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Política desfila em Nova Iorque

O calendário nova-iorquino dedicado ao outono-inverno 2017/2018 reservava um dos desfiles mais aguardados da estação: a estreia de Raf Simons no leme criativo da Calvin Klein. Entretanto, a orbitar a antecipada mostra estiveram outras passerelles marcantes, muitas delas carregadas de mensagens políticas e sociais, entre o movimento anti-Donald Trump e o novo feminismo.

As luzes da primeira passerelle pensada para a próxima estação fria nos guarda-roupas femininos foram apagadas a 17 de fevereiro, em Nova Iorque. Entretanto, Londres continuou com as celebrações, segue-se agora Milão e, por fim, Paris. De Nova Iorque chegaram já as tendências-chave das coleções de marcas como Calvin Klein, Oscar de la Renta, Marc Jacobs e Yeezy, entre outras, e a AFP alinhou as 10 vencedoras.

Desfilar a mensagem

Na mais recente semana de moda de Nova Iorque não houve como evitar comentários sobre a chegada de Donald Trump à Casa Branca, com a elite cultural dos EUA contrariada pela derrota de Hillary Clinton, muito admirada pela indústria da moda.

A Public School, por exemplo, parodiou os bonés da campanha de Trump “Make America Great Again”, Mara Hoffman abriu o desfile com um manifesto e Prabal Gurung enviou para a passerelle modelos com t-shirts de protesto – a modelo portuguesa Sara Sampaio, por exemplo, vestiu uma t-shirt na qual se lia “sou uma imigrante”.

As bandanas brancas, destinadas a promover a tolerância, estiveram omnipresentes, incluídas em convites da Calvin Klein e usadas ​​pelas modelos na Tommy Hilfiger.

Plus size em passerelle

Depois de anos de queixas pelo facto das manequins não representarem a mulher real, as modelos plus size cruzaram finalmente a passerelle nova-iorquina.

Ashley Graham – autoproclamada ativista do corpo e a primeira modelo plus size a aparecer na capa da revista Vogue – desfilou para a Michael Kors e o designer Prabal Gurung, que desenhou uma linha de vestuário para a marca plus size Lane Bryant, incluiu as modelos Candice Huffine e Marquita Pring no seu casting.

Esbater tabus

Nesta edição, várias sobreviventes de cancro da mama desfilaram lingerie para a AnaOno, marca que desenha para mulheres que passaram por mastectomias ou reconstituições mamárias, numa tentativa de alertar para a doença.

Já a modelo australiana com Síndrome de Down Madeline Stuart, que também tem procurado desafiar os estereótipos da indústria da beleza, estreou a marca própria de moda no calendário nova-iorquino.

O hijab

Poucas semanas depois do presidente eleito Donald Trump ter proibido os viajantes de sete países de maioria muçulmana de entrarem temporariamente nos EUA, o hijab deixou uma importante declaração sobre tolerância nesta temporada de desfiles.

A americana de origem somali Halima Aden, de 19 anos, desfilou para a Season 5 da Yeezy, fruto da parceria de Kanye West com a Adidas, enquanto a designer Anniesa Hasibuan, nascida na Indonésia, voltou pela segunda vez consecutiva à passerelle nova-iorquina com um desfile exclusivo de hijabs combinados com vestidos iridescentes de princesa.

Mulheres de poder

Tailleurs de tweed, fatos clássicos e outras peças mais reveladores, com fendas, recortes e até mesmo tops tipo segunda pele fizeram com que a alfaiataria e a sensualidade se juntassem em Nova Iorque.

Tory Burch propôs uma coleção inspirada em Katharine Hepburn para uma mulher poderosa. Já Victoria Beckham apostou no menswear oversized com uma abordagem sensual e feminina, intersetando os coordenados com jogos de transparências, folhos e luvas XXL.

Diversidade

A Ralph Lauren propôs uma coleção de vibração nómada, em tons terrenos e cobre, com pormenores em couro e sandálias de cunha. Já o designer belga Raf Simons, que fez a sua estreia na Calvin Klein, bebeu inspiração na diversidade cultural americana, materializada depois em camisas cowboy, parkas que podem ser encontradas em todas as cidades frias do país e muita alfaiataria urbana com linhas minimalistas. O denim foi, também, peça chave, posicionando a Calvin Klein como parte integrante da cultura pop americana.

O designer indiano Bibhu Mohapatra, por seu lado, revelou que as suas musas inspiradoras foram as mulheres de todo o mundo, enquanto a designer chilena Maria Cornejo recrutou modelos de 16 países – do Uganda à República Dominicana.

Bella Hadid

A irmã mais nova da modelo de Gigi Hadid desfrutou de particular popularidade nesta semana de moda de Nova Iorque. A filha da modelo holandesa Yolanda Foster e do palestino Mohamed Hadid impressionou nas passerelles da Ralph Lauren, Anna Sui e Oscar de la Renta.

Veludo

As passerelles de marcas como Marchesa, Self-Portrait, Tibi e Dion Lee, Caroline Herrera, Derek Lam e Jason Wu foram algumas das que brindaram ao material rico, que teve diferentes expressões em casacos, saias, vestidos e, até, no calçado.

Novos horizontes

Intitulada “Respect”, a coleção da Marc Jacobs retraçou o nascimento do hip hop. Em silêncio total, sem qualquer banda sonora, as modelos desfilaram entre duas fileiras de cadeiras e as silhuetas lembraram o estilo de Dapper Dan

Entretanto, Zac Posen referiu que a mudança de tempos exigia uma postura diferente e organizou uma exposição de fotografia para fomentar o debate. Vera Wang, por sua vez, anunciou que iria mostrar a sua coleção em vídeo e Sophie Theallet apostou numa campanha de fotografia online.

As ausências

Nesta temporada de desfiles, várias foram as marcas ausentes da passerelle da Big Apple. A Tommy Hilfiger desfilou em Los Angeles, assim como a Rebecca Minkoff. Vera Wang optou por lançar um vídeo de apresentação da coleção no arranque da semana de moda e a Rodarte desfila na Cidade-luz. Na próxima temporada, a Lacoste regressa a casa e a Proenza Schouler junta-se ao êxodo e muda-se também para Paris.