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Sustentabilidade: da teoria à prática

A conferência anual “Integral Conversation”, organizada pelo gigante do têxtil e vestuário de Hong Kong Esquel Group, permitiu saber como marcas como a Patagonia estão fazer da sustentabilidade algo muito mais relevante do que um slogan publicitário ou estratégia de marketing.

Há anos que a sustentabilidade tem sido uma expressão frequentemente citada pela indústria têxtil e vestuário – sobretudo em investidas de marketing e publicidade. Porém, como podem as boas práticas ambientais ser integradas nas empresas, gerando lucro e aumentando a eficiência?

Esse foi o desafio proposto aos oradores da conferência “Integral Conversation” de 2016, organizada pelo Esquel Group, em Guilin, no sul da China, onde intervenientes provenientes de sectores como a moda, saúde e educação partilharam as suas experiências e opiniões.

Para Geoff Yang, diretor do Esquel Group e sócio fundador do fundo de investimentos norte-americano Redpoint Ventures, que aposta em empresas de tecnologia emergentes, a ascensão da chamada economia de partilha está a fomentar a sustentabilidade nas práticas comerciais e de gestão. «Isso melhora a produtividade e a eficiência através da partilha de recursos, por isso temos serviços como a computação em nuvem e serviços de monitorização em ascensão», afirmou ao portal Just-style.

Economia de partilha

A economia de partilha não é um assunto novo para a indústria da moda – as lojas de roupa em segunda mão estão no ativo há décadas. No entanto, a novidade vem com marcas como a Patagonia, que está a integrar tais práticas na sua estratégia de negócio.

A marca americana de vestuário outdoor implementou a este propósito um programa que vende vestuário Patagonia em segunda mão em colégios e universidades norte-americanas. «Acreditamos que está a nascer um mercado totalmente novo porque não podemos continuar a garantir materiais virgens ilimitados. O planeta tem recursos limitados e temos que tratar os resíduos de uma maneira diferente», defendeu Rosa Marcario, CEO da Patagonia.

Neste âmbito, os investidores têm vindo a apostar em serviços com base em dispositivos inteligentes destinados ao mercado de roupa usada.

Em Singapura, a Carousell, uma aplicação para smartphone dirigida a pessoas que vendem artigos em segunda mão, incluindo vestuário, completou a segunda rodada de financiamento de 35 milhões de dólares (aproximadamente 33,3 milhões de euros). Na China, o Alibaba Group investiu mais de 14,5 milhões de dólares no desenvolvimento da Xianyu, uma aplicação para itens usados.

A Patagonia tem inclusivamente um fundo de investimento interno, o “$20 Million & Change”, para financiar empresas que possam «melhorar o meio ambiente». Além de vestuário, a iniciativa investe em empresas emergentes nos sectores da alimentação, água, energia e resíduos.

Reciclagem

Como outras marcas de moda, a Patagonia é também uma grande defensora da prática da reciclagem.

Embora não seja novidade – grandes retalhistas como a H&M e a Uniqlo têm a correr diferentes programas de reciclagem de vestuário –, a Patagonia conta com a tecnologia para transformar garrafas de plástico em peças de vestuário e noutros artigos têxteis.

Com efeito, o programa de reciclagem de poliéster da marca desfruta de «grande sucesso, ajudando a extrair milhares de milhões de garrafas de plástico do fluxo de resíduos», revelou Marcario.

A Patagonia trabalha ainda com empresas de tecnologia, universidades e até governos para inovar dentro da sua cadeia de aprovisionamento. No entanto, como reconheceu Marcario, tais desenvolvimentos podem custar muito dinheiro. Estarão os clientes dispostos a pagar o “preço verde”? Muito provavelmente, se a marca conseguir conectar-se com os seus clientes a todos os níveis, admitiu o CEO. «Os nossos clientes estão interessados ​​em comprar um fato de mergulho da Patagonia feito de materiais sem petróleo, mas com algodão orgânico, estão interessados ​​no que podem fazer para melhorar as coisas», explicou, acrescentando que os consumidores não se importam de comprar algo que custe um pouco mais quando acreditam nos valores do produto. A Patagonia revelou, a este propósito, os primeiros fatos de mergulho sem neopreno.

Geoff Yang concorda, ressalvando que é vital aumentar a consciência ambiental para que «os clientes vejam a sustentabilidade como uma qualidade quando compram, porque se reconhecem na marca». O diretor do Esquel Group acrescenta que a razão pela qual a Patagonia continua a conquistar os consumidores, apesar dos seus preços relativamente altos, é porque faz da sustentabilidade um dos seus pilares. «Não se pode simplesmente dizer às pessoas que se faz um produto sustentável, tem de haver algo por trás disso», sublinhou.

Cadeias de aprovisionamento mais ecológicas

Tendo conhecido diferentes projetos em todas as indústrias, Yang salienta a tendência de customização em massa entre os produtores, incluindo os fabricantes de vestuário, afirmando que esta estratégia promove práticas sustentáveis.

«As linhas de produção estão a tornar-se mais eficientes e mais rápidas e as tecnologias permitem que as pessoas personalizem os seus artigos através da cor, por exemplo», apontou.

O desafio da China

Outro importante desafio da Patagonia é o mercado chinês. Apesar de a marca outdoor não ser um corpo estranho nos mercados internacionais, as vendas na China têm estado estagnadas, representando cerca de 10% da receita total da empresa.

A Patagonia mostra sinais de prudência na expansão e tem apenas um parceiro no país, embora Marcario acredite que há enorme potencial no mercado.

«Cada mercado tem diferentes questões ambientais com as quais lida e cada mercado está num nível diferente de filantropia ambiental. Então, escolhemos um parceiro local confiável que partilha os nossos valores para abordar o mercado cautelosamente», destacou.