com paralisia cerebral.

A exceção

Fora da família, Amancio Ortega entregou o papel de presidente e CEO a Pablo Isla, de 53 anos, há seis anos. Durante o seu mandato, Isla viu o valor da empresa triplicar.

Mas Ortega continua a trabalhar diariamente na sede da empresa, supervisionando tudo, desde as coleções até ao design dos espaços.

Nos tempos livres, o empresário compra imóveis de primeira linha à volta do globo, investindo os dividendos da sua participação na Inditex, que fechou 2016 com um lucro de 3,6 mil milhões de euros, representando uma subida de 10% face aos resultados de 2015 (ver Inditex com lucro de gigante). Como consequência dos resultados recordes do grupo, a maior retalhista de vestuário do mundo revelou que pagaria aos acionistas um dividendo de 0,68 euros por ação, um aumento de 13,3% em relação ao ano anterior. A participação de Ortega gerará um pagamento de mais de mil milhões de euros, que se vão juntar ao total ganho pelo bilionário – cerca de 6 mil milhões de euros desde 2010 (ver Sr. Zara arrecada mil milhões).