Os grupos de luxo estão a correr para se estabelecerem na China, mas o almejado mercado, que deverá ser o maior do mundo, é difícil de conquistar sem a existência de boas ligações com as autoridades locais ou sem parceiros que possam lidar com a mudança das regras.
O fabricante de produtos de beleza La Prairie, o joalheiro italiano Bulgari, a marca de produtos de couro Longchamp e a casa de moda Cerruti, encontravam-se entre as muitas empresas presentes no Reuters Global Luxury Summit que referiram que era difícil fazer negócios na China.
«A China é um pouco como o Faroeste», comparou o director-executivo da Cerruti, Florent Perrichon. «É necessário ser-se capaz de adaptar rapidamente e ter boas relações com as autoridades locais, bem como com parceiros locais», explicou
A francesa Longchamp, por exemplo, decidiu comprar o seu distribuidor chinês para conseguir o controlo e agora tem uma equipa chinesa para tratar das tarefas administrativas.
O director-executivo da Bulgari, Francesco Trapani, referiu que a burocracia local é extremamente complexa e que a expansão no mercado chinês representou um investimento significativo. «As regras mudam constantemente. De repente, vem um funcionário novo e há uma nova interpretação», apontou Trapani.
As regras e as mentalidades são muito diferentes de uma grande cidade e região para outra, refere Jean-Marc Jacot, principal responsável do relojoeiro suíço Fleurier Parmigiani. «As pessoas pensam que a China é um país, mas não é, são vários países. É necessário trabalhar com pessoas próximas ao governo, caso contrário, tudo vai demorar muito tempo», defendeu Jacot.
Os impostos sobre os bens de luxo na China são também algo a ter em consideração. Por exemplo, o preço de um automóvel Lamborghini é o dobro do preço praticado em Itália. Mas a Lamborghini, cujos preços na Europa oscilam entre os 180.000 e os 400.000 euros, está a usufruir da crescente procura na China.
A marca de automóveis espera vender mais de 100 carros na China continental em 2010, contra 80 no ano passado, com o país a representar cerca de 5% das vendas totais em 2009.
O director-executivo da marca, Stephan Winkelmann, considera que a mentalidade de negócios é um pouco diferente da europeia e observou, por exemplo, que o povo chinês tem dificuldade em aceitar que possam existir listas de espera para carros. «São pessoas de pagar a pronto», disse Winkelmann, acrescentando que se um carro não estiver no local para ser levado, a venda pode perder-se.
A China, actualmente o maior exportador mundial, é susceptível de ultrapassar os Estados Unidos da América (EUA) como o maior importador em 2016, segundo prevêem os analistas.
No ano passado, a China tornou-se no principal destino de exportação para a Austrália, Brasil, Japão e África do Sul e prevê-se que outros países sigam essa tendência, à medida que o apetite da China por importações continua a transformar a economia mundial.
Para a La Prairie, marca de gama alta pertencente ao grupo Beiersdorf, a China poderá ultrapassar os EUA dentro de cinco anos em termos de vendas, segundo defende o director-executivo, Dirk Trappmann.
Mas, segundo Trappmann, não será fácil. «A China é um dos mercados mais difíceis e exigentes, seguida da Coreia e do Japão», refere Trappmann, acrescentando que demorou pelo menos 12 meses para obter o registo dos ingredientes dos seus vários cremes faciais anti-envelhecimento.
As questões de certificação tornaram-se num foco de atrito comercial entre a China e as economias desenvolvidas. O presidente francês Nicolas Sarkozy apelou a um nível de igualdade para as empresas francesas na China durante a sua visita em Abril.
A Longchamp disse há alguns anos que a China exigiu a um rival que anexasse amostras de couro em todos os seus sacos, o que prejudicou as vendas durante algum tempo. O director-executivo, Jean Cassegrain, afirmou que o Brasil era comparável à China em termos de burocracia complexa.
No entanto, o produtor francês de champanhe Taittinger considera que o mercado chinês, onde as suas exportações estão a crescer 40% ao ano, é realmente importante. «A China é os novos EUA», proclamou o director-executivo, Pierre-Emmanuel Taittinger. «É por isso que temos de promover o champanhe na China - para torná-los felizes e pacíficos. Eles vão liderar o mundo durante os próximos 200 anos», concluiu.