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Ver agora/comprar agita produção

Da Burberry à Tommy Hilfiger, um número crescente de marcas tem vindo a optar por contornar o calendário de moda tradicional, sincronizando as respetivas coleções com as estações e disponibilizando-as imediatamente para compra. Mas, quais as implicações do modelo ver agora/comprar agora na produção?

Na edição da Apparel Sourcing em Nova Iorque, realizada em janeiro último, representantes de diversos sectores da indústria reuniram-se para discutir opções emergentes para encontrar maquinaria, tecidos e fábricas que possam atender as suas necessidades de produção em constante evolução.

Para acelerar a velocidade de chegada das coleções ao mercado, muitas empresas de vestuário vão ter de reestruturar as cadeias de aprovisionamento, afirmou David Sasso, vice-presidente de vendas da Buhler Quality Yarns of Jefferson. Fiações como a Buhler estão a perceber o seu papel como parceiro no processo produtivo e a explorar questões que passam por descobrir as quantidades de fio e tecido necessárias para reagir à procura, adiando, por exemplo, o tingimento até ao último minuto. «Isso não acontece por acaso», reconheceu Sasso. «Precisamos de um compromisso com as marcas e retalhistas para podermos afirmar “isso fará com que a sua cadeia de aprovisionamento seja a mais eficiente”», explicou.

Além do seu fim de vida amigável para o meio ambiente, o algodão orgânico permite que as marcas e os fabricantes sejam mais céleres, garantiu Tara St James, fundadora da marca de vestuário feminino com preocupações éticas Study NY. Marcas que trabalham com o algodão orgânico optam muitas vezes por manter material cru em stock até saberem que cores planeiam produzir. Além do mais, as marcas que escolhem apenas uma cor podem negociar um melhor preço de produção, acrescentou St James.

A estamparia digital permite que as marcas de moda planeiem de forma inteligente, mudem rapidamente os seus estilos e tenham ainda o benefício adicional de serem sustentáveis. Na verdade, trata-se de um regresso aos bons velhos tempos, quando os clientes tinham um determinado artigo encomendado a um alfaiate ou costureira, apontou Arthur Friedman, editor do WWD.

No êxodo das fábricas de vestuário das Américas para a China e outros destinos na década de 1990, as empresas perseguiram preços de mão-de-obra mais baixos, referiu David Sasso. Muitas marcas tentaram «economizar 10 centavos e perderam um dólar ou dois, porque perderam também a capacidade de acompanhar o consumidor atual», explicou, acrescentando que muitas empresas subestimam o efeito que a velocidade pode ter na maximização das margens e na redução das promoções. Com efeito, stocks pequenos no retalho podem encorajar o consumidor a comprar “agora”, porque o produto pode desaparecer da loja rapidamente, admitiu Kai Chow, diretor de serviços criativos da consultora The Doneger Group.

A obsessão com o custo negligencia muitos outros fatores que podem ser mais importantes. Mesmo que a produção doméstica acarrete maiores custos, fatores como mínimos elevados e prazos longos no exterior significam, muitas vezes, que a produção local é mais rentável. Trabalhar com fábricas de proximidade possibilita maior controlo e flexibilidade, permitindo que os designers façam mudanças que seriam mais caras em fornecedores no exterior, defendeu Tara St James.

Não obstante, algumas fábricas domésticas desconfiam que as empresas potencialmente interessadas na produção local não se vão comprometer no longo prazo. Tal como as empresas de vestuário saltam de um país de aprovisionamento para outro, perseguindo o que é barato ou moderno, alguns fabricantes dos EUA não confiam que as marcas possam manter-se, afirmou David Sasso.

No entanto, marcas como a retalhista de moda rápida britânica Boohoo encontraram formas de facilitar a produção doméstica. Apesar de produzir 50% dos seus artigos no Reino Unido, a marca está a crescer a percentagens saudáveis ​​de dois dígitos, revelou Kai Chow.

No futuro, surgirão novos modelos de produção disruptiva, redefinindo o papel da marca e do retalhista, defendeu Tara St James. Conceitos como a microfabricação – isto é, artigos únicos ou em escala incrivelmente pequena – podem assumir-se um lugar-comum. «Um dia, todos teremos impressoras 3D nas nossas casas, vamos imprimir objetos de plástico, as nossas roupas», admitiu a fundadora da marca de vestuário feminino com preocupações éticas Study NY. Em vez de criarem produtos acabados, os designers de moda do futuro vão desenvolver programas e moldes e «o cliente vai ser o produtor e o comprador», concluiu.