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Trump defende protecionismo

O primeiro discurso de Donald Trump enquanto presidente dos EUA parece ter vindo reforçar a posição protecionista que defendeu durante a campanha eleitoral, com retórica a prometer «seguir duas regras simples: comprar americano e contratar americano».

No discurso inaugural, Trump afirmou que «a partir deste momento, vai ser a América Primeiro. Todas as decisões sobre comércio, impostos, imigração, assuntos externos, serão tomadas para beneficiar os trabalhadores americanos e as famílias americanas». O novo presidente dos EUA reforçou ainda que «temos de proteger as nossas fronteiras das consequências de outros países fazerem os nossos produtos, roubarem as nossas empresas e destruírem o nosso emprego. A proteção vai levar a uma grande prosperidade e força».

Embora ainda não seja claro o que é que a Administração Trump vai fazer para trazer o emprego de volta, uma declaração no website da Casa Branca afirma que «esta estratégia começa pela saída da Parceria Transpacífico (TPP) e por ter a certeza que novos acordos comerciais são do interesse dos trabalhadores americanos». O texto indica ainda que «o Presidente Trump está empenhado em renegociar o Nafta [Acordo de Comércio Livre da América do Norte com o Canadá e o México]. Se os nossos parceiros recusarem uma negociação que dá aos trabalhadores americanos um negócio justo, então o presidente irá dar conta da intenção dos EUA de sair do Nafta».

Durante a campanha, Trump também mencionou a imposição de taxas de 45% sobre as importações de bens produzidos na China, incluindo vestuário, levando a um maior receio de uma guerra comercial entre as duas superpotências.

E, mais uma vez, as primeiras declarações da Administração sobre a questão parecem confirmar esta posição. «Para além de rejeitar e renegociar acordos comerciais falhados, os EUA vão lidar com essas nações que violam acordos comerciais e prejudicam os trabalhadores americanos no processo. O presidente vai direcionar o Secretário do Comércio para identificar todas as violações comerciais e usar todas as ferramentas à disposição do governo federal para pôr fim a estes abusos».

Guerra comercial improvável

No entanto, uma nota do banco de investimento Credit Suisse considera que uma guerra comercial aberta entre os EUA e a China é «improvável».

Björn Eberhardt, diretor de investigação macroeconómica no banco de investimento, reconhece que Trump tem vindo a nomear figuras protecionistas para liderar as posições ligadas ao comércio e que é «altamente provável que estes nomeados também tragam seguidores com a mesma mentalidade para posições cruciais».

A nota indica ainda que «há várias leis que Trump pode usar para impor taxas e quotas sem a aprovação do congresso».

Se tentar aumentar as taxas sobre as importações, as dificuldades legais nos EUA – lideradas pelas empresas afetadas – deverão seguir-se e os países podem recorrer à Organização Mundial do Comércio (OMC) para se queixarem.

Contudo, Eberhardt sublinha que os países afetados recorreriam provavelmente a uma retaliação imediata com taxas impostas sobre bens americanos. Isso, indica, iria «com efeito anunciar o início de uma guerra comercial». No entanto, refere, «continuamos a ver este resultado como bastante improvável, já que claramente iria contra o desejo de uma grande parte da população americana que depende fortemente de importações baratas».

O diretor de investigação macroeconómica do Credit Suisse também destaca que «o próprio Congresso dos EUA não parece muito desejoso de aumentar as taxas, de acordo com declarações tanto do presidente da Câmara dos Representantes, Paul Ryan, como do líder da maioria no Senado, Mitch McConnell, desde as eleições americanas».

A nota sugere ainda que uma medida preferida poderá ser uma revisão geral do código fiscal dos EUA, incluindo a introdução de um “ajustamento de fronteira”. Este último iria isentar os rendimentos das empresas resultantes das exportações de impostos sobre as empresas, ao mesmo tempo que sujeita os rendimentos das importações a impostos.

Esta política tornaria as importações relativamente mais caras e as exportações mais baratas e pode ser visto como um compromisso viável para apoiar os exportadores americanos enquanto evitam o risco de retaliação resultante do aumento das taxas sobre as importações.

Contudo, embora esta proposta aparente responder às promessas eleitorais de Trump  para baixar os impostos sobre as empresas e encorajar a produção nos EUA, também coloca uma grande ameaça aos retalhistas de vestuário dos EUA, que dependem de artigos de vestuário importado e, com as suas vastas cadeias internacionais de aprovisionamento, pode deixá-los especialmente vulneráveis à mudança.

As estimativas sugerem que um «imposto de ajustamento na fronteira» pode aumentar as taxas sobre uma camisola de 1,75 dólares para 17 dólares – e que, com esta medida, as empresas de vestuário irão enfrentar um aumento de 300% a 500% nos impostos que pagam.

Aumentar a produção nos EUA, por outro lado, irá aumentar os custos para os retalhistas e marcas – e potencialmente levar a preços mais altos por parte dos consumidores – ao mesmo tempo que torna uma impossibilidade (pelo menos a curto prazo) devido à falta tanto de capacidade como de mão de obra qualificada.

Nafta a caminho do fim

Depois de Trump ter assumido a saída do TPP (ver EUA saltam fora do TPP), há ainda a possibilidade do novo presidente cancelar outros tratados como o Nafta, este já em vigor e com consequências mais gravosas, com «o Congresso em grande parte sem possibilidade de intervir».

No que diz respeito ao Nafta, Trump prometeu renegociar o acordo e assegurar um «negócio melhor» para os EUA. No entanto, continua pouco claro o que realmente quer dizer com isso.

Eberhardt conclui que a intenção aparente de Trump de ter resultados rápidos e a nomeação de personalidades que defendem o protecionismo para posições-chave «já assinala uma mudança para mais protecionismo».

Quer isso leve efetivamente a uma guerra comercial entre os EUA e outras economias é difícil de projetar, mas «o risco é real».