Após uma dezena de anos de crescimento forte, a Espanha, tal como os seus vizinhos europeus, foi afectada pela crise económica. O crescimento superior a 4% é coisa do passado e é já certo que os 3,8% registados em 2007 não se vão repetir em 2008. O Banco de Espanha prevê 2,4%, o BBVA, um dos maiores bancos do país, situa o crescimento entre 1,7% e 2,2% e os mais pessimistas, como o Fundo Monetário Internacional (FMI), aponta apenas para um crescimento de 1,8%. O consumo diminui enquanto o desemprego aumenta. É principalmente o sector imobiliário, actualmente em crise, que dá sinais de grande fraqueza. O fenómeno afecta, por agora, essencialmente o mercado residencial. Mas os analistas interrogam-se sobre o futuro dos centros comerciais em Espanha.
O balanço de 2007 foi animador. De acordo com um relatório da agência imobiliária Jones Lang LaSalle, 32 centros comerciais abriram no ano passado em Espanha, e 11 cresceram ou passaram a uma segunda fase de desenvolvimento. O que significa 862.300 m² de superfície bruta para arrendar e uma progressão positiva de 7% da superfície em relação a 2006. É certo que 2007 foi o ano mais fraco dos últimos cinco anos em termos de abertura e de superfície. Mas, paradoxalmente, é também o ano recorde em termos de superfície para o crescimento dos centros ou para segundas fases de desenvolvimento.
O ano em curso, segundo a Jones Lang LaSalle, deve registar um bom crescimento. 2008 pode mesmo ser um dos anos recorde (juntamente com 2003 e 2006), com uma estimativa de 1,2 milhões de metros quadrados inaugurados. «Estão programados cerca de 40 projectos. Alguns acabarão provavelmente por atrasar, mas a quantidade de novos centros será elevada. O início deste ano não é mau, pois seis centros já abriram as portas no primeiro trimestre, com uma superfície bruta para arrendar de 170.000 m²», assegura Silvia Chapinal, responsável dos estudos do departamento de retalho na Jones Lang LaSalle.
No Outono, será a vez da portuguesa Sonae Sierra abrir mais um centro comercial em terras de “nuestros hermanos”: o Plaza Mayor Shopping, em Málaga. Deste modo, o ramo imobiliário da Sonae parece não temer a crise em Espanha e tem, para além deste, um outro projecto que deverá estar concluído em 2010, o Pulianas Shopping and Retail Park, em Granada. Mais dois centros que se juntarão aos 12 já existentes, espalhados por cidades como Madrid, Barcelona, Oviedo, Santander e Toledo, entre outras. No total, a Sonae Sierra detém já 526.859 m² em Espanha, a que nos próximos dois anos se juntarão os 63.750 m² dos novos centros, num investimento de 154 milhões de euros.
No que respeita à crise, David Martinez, director de retalho dos centros comerciais da Aguirre Newman, explica que «é preciso não esquecer que os projectos inaugurados este ano ou em 2009 já foram lançados há muito tempo. Por isso, não sentimos a crise nesse sentido, e todas as marcas confirmaram a sua chegada a esses centros». Com efeito, segundo a Jones Lang LaSalle, para os próximos três anos haverá 58 projectos em construção e viabilidade para 41 novas licenças. Até 2010, a consultora prevê que Espanha seja o quarto país, depois da Rússia, Itália e Turquia, a abrir mais superfície em centros comerciais.
Embora estas previsões mostrem algum optimismo, tudo dependerá de facto da evolução da situação económica. De acordo com o índice de afluência da Football Ibérica, embora a frequência dos centros tenha aumentado globalmente no ano anterior, diminuiu 2,3% em Dezembro último, em comparação com igual período de 2006. Isto não impede todavia a Jones Lang LaSalle de se manter optimista: as vendas registadas num painel de centros comerciais em 2007 aumentaram 9%, segundo a agência, e isso apesar de uma progressão sensivelmente menos forte (4%) nos quatro últimos meses. A Aguirre Newman constata, contudo, um abrandamento da frequência desde o início do ano, «mas por agora esta menor afluência não teve consequências negativas nas vendas», assegura David Martinez.
O têxtil continua a ser uma das locomotivas dos centros comerciais. «Mas lamentamos a falta de diversidade; faltam marcas estrangeiras», explica David Martinez. As marcas fortes mantêm-se mais ou menos as mesmas: as cadeias do grupo Inditex, Mango e as marcas do grupo Cortefiel. Algumas marcas internacionais entraram em Espanha, como a Primark no centro comercial Plenilunio, perto de Madrid. Mas as entradas ainda são raras.
Para diversos analistas do sector, os promotores parecem agora voltar-se mais para as cidades médias, algumas até pequenas. «Já não se vê tanto grandes projectos em grandes cidades. Os promotores procuram agora um nicho de mercado que corresponde às cidades de 30.000 a 50.000 habitantes», observa Miguel Hernandez, director do programa de direcção de empresas imobiliárias na IE Business School. Regiões como a Catalunha, Galiza, Estremadura, Navarra ou La Rioja oferecem nesta área boas possibilidades aos promotores. Contrariamente a outras, completamente saturadas, como Astúrias, Múrcia, Madrid e ainda Aragão.