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O espelho do planeta

De acordo com Coco Chanel, o estilo é eterno. Porém, as roupas necessárias para garantir esse atributo passam cada vez menos tempo nas prateleiras das lojas e nos guarda-roupas. A produção global de vestuário duplicou entre 2000 e 2014, à medida que as operações das empresas de vestuário se tornaram mais eficientes, os ciclos de produção mais rápidos e as amantes de moda foram adquirindo cada vez mais peças por menos dinheiro.

De apenas algumas coleções por ano, retalhistas como a Zara oferecem agora mais de 20. Deste modo, analisa o The Economist, mais de 150 mil milhões de novos artigos de vestuário são produzidos anualmente e os consumidores olham hoje para a roupa como algo descartável – é a denominada moda rápida, que termina o seu ciclo em aterros sanitários.

Por outro lado, as micropartículas plásticas que ficam nas águas depois da lavagem dos têxteis constituem uma parte significativa da “sopa de plástico” que está a poluir mares e rios – representando entre 15% a 31% dos 9,5 milhões de toneladas de plástico depositados nos oceanos todos os anos, de acordo com a União Internacional para a Conservação da Natureza (ver Vestuário nas ondas da poluição).

A maioria das empresas de vestuário sabe que, mais cedo ou mais tarde, a consciência dos consumidores para este assunto vai despertar. Isto é uma preocupação para as marcas e, sobretudo, para as de moda rápida, que se esforçam por encontrar alternativas.

Uma solução óbvia é a utilização de energia renovável para alimentar as suas instalações. Além disso, estas podem reduzir drasticamente o consumo de água e de produtos químicos.

Recentemente, a H&M comprometeu-se a usar apenas materiais reciclados ou matérias-primas ecológicas em todos os seus produtos até 2030 (ver H&M 100% sustentável em 2030). A retalhista sueca afirmou também ser a maior utilizadora de algodão certificado pela Better Cotton Initiative (BCI), recorrendo ao aprovisionamento sustentável. Em 2016, 43% do algodão total utilizado pela cadeia de moda deverá ter sido aprovisionado de forma sustentável e o objetivo é usar apenas esse algodão até 2020. A H&M é também uma das maiores utilizadoras de algodão orgânico, poliéster reciclado e liocel.

Já o método de produção Flyknit da gigante desportiva Nike reduz os resíduos em 60%, em comparação com a confeção convencional.

Várias marcas estão também a incentivar os clientes a reciclarem as roupas, devolvendo-as às lojas. Desde o arranque da iniciativa global Garment Collecting, em 2013, a H&M já recolheu cerca de 39 mil toneladas de desperdícios têxteis. Até 2020, a empresa pretende recolher pelo menos 25 mil toneladas por ano.

Quando as fibras naturais, como o algodão, o linho e a seda, ou as fibras artificiais criadas a partir da celulose, como a viscose, o liocel e o modal são depositadas num aterro sanitário agem, de certa forma, como os desperdícios alimentares, à medida que se vão degradando. Mas, ao contrário das cascas de banana, não é possível fazer a compostagem de vestuário, mesmo que sejam feitas a partir de matérias-primas naturais. Mais do que isso, quase todo o vestuário é hoje feito de uma mistura de materiais – incluindo muitas vezes poliéster. As fibras sintéticas, como o poliéster ou a poliamida, como são obtidas a partir do petróleo, demoram centenas de anos, por vezes milhares, a degradar-se (ver À procura de fechar o ciclo).

Nos últimos anos, a expedição de roupa em segunda mão para países africanos também deixou de resultar. Na década de 1980, o vestuário usado começou a chegar aos países africanos que tinham abandonado as políticas económicas protecionistas. Porque era mais barato e de melhor qualidade do que o local, a roupa em segunda mão dominou o mercado.

Em 2004, estimava-se que 81% do vestuário adquirido no Uganda era em segunda mão. Em 2005, segundo um relatório da Oxfam, a roupa em segunda mão correspondia a metade do volume das importações de vestuário na África Subsariana. Como resultado, na década de 1990, a indústria têxtil em países africanos começou a implodir. Por isso, alguns dos líderes regionais propuseram a proibição da importação de vestuário em segunda mão e as manchetes de que a roupa usada vinda do Reino Unido e dos EUA estava a motivar uma querela económica pós-colonial proliferaram.

A melhor solução parece, por isso, estar no vestuário com um ciclo de vida cada vez mais longo. O designer britânico Tom Cridland criou a “30 Year Sweatshirt”, uma gama ética e sustentável de camisolas – e, mais recentemente, de t-shirts – para homem e mulher com uma esperança média de vida de três décadas (ver Roupa que dura, dura…). Já o programa “Worn Wear” da Patagonia celebra a roupa e as histórias por detrás da roupa, aumentando a vida das peças através de remendos ou, quando necessário, reciclando-os para dar origem a algo de novo (ver Marcas imortais).