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Sourcing desenvolve África Subsaariana

Desenvolver cadeias de aprovisionamento inclusivas através de práticas de sourcing responsável, criar locais de trabalho sensíveis ao género e investir na formação e educação são alguns dos passos que as marcas de vestuário estão a ser instigadas a dar para apoiar as mulheres trabalhadoras na África Subsaariana.

«Capitalizar o potencial da região pode transformar as economias nacionais e criar milhões de oportunidades de empregos formais, sobretudo para as mulheres», destaca um novo estudo do grupo sem fins lucrativos Business for Social Responsability (BSR).

Contudo, o estudo “Women’s Economic Empowerment in Sub-Saharan Africa: Recommendations for the Apparel Sectr” também sublinha, de acordo com o just-style.com, que «para atingir este potencial, é necessário haver um esforço concertado para aplicar lições de outras regiões e assegurar que os direitos humanos, condições de trabalho seguras e o reforço do poder das mulheres são prioridades para as marcas, fábricas e para os governos».

África tem o potencial de se tornar num grande player na produção de vestuário graças à sua grande disponibilidade de trabalhadores, baixos salários, incentivos à exportação e acesso conveniente tanto aos mercados americanos como europeus.

Isto é particularmente verdadeiro tendo em conta o aumento dos custos de produção na China, enquanto grandes incidentes de saúde e segurança em centros produtivos como o Bangladesh e o Paquistão significam que as empresas de vestuário estão agora a considerar novos destinos de sourcing. A recente renovação do African Growth and Opportunity Act (Agoa) até 2025, que permite o acesso sem taxas ao mercado dos EUA a alguns países na África Subsaariana, também ajudou.

Com efeito, o Banco Mundial anunciou a disponibilidade de um financiamento de 57 mil milhões de dólares para a África Subsaariana nos próximos três anos numa ação pensada para mudar a trajetória de desenvolvimento dos países na região.

Mas embora o valor das exportações de vestuário de África tenha atingido 9,9 mil milhões de dólares em 2013, a maior parte dessas exportações foram provenientes de países no Norte de África, como Marrocos e Tunísia, não de nações subsaarianas.

Apesar da África Oriental estar a registar crescimento, as exportações de vestuário de quatro dos principais países produtores subsaarianos – Etiópia, Quénia, Tanzânia e Uganda – são ainda relativamente baixas, com 337 milhões de dólares em 2013. Em contrapartida, as exportações de vestuário da China atingiram cerca de 177 mil milhões de dólares no mesmo ano. Atualmente, todos os países subsaarianos em conjunto representam menos de 1% das exportações mundiais de vestuário.

A Hennes & Mauritz (H&M) e a PVH Corp têm sido as compradoras de vestuário mais ativas na África Oriental, em particular na Etiópia e no Quénia. A Asda Stores, Belk, Gap, JC Penney, Levi Strauss, Primark, Tesco, VF Corporation e Wal-Mart Stores estão também a aprovisionar-se na região. Contudo, o estudo sublinha que embora o sourcing a partir da região se esteja a expandir, continua a ser uma pequena percentagem das compras globais destas marcas.

Tal como outras mulheres no sector em termos mundiais, os investigadores apontam que as mulheres na África Subsaariana – que constituem a maioria dos trabalhadores das fábricas de vestuário na região – enfrentam riscos de abuso e assédio sexual, menos oportunidades de subida na carreira e um acesso limitado a serviços básicos.

Em particular, o estudo destaca que os sete principais desafios do reforço do poder económico das mulheres são: baixos salários tendo em conta o aumento do custo de vida; limitada segurança no trabalho; baixa educação e nível de capacidade; falta de supervisores que apoiem e oportunidades de promoção limitadas; falta de conhecimento de saúde e acesso limitado a serviços; dificuldade em equilibrar o trabalho e a vida familiar, sobretudo o cuidado das crianças; e violência com base no género em casa e avanços sexuais não desejados no trabalho.

«A indústria está a dar a muitas mulheres a oportunidade de entrarem na força de trabalho formal», apontam os investigadores. Mas eles acrescentam que embora o emprego formal ofereça um rendimento, «as mulheres tipicamente estão nas posições de nível mais baixo e, como tal, são mais afetadas pela instabilidade económica ou o aumento dos custos de vida em muitas cidades da África Subsaariana».

De acordo com o estudo, os desafios da desigualdade de género custam atualmente à África Subsaariana um valor estimado em 95 mil milhões de dólares por ano. Também indica que tendo em conta a falta de um sector de produção de vestuário bem estabelecido na região, as marcas têm uma oportunidade única de mudar isso.

«As expectativas dos compradores mundiais – desde as exigências de auditoria a pressões de prazos – moldam as ações e decisões de outros atores na cadeia de valor. Isto, por sua vez, tem implicações reais para os trabalhadores, sobretudo as mulheres, que muitas vezes têm as posições e os salários mais baixos. Embora as marcas não sejam os únicos atores, através das suas políticas, práticas e influência, podem impulsionar a mudança tanto dentro das fábricas como no ambiente mais alargado de operações», refere.

O estudo enumera ainda várias recomendações para as marcas e retalhistas no sentido de dar mais poder às mulheres, incluindo cadeias de aprovisionamento inclusivas, locais de trabalho sensíveis ao género (assegurando que as mulheres têm voz nas decisões que as afetam), investir na formação e educação, promover ambientes sem violência nem assédio (nomeadamente com o reforço das políticas antiassédio e mecanismos de comunicação e imposição das mesmas, com zero tolerância a este tipo de comportamentos) e criação de comunidades inclusivas, que melhorem o acesso das mulheres a produtos e serviços essenciais.