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Robots ameaçam emprego

As opiniões não são unânimes, mas há cada vez mais provas de que a automatização poderá eliminar até milhões de postos de trabalho na indústria. Embora revoluções tecnológicas anteriores tenham tido consequências semelhantes, a diferença agora, referem especialistas, é que não estão a ser criados outros empregos para humanos.

Há um grande debate sobre qual será o efeito da automação na força de trabalho. Uma das formas para ajudar a perceber a questão, destaca a Fast Company num artigo recente, é analisar quantos trabalhos já foram tomados por robots.

O Secretário do Tesouro dos EUA, Steve Mnuchin, afirma que a automação não é algo que lhe tire o sono. «Não está ainda sequer no nosso radar… [está a] 50 ou 100 anos» de distância, referiu num evento organizado pela Axios. «Não estou preocupado de todo», acrescentou. «De facto, estou otimista», garantiu.

As declarações de Mnuchin contrastam com os avisos lançados pela última administração americana, que produziu relatórios sobre o impacto económico da automação. Neles dizia-se, por exemplo, que 1,3 milhões a 1,7 milhões de camionistas podem perder o seu emprego como resultado da tecnologia de transporte automático, sem condutor. «Vamos ter de ter uma conversa sobre como vamos gerir [robots e automação]», declarou Obama à Wired.

Uma nova pesquisa mostra que Obama terá provavelmente um melhor sentido da realidade do que Mnuchin. Olhando para o efeito dos robots industriais nos EUA, o estudo revela já como é que a automação está a levar à perda de emprego e à diminuição de salários a uma escala significativa e que novos empregos não estão a ser criados a uma taxa suficientemente rápida para os substituir. O estudo dá argumentos para aqueles que defendem que devemos responder aos impactos sociais das máquinas de inteligência artificial possivelmente com políticas radicais, como um rendimento básico universal.

As diferenças entre Obama e Mnuchin podem reduzir-se a política. A equipa Trump culpou as políticas comerciais, o excesso de regulamentação e os imigrantes pela perda de emprego no país, não a automação. Mas o contraste está também refletido na visão dos economistas. Alguns sustentam que os robots vão substituir os humanos no local de trabalho, levando a uma perda generalizada de empregos. Outros consideram que estes receios são exagerados: que a automação, tal como as revoluções tecnológicas anteriores, vai deslocar alguns trabalhadores, mas vai gerar novos empregos para compensar.

O problema com o debate até agora é este: é impossível saber porque tem por base futuras projeções e métodos menos do que científicos. Os partidários do “devemos preocupar-nos” apontam para pesquisas que ilustram o potencial da automação – por exemplo, um estudo muito citado da Universidade de Oxford refere que 47% dos trabalhadores americanos estão em risco nos próximos 20 anos. Além disso, destaca, há nova tecnologia a surgir todos os dias, incluindo bots de segurança e entregas. Entretanto, o campo dos “não nos devemos preocupar” aponta para analogias como máquinas de lavar no século XX em Inglaterra e quantas sociedades altamente industrializadas, incluindo na Alemanha, estão próximas do emprego total (isto é, toda a gente que quer um emprego, tem emprego).

O valor da pesquisa é que esta está baseada em resultados empíricos – o que realmente aconteceu no terreno. Analisa o impacto da maquinaria industrial automática nos EUA entre 1990 e 2007. E, além disso, o trabalho de Daron Acemoglu, economista no MIT, e Pascual Restrepo, da Universidade de Boston e Yale, desconta outros fatores, incluindo a forma como os produtores americanos enviaram milhares de trabalhadores para a China e para o México no mesmo período.

Acemoglu e Restepo são pouco ambíguos sobre como os robots nas fábricas automóveis e outras reduziram o emprego. Afirmam que cada novo robot reduziu a necessidade de até 6,2 trabalhadores em certas áreas individuais e que, devido à adoção da automação, os salários desceram entre 0,25% e 0,5% (cerca de 200 dólares num salário médio anual).

«Como há ainda relativamente poucos robots na economia americana, o número de empregos perdidos devido aos robots tem estado limitado até agora (entre 360 e 670 mil empregos…)», escrevem os autores. «Contudo, se os robots continuarem a disseminar-se tal como é esperado pelos especialistas… as futuras implicações agregadas da disseminação dos robots podem ser muito maiores», admitem.

O estudo concluiu que a automação afeta de igual forma homens e mulheres mas que, de acordo com o modelo dos economistas, os homens têm duas vezes mais probabilidade de não regressar ao trabalho. Isso pode dever-se ao facto das mulheres terem mais probabilidade de aceitarem novos empregos com salários mais baixos, apontou Acemoglu.

A Federação Internacional de Robótica afirma que há cerca de 1,5 milhões de robots industriais no mundo atualmente. O The Boston Consulting Group antevê que esse número aumente para 4 a 6 milhões até 2025. Se o aumento nos robots corresponder ao rácio de perda de emprego de Acemoglu e Restrepo, esta perda pode ser considerável, atingindo vários milhões. Isto antes sequer de se falar de máquinas automáticas fora do contexto industrial, incluindo escritórios, lojas de retalho e restaurantes de fast food.