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Gucci em vez de Gandhi?

Publicada a: 17/03/2008
Fonte: Portugal Têxtil
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Num país marcado pela extrema pobreza de grande parte da população, as marcas de luxo estão a crescer e a reforçar a sua presença entre uma classe média que gradualmente tem vindo aumentar. Na Índia de hoje, os princípios defendidos por Gandhi estão em parte a ser ultrapassados pelos artigos de luxo da Gucci.

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Gucci em vez de Gandhi?

Entre carteiras de couro e jeans rasgados de 200 dólares, Anuga Shah e as suas amigas estão a fazer compras num novo centro comercial de Nova Deli, revelando com orgulho que são «gastadoras». «Esta semana, é tudo Tommy», murmura Shah, de 26 anos, enquanto toca nas camisolas dentro da loja da Tommy Hilfiger. «Actualmente na Índia, adoramos andar com marcas. Vou gastar todo o meu salário numa marca conceituada e comer idli (bolos de arroz no vapor) o resto do mês».

O alargamento das classes média e alta do país deu origem ao surgimento dos auto-intitulados «brand-freaks», vítimas dos últimos artigos de luxo. Nesta cidade – onde o pai da nação, Mohandas Gandhi, construiu o seu austero ashram (comunidade religiosa) e rejeitou os têxteis estrangeiros – é a Chanel, com tecidos não fabricados em território nacional, que actualmente gera excitação.

A elite indiana há muito que se delicia com os artigos de luxo importados do Ocidente. Contudo, nos últimos meses, mesmo os Indianos que não podem adquirir óculos de sol de 600 dólares – mas que têm ainda algum rendimento disponível – têm-se tornado esbanjadores. Marcas como Prada, Jimmy Choo, Gucci e Louis Vuitton abriram lojas ou reforçaram a sua presença na Índia.

Janeiro marcou a abertura de dois dos maiores centros comerciais do país. No Select City Walk em Nova Deli, as mulheres quase que provocaram um motim enquanto se atropelavam para entrar na loja de cosmética M.A.C., muitas delas em busca da popular marca de sombra de olhos.

«Este ano, a Índia soltou realmente o “monstro” das marcas», afirmou Saloni Nangia, vice-presidente da Technopak, uma empresa indiana de pesquisa de mercado que estima que as classes média e média-alta representem cerca de 8 a 9 milhões de pessoas e que estão em crescimento, no seio de um país com uma população de 1,1 mil milhões de pessoas.

«Costumavam ser apenas os hotéis de cinco estrelas a ter lojas de gama alta», revela Nangia. «Mas agora a Índia está na verdade a ser actualizada tanto com marcas Premium como com marcas de topo no luxo. Além disso, o mercado de viciados em marcas está sempre a crescer».

No Outono, a revista Vogue, a bíblia da alta moda, lançou a sua edição indiana, a mais glamourosa de uma longa sucessão de revistas, desde a Elle à Marie Claire, que também têm edições no país. Um artigo recente na Vogue sublinhava «o crescimento da cultura do EU», revelando o quanto o paradigma indiano tinha mudado, com as mulheres a ter mais rendimento disponível e liberdade para o gastar nas suas necessidades em vez de na tradicional família alargada.

«Este é o ano da mulher indiana enquanto compradora de marcas», refere Bandana Tewari, editora de produções de moda da edição indiana da Vogue. «Acho estimulante termos escolha e um melhor estilo de vida com o crescimento da economia».

Num país com uma rica tradição nos têxteis, a alta-costura indiana está também a florescer. «A Índia ainda adora os seus saris de seda coloridos. Não passamos a usar preto e branco como o resto da Ásia», refere Tewari. «Recusamo-nos a mudar a nossa personalidade intrínseca. Estamos a recordar que a Índia sempre teve uma joalharia soberba e luxuosos saris tecidos à mão que têm 800 anos. É uma boa lembrança para nós, para que não seja só sobre importação. Estávamos a espalhar açafrão muito caro nas nossas sobremesas muito antes de termos caviar».

Tal entusiasmo não é partilhado por toda a gente. Para muitos, a crescente popularidade das marcas ocidentais serviu apenas para acentuar o fosso entre ricos e pobres num país onde a maioria da população ainda vive em pobreza extrema. Ao longo de uma das principais ruas, os outdoors da Tag Heuer estão lado a lado com mupis gigantes de canetas Mont Blanc, enquanto que, por baixo, crianças descalças em roupas rasgadas batem nas janelas dos carros pedindo esmola.

Ao mesmo tempo, uma nova loja Gucci em Nova Deli vende tigelas e camas para cães, com preços entre os 300 e os 500 dólares – tudo isto num país que tem mais cães vadios nas ruas do que praticamente qualquer outro no mundo, de acordo com os defensores dos direitos dos animais.

«Estamos a mudar muito e rapidamente enquanto nação», lamenta-se Vijay Bhai, de 81 anos, o zelador do ashram de Gandhi na cidade, que gosta de brincar dizendo que representa o simpático avô rezingão e poupado da Índia. «Toda a gente se devia lembrar que os trabalhos são bons quando se criam os centros comerciais. Mas não devemos esquecer os pobres e o que é importante na vida indiana. Gandhi era um homem humilde que usava apenas um pedaço de tecido para se tapar quando quis enfrentar o Império Britânico, não roupas de marcas sonantes».

Bhai e outros no sossegado ashram de Gandhi assinalaram o 60.º aniversário da morte de Gandhi em Janeiro último, mas com pouca pompa. Afirmaram que estão preocupados que o país esteja a abandonar a visão de Gandhi. «Se Gandhi estivesse vivo hoje, ficaria chocado com a forma como a Índia se tornou materialista», afirma Bhai.

Revelou ainda que escreveu aos directores das escolas para os encorajar a visitar com os seus alunos o ashram e ver as pequenas malas que guardam os parcos bens de Ghandi: uma tigela e algumas colheres, os seus famosos óculos redondos, alguns livros – tudo símbolos do seu estilo de vida austero e respeito pelos pobres.

Alguns dos que passam nos caminhos relvados do ashram afirmam que a emergência da classe média é algo que Gandhi teria apreciado, porque mais pessoas estão a sair da pobreza. É uma questão de desenvolvimento, consideram. «Não se pode ir para uma entrevista de trabalho numa multinacional usando apenas um pano», afirma Rutaunshi Patel, de 23 anos, que acabou o curso de Literatura Inglesa e visitou o ashram com um amigo. «É preciso tentar encontrar um equilíbrio. Na nova Índia, claro, isso é difícil».

Ritu Shah, 24 anos, que estava entre os turistas do ashram, disse recentemente aos pais que queria visitar o local no seu aniversário. «Eles perguntaram-me “Porquê? Não queres ir fazer compras?”», revela a rir enquanto transporta uma carteira de design no museu do ashram. «Eu disse “Não, mais compras não. Quero ver o que significa Gandhi”».

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