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1001 formas de internacionalizar

Seja com o apoio às empresas em feiras internacionais, ações de promoção com outros sectores em mercados específicos ou até na lógica de missões inversas, são várias as receitas que as associações e empresas do vestuário, moda, têxteis-lar e mobiliário estão a empregar, como demonstraram na conferência Going Global.

Organizada pelo CENIT – Centro de Inteligência Têxtil, a conferência (ver Going Global para internacionalizar) reuniu no passado dia 19 de julho, no Porto, designers, empresas e associações para debaterem e exemplificarem a internacionalização em todas as suas vertentes.

Ana Lisa Sousa

«Até 2013 estávamos contentes com o mercado nacional, a maior parte das vendas eram feitas a nível interno e todos os outros clientes, os internacionais, batiam-nos à porta. Portanto era uma zona confortável. Só que chega a uma altura em que isso não chega», explicou Ana Lisa Sousa, administradora da António Manuel de Sousa. A especialista em gravatas, que detém a marca própria Vandoma, decidiu por isso fazer o reconhecimento dos mercados e avançar para a realização de feiras profissionais lá fora. «No ano passado deve ter sido o máximo de feiras que fizemos: 16», assinalou. O esforço tem resultado numa expansão no número de clientes, com os artigos da empresa a chegarem a cada vez mais mercados. «Conseguimos levar as gravatas a mais clientes, o relacionamento com os clientes é bom. Temos a sorte na nossa área de trazermos encomendas em cada feira», frisou a administradora.

Cristiana Costa

A jovem designer Cristiana Costa, responsável pela marca sustentável de vestuário feminino Näz, tem uma experiência mais contida mas igualmente positiva. «Quando comecei uma marca de moda sustentável, soube desde o início que Portugal não ia ser o nosso maior mercado», admitiu a designer. O processo começou pela visita aos mercados e por contactos iniciais com lojas. «Esse primeiro contacto com o mercado internacional foi fantástico porque obrigou-nos a crescer e deu-nos a entender como é que o mercado funciona lá fora. Cá em Portugal é completamente diferente. E quando achamos que realmente já tínhamos uma noção e queríamos expandir a marca para outras lojas e países, avançamos com o apoio e ajuda do CENIT para a Ethical Fashion Show», revelou. Mas a feira, por si só, pode não ser suficiente, considera Cristiana Costa. «O conselho que dou, e que foi o que eu fiz a seguir à feira, é abrir um showroom da marca com as próximas coleções. Convidei lojas e retalhistas com quem eu queria trabalhar. Acho que esse contacto pessoal é bem-vindo», acredita a jovem designer.

Luís Figueiredo

Já implementada no mercado nacional e internacional, a Laranjinha tem nas feiras, onde marca presença há 20 anos, uma importante plataforma de divulgação além-fronteiras. Mas «as feiras alteraram-se profundamente ao longo destes anos», começou por indicar Luís Figueiredo. «Com a internet, as redes sociais e a multiplicação de eventos, as feiras foram-se esvaziando na perspetiva do negócio imediato. Como o Churchill dizia, a democracia é o pior sistema político do mundo mas ainda não encontramos nenhum melhor. E, portanto, as feiras ainda continuam a ser essenciais, só mudaram a forma de negócio», afirmou. «Aquela perspetiva de que vamos para uma feira e saímos de lá com um camião de encomendas, isso acabou. Agora é obrigatório lá estar, porque se não se estiver, não se consegue estabelecer contactos nem se consegue arranjar clientes novos», referiu o administrador.

Ricardo Rocha

Foi com essa perspetiva que a Rorene, empresa familiar especialista na produção de vestuário em private label com 35 anos de atividade, avançou para a internacionalização há cerca de um ano. «Decidi dizer aos meus pais que achava que tínhamos potencial para seguir mais além. Por isso vim a um colóquio como este, ouvi falar sobre a internacionalização nos EUA – nunca seria para uma empresa que nunca internacionalizou – e avancei para a internacionalização. A primeira feira que fiz não foi nos EUA mas sim em Paris e correu muito bem», desvendou Ricardo Rocha. As feiras, concorda, não servem, contudo, para receber encomendas. «São networking puro e duro. É receber contactos. Depois o trabalho de casa é muito eficaz para dar continuidade e afunilar cada vez mais os contactos», assegurou.

O papel das associações

Neste trajeto das empresas rumo à internacionalização, as associações sectoriais têm tido o papel de direcionar e apoiar as empresas. Entre janeiro de 2017 e junho de 2018, o CENIT esteve presente «em 33 feiras, com registo de 155 participações. Um total de 229 empresários fizeram as malas connosco a promover Portugal e os seus negócios e fizemos 106 mil quilómetros. Uma curiosidade, Portugal ocupou uma área de 1.395 metros quadrados em todo o mundo nestes últimos 18 meses», enumerou Marlene Oliveira, head of international unit do CENIT.

Além disso, destacou o CEO Manuel Lopes Teixeira, o CENIT tem ainda desenvolvido campanhas de promoção e de imagem, como é exemplo o programa de televisão 100% ModaPortugal, na Sic Notícias, o showcase realizado em Paris no ano passado (ver (A)Mar Portugal em Paris) e o concurso internacional de jovens designers (ver Porto.ModaPortugal: são todos vencedores). «Queremos ser a referência made in Europe na indústria vestuário e moda de valor acrescentado. Claramente alguém que pense em valor acrescentado nesta área e que pense em produzir, tem de pensar em Portugal», justificou Manuel Lopes Teixeira. «Para desenvolver esta estratégia temos três pilares: trabalhar sobre as marcas a imagem; trabalhar sobre intelligence na perspetiva de dados de informação relevante do volume de negócio – felizmente temos cada vez mais empresas a pedirem-nos informação de apoio de conhecimento de mercado, não só estudos de mercados macroeconómicos, mas também listas de empresas ou clientes com determinado perfil; e as ações comerciais, em grande parte através de missões ou presenças em feiras», enumerou.

Miguel Pereira

Também a Apima – Associação Portuguesa das Indústrias de Mobiliário e Afins faz da presença em feiras profissionais um trunfo para ajudar as empresas de mobiliário a internacionalizarem o seu negócio. «No sector do mobiliário já somos reconhecidos no circuito profissional como os melhores», indicou Miguel Pereira, avançando que o reconhecimento não vem tanto do consumidor final mas dos profissionais que trabalham os interiores, como arquitetos, decoradores e designers. «Neste circuito já trabalhamos com os principais players a nível mundial», sublinhou. Além dos mercados tradicionais da Europa, nomeadamente em França, as empresas de mobiliário têm apostado igualmente em certames na China, em Singapura e até no Senegal. «Estamos espalhados pelo mundo. Não quer dizer que a associação tenha que estar presente, porque muitas vezes há caminhos que têm de ser trilhados individualmente pelas empresas, mas a maior parte é em conjunto que conseguimos demonstrar a força», afirmou Miguel Pereira.

Maria Alberta Canizes

Já na Home From Portugal, não só a associação apoia empresas de têxteis-lar lá fora, nomeadamente na Heimtextil, onde na próxima edição irá estar com 44 empresas, como criou um evento em Portugal para atrair clientes internacionais, que tem ganho força de ano para ano. Já na sua terceira edição, a Guimarães Home Fashion Week (GHFW) teve 27 empresas na primeira edição, 33 na segunda e na última, que decorreu no final de junho, teve 53 empresas portuguesas. «Conseguimos no primeiro ano trazer 60 compradores estrangeiros de todo o mundo, no segundo ano 150 e no terceiro ano 245», realçou Maria Alberta Canizes. «Com a honestidade que nos é permitida, achamos que temos feito um trabalho exemplar em prol dos têxteis-lar portugueses. A prova disso é os testemunhos que temos escritos, quer dos compradores, quer dos expositores, de que, de facto, é uma oportunidade única para mostrarmos o que Portugal tem de bom», salientou. Aliás, «a próxima edição da GHFW tem a adesão total das empresas que lá estiveram e já estamos com alguns problemas em termos de espaço. Isto não é uma feira, é um encontro B2B, cujo objetivo principal é não só fazer a internacionalização das empresas portuguesas, mas sobretudo também dar a conhecer ao mundo, e àquele mais longínquo, o que é Portugal, o que é a sua indústria de têxtil-lar, como está organizada, como pode responder e como eles podem estar certos de que quando vêm a Portugal encontram o parceiro ideal para os seus negócios».

Parcerias transnacionais

A conferência Going Global serviu ainda para a apresentação do projeto europeu Worth, ao qual o CENIT se associou. O projeto, liderado pelo instituto de investigação têxtil espanhol Aitex, é financiado pelo programa Cosme da UE, e tem como objetivo criar parcerias entre designers, produtores e fornecedores de tecnologia com o objetivo de prototipar ideias de projeto inovadoras em sectores como têxtil, calçado, mobiliário e decoração, couro, joalharia e acessórios.

Zicri Montiel

Com a segunda call aberta, os projetos a concurso têm de incluir no mínimo dois parceiros e no máximo três, sediados em países diferentes, seja nos 28 estados-membro da UE, seja nos 10 estados associados do Cosme (que inclui a Turquia, a Albânia, a Arménia, a Bósnia-Herzegovina, a Ucrânia, a Islândia, a Macedónia, a Moldávia, Montenegro e a Sérvia). «Se não conhecem um parceiro com quem trabalhar, não é um problema, porque podem encontrar alguém na plataforma da Worth. O programa Worth não é apenas um programa que dá financiamento, coaching e um showcase internacional. O apoio começa antes, durante o processo de matchmaking, na procura do parceiro. Atualmente há mais de 800 participantes na plataforma Worth e todos estão dispostos a entrar em parcerias transnacionais», apontou Zicri Montiel, project manager na Aitex.

Aos projetos selecionados por um júri de especialistas são atribuídos 10 mil euros para desenvolver o protótipo e, após a sua conclusão, os produtos resultantes são apresentados em dois eventos internacionais. «Estamos agora com a segunda call aberta, o prazo limite é 24 de outubro, mas encorajamos todos os candidatos a começarem o processo de candidatura o mais cedo possível, porque há vários passos que têm de ser concluídos antes de submeter o projeto», advertiu Zicri Montiel, que apelou à participação lusa. «Na primeira call, apenas uma empresa portuguesa [fornecedora de cortiça] esteve envolvida», revelou. «Precisamos de mais parceiros portugueses para fazerem parte do programa», concluiu.