É tempo de deixar os artigos de designer e adoptar as falsificações, afirmam alguns chineses, com o “glamour falso” a tomar conta da maior nação em população do mundo. Anteriormente conotados como pouco ou nada sofisticados, os produtos falsos estão a ter cada vez mais um apelo chique na China e uma alcunha na moda – “shanzhai”.
Significando literalmente “forte na montanha”, o temo shanzhai é aplicado a tudo, desde ténis baratos a telemóveis para imitar as celebridades, aos próprios programas de televisão, e refere-se às remotas, e muitas vezes ilegais, localizações onde são mandados fazer.
O termo shanzhai também é extraído de um slogan popular da Revolução Cultural sobre uma aldeia modelo, Dazhai, que foi alterada para se ler: “Em agricultura aprende com Dazhai, na indústria aprende com Shanzhai».
A popularidade destes artigos parece, cada vez mais, ter tendência a crescer, com a economia chinesa a abrandar juntamente com o resto do mundo e os produtos de designer verdadeiros a sair da gama de preços acessível para cada vez mais chineses.
Muitos artigos de desporto shanzhai alteraram os nomes, tentando situar-se numa fina linha entre a imitação e o estritamente falso, e custam muito menos do que os artigos em que se inspiram, de marcas bem conhecidas.
Samsung passa a Samsing, Adidas para Odidoss ou Avivas e Hike, Like ou até Mike substituem a Nike, com o símbolo da empresa americana de artigos de desporto muitas vezes ao contrário ou com um floreado extra.
«É uma imitação, por isso não é falso e não infringe as leis de copyright. Talvez lhe falte inovação mas não é realmente má», considera Cui Lai, um estudante de Pequim.
Com efeito, há muito que a pirataria é um problema na China. Cópias dos mais recentes filmes de Hollywood aparecem nas ruas em formato DVD mesmo antes dos filmes serem lançados nas salas de cinema.
Os EUA e a UE já expressaram o seu descontentamento com Pequim inúmeras vezes em relação ao problema, que se reflecte nos laços comerciais e políticos entre as diversas partes.
A China afirma, no entanto, que está a tentar combater a pirataria mas que, sendo um país em desenvolvimento, poderá levar muitos anos a combater o problema.
Ainda assim, a crescente popularidade dos produtos shanzhai na China pode ser uma nova dor de cabeça para as marcas originais, a maior parte estrangeiras, que lutam para reforçar a sua propriedade intelectual na terceira maior economia do mundo.
«É possível que estas imitações possam, na verdade, tornarem-se bastante famosas localmente e nesse caso será consideravelmente mais difícil», afirma Scott Palmer, da Baker&McKenzie, especialista em leis anti-pirataria na China.
A pretensão das imitações aumentou a sua atracção. Os mercados de electrónica de Pequim registaram um aumento de comércio em artigos shanzhai.
«Acho que shanzhai é um exemplo das imensas capacidades da China», considera Jin Hui, de 21 anos. «Quer dizer, pensem nisso. Se conseguimos ter bons produtos e produzi-los de forma semelhante, esse é um sinal de progresso».
Este ano, a CCSTV – a China Countryside Television em oposição à estação de televisão do Estado, a China Central Television – colocou uma alternativa amadora à gala de Novo Ano Lunar da CCTV, embora não tenha conseguido chegar à sua audiência devido a problemas técnicos.
Apesar de todos estes exemplos, muitas pessoas na China consideram o fenómeno shanzhai embaraçoso. «O que é a cultura shanzhai? Na realidade, é a cultura da pirataria, da infracção dos direitos de propriedade intelectual e a cultura do banditismo», escreveu um blogger no popular portal da Internet chinês, sina.com.cn.