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A fibra do algodão

Publicada a: 06/05/2008
Fonte: Portugal Têxtil
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A subida dos preços da matéria-prima e a conversão de algumas áreas de cultivo para os biocombustíveis estão a preocupar os consumidores em todo o mundo. No entanto, estes aumentos não deverão reflectir-se nos preços finais do vestuário, numa altura em que também se verifica um acréscimo da procura de moda mais sustentável.

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A fibra do algodão

O aumento do preço do algodão não vai ter grande reflexo nos artigos para o consumidor final. Quem o diz é Damien Sanfilippo, coordenador de projectos de algodão na Pesticide Action Network (PAN UK), que refreia igualmente a recente preocupação com o aumento do cultivo destinado aos biocombustíveis.

Sanfilippo explica que, embora seja de esperar que algumas áreas de cultivo de algodão possam ser convertidas para a produção de biocombustíveis, em busca de uma colheita mais lucrativa, isso não irá acontecer em elevada proporção. «A concorrência com o biocombustível é bastante limitada porque nem todas as áreas onde se cultiva algodão serão adequadas para a produção de biocombustível», explica. O coordenador confirma que o exemplo dos EUA é uma preocupação relevante, mas «os agricultores da África Ocidental que dependem do algodão para os seus rendimentos, por exemplo, não se devem converter aos biocombustíveis».

No que respeita ao aumento dos preços, Sanfilippo não vê nada de estranho nisso. «O preço sempre foi muito variável». Mais importante, explica que um aumento de preço para as colheitas de algodão «não significa o fim da roupa barata, porque o que as pessoas não percebem é que o preço do algodão é praticamente negligenciável». Por exemplo: «mesmo que o preço do algodão aumentasse 20% isso iria traduzir-se num aumento de apenas 0,221% para os consumidores – assumindo que o valor acrescido passasse para os consumidores – por isso pode ver-se que não faz grande diferença no preço de uma peça de roupa».

Com efeito, são as diversas etapas ao longo da cadeia de abastecimento que acabam por fixar o preço cobrado pelo produto final. O preço da fibra de algodão orgânico, por exemplo, é negligenciável, mas o preço nas prateleiras reflecte as considerações ambientais e sociais ao longo da linha de produção, por isso algum aumento de preço para a fibra actual não se traduz num incentivo adicional para os produtores mudarem para o orgânico. «Acho que as oportunidades já existem e muitas pessoas estão a aproveitá-las. A produção de algodão orgânico tem aumentado 50% ao ano [globalmente]… Há poucos sectores no mundo que estejam a crescer a esta taxa».

Apesar da sua rápida expansão, o algodão orgânico representa actualmente menos de 0,5% do mercado mundial de algodão. Seria possível para todos os produtores de algodão do mundo voltarem-se para o orgânico? «Provavelmente não», afirma Sanfilippo. «O algodão não é apropriado para ser cultivado em alguns locais onde actualmente é cultivado. Onde as condições são boas, aí diria que sim, todos os produtores poderiam converter-se ao orgânico».

Sanfilippo acredita que se se escolher a terra apropriada para cada espécie deve haver área suficiente para cultivar algodão orgânico e responder à procura mundial, mas não se a procura continuar a crescer. Acredita que se forem usados melhores métodos de produção e os agricultores forem formados, a produtividade global do sistema de cultivo irá melhorar.

As barreiras que precisam ser ultrapassadas mudaram ao longo do tempo. Costumava ser a procura e a educação de retalhistas e consumidores, mas Sanfilippo acredita que isso está agora a mudar. Apesar da mudança, é preciso tempo e muito esforço para os agricultores se converterem ao orgânico, por isso o principal obstáculo é encontrar financiamento externo para dar formação. «Assim que os agricultores tiverem formação, os projectos de algodão orgânico poderão tornar-se financeiramente auto-sustentáveis mas precisam de alguma ajuda no início», explica Sanfilippo.

Nos últimos 10 anos, em muitos países pobres, os serviços de formação para a produção orgânica entraram em colapso – muitas vezes o único apoio que os agricultores recebem é dos fornecedores de químicos, que lhes vendem pesticidas e lhes mostram como os usar. O pouco apoio para agricultura orgânica que existe é liderada sobretudo por ONG’s e empresas privadas, mas a PAN UK espera que uma mudança nos grandes comerciantes de algodão que mostram interesse em produtos orgânicos possa levar a mais formação.

Com a recente polémica da escassez de produtos agrícolas alimentares, Sanfilippo é peremptório: «o que demonstramos várias vezes com o algodão orgânico é que os agricultores podem cultivar ambos, e esse é um dos principais princípios da agricultura orgânica, que os agricultores cultivem todas as culturas em rotação, por isso os agricultores de algodão orgânico em pequena escala cultivam duas vezes mais comida do que algodão. Graças ao aumento na procura de moda sustentável, isso permite-lhes cultivar algodão orgânico, mas também uma grande quantidade de alimentos orgânicos para a sua comunidade».

A moda sustentável é algo que muitos retalhistas da high street, que tradicionalmente usam algodão convencional, escolheram, introduzindo uma pequena gama orgânica dentro da sua colecção. Será que estas gamas “simbólicas” são um bom sinal? «Não pode ser mau porque ajuda a aumentar a produção», diz Sanfilippo. «A nossa principal preocupação é que precisamos de ter a certeza de que estes retalhistas se comprometem a longo prazo. É bastante claro que alguns têm um compromisso a longo prazo enquanto que outros estão apenas a usar as pequenas gamas como algo oportunista. Tentamos convencer os retalhistas há já muito tempo a usar algodão orgânico. Agora o objectivo é convencê-los a mudar a forma como fazem negócio e considerar estes assuntos como parte integrante da sua estratégia».

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