O Brasil possui um mercado interno com 200 milhões de consumidores e um PIB em crescimento constante, mesmo no actual período de crise internacional. Com estes indicadores, a necessidade de exportar é muito reduzida ou até inexistente. Mas, conforme foi referido na primeira parte do artigo (ver Quem precisa das exportações? – Parte 1), será que num futuro próximo, o Brasil vai transformar-se num “campeão” das exportações?
As importações estão a “explodir”
Comparado com muitos outros países, o Brasil é, em termos relativos, um importador de têxteis e vestuário ainda muito modesto. Comparando as importações brasileiras de têxteis e vestuário em 2008 (3,8 mil milhões de dólares, excluindo as fibras de algodão), com o consumo nacional correspondente (45,1 mil milhões de dólares), evidencia-se que a quota das importações é inferior a 8,5%.
No entanto, Roberto Prado, presidente do IEMI (Instituto de Estudos de Marketing Industrial, São Paulo), afirma que «não há dúvida de que o maior desafio hoje enfrentado pelo sector têxtil e do vestuário tem sido a aceleração do crescimento das importações brasileiras de matérias-primas e produtos acabados».
Entre 2003 e 2007, as importações brasileiras de fibras, têxteis e produtos têxteis quase triplicaram – de 1,06 mil milhões de dólares para 3,02 mil milhões de dólares –. Durante este período, registou-se um crescimento exponencial principalmente nas importações de fios e linhas – de 33 milhões de dólares para 495 milhões de dólares – e tecidos de malha – de 8,8 milhões de dólares para 255 milhões de dólares –. Em 2008, o valor em dólares das importações do sector (excluindo as fibras de algodão) aumentou 31%, passando dos 2.883 milhões para os 3.776 milhões de dólares. Durante o primeiro trimestre de 2009, devido à crise financeira mundial, o total das importações brasileiras de têxteis e vestuário diminuiu 37% em volume e 15% em valor (dólares).
Considerando isoladamente as importações de vestuário, evidencia-se, contudo, um aumento surpreendente, de 75%, para os 275 milhões de dólares durante o primeiro trimestre deste ano. Segundo a ABIT, 72% das 18.000 toneladas de vestuário importado são provenientes da China. De salientar que algumas categorias de produtos, que foram monitorizadas até ao final de 2008, ao abrigo de um acordo entre o Brasil e a China, para o auto-controlo chinês, mostram um crescimento importante, nomeadamente a seda (+147%), camisas de malha (+236%), casacos (+260%) e veludo (+805%).
Retalho atrai investidores estrangeiros
De acordo com Fabrizio Broggini, da empresa de consultoria Broggini do Brasil, o mercado brasileiro oferece um retorno mais rápido sobre o investimento do que os outros mercados BRIC, incluindo a China. Esta é, segundo o responsável, a principal razão pela qual os investidores estrangeiros estão a mostrar um interesse crescente pelo Brasil.
Enrique Coppel, proprietário da Coppel, cadeia retalhista mexicana com mais de 750 lojas de mobiliário, vestuário, calçado e electrónica de consumo, está entre os vários retalhistas estrangeiros que se preparam para entrar no mercado brasileiro.
Carlos Ferreirinha, ex-presidente da Louis Vuitton no Brasil e actual director da empresa de consultadoria MCF, em São Paulo, argumenta que a actual crise global poderia ser uma vantagem para o Brasil. Ferreirinha considera que, até agora, os grandes players do luxo sempre favoreceram os mercados europeu, norte-americano e japonês. Mas, para estabilizarem as suas receitas, têm agora também que olhar para os mercados emergentes como o Brasil. «Isto pode certamente trazer mais investimentos para o Brasil nos próximos anos», afirma o director da MCF.
Em Junho de 2009, um centro comercial de produtos de luxo com 80 lojas, baptizado Outlet Premium e gerido pela General Shopping, vai abrir as suas portas em São Paulo, contando com a presença de marcas internacionais como Zegna, Diesel e Ralph Lauren. Também a Hermès poderá fazer a sua primeira incursão no mercado brasileiro.
O Euromonitor International estima que, entre 2009 e 2013, o retalho brasileiro deverá crescer 24%, enquanto que o crescimento para a América Latina deverá ser somente 18%.
Entretanto, alguns retalhistas estrangeiros já estão a colher os frutos da sua presença no Brasil. Em 2008, a C&A deu aos retalhistas brasileiros de vestuário uma desagradável surpresa, ao ser a primeira marca de retalho em que os brasileiros pensaram, num inquérito realizado pelo periódico Folha. Comparado com a taxa de 11% de preferência da C&A, as cadeias de vestuário brasileiras ficaram bem para atrás: Pernambucanas (5%), Marisa (4%), Renner (3%) e Riachuelo (3%).
A multinacional holandesa, que tem cerca de 150 lojas em mais de 60 cidades do Brasil, atribui o seu sucesso a uma inteligente combinação de preços competitivos e alto impacto no mercado, onde contou com as campanhas de modelos brasileiras famosas, como Gisele Bündchen, Daniela Sarahyba e Fernanda Lima.