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1999: o ano da viragem

O ano de 1999 fica marcado, para a indústria têxtil e do vestuário e também para a economia nacional, como um ano de viragem. Tendo sido o primeiro ano do Euro, aguardava-se com bastante expectativa qual o impacto da moeda única sobre a economia nacional.

Contudo, em parte, as expectativas de alterações fundamentais saíram goradas. O ajustamento à nova moeda foi suave, sem qualquer tipo de distorção sobre a globalidade da economia nacional. O facto mais marcante deste primeiro ano da era da moeda única foi a relativa fragilidade do Euro face ao dólar norte-americano, ao contrário das expectativas da maioria dos analistas.

Refira-se, contudo, que esta fragilidade da moeda única não é surpreendente, dada a discrepância registada nos ritmos de crescimento da economia norte-americana e da economia europeia. Assim, entre 5 de Janeiro e 30 de Dezembro de 1999, a moeda norte-americana registou uma apreciação de mais de 17,3% face ao Euro, levando a um forte aumento da competitividade dos produtos europeus no mercado dos EUA. A introdução da moeda única contribuiu, assim, para um aumento da competitividade das empresas exportadoras portuguesas. A desvalorização do Euro face ao dólar norte-americano permitiu que, por um lado, os produtos importados do resto do mundo pela União Europeia fossem relativamente mais caros em comparação com os produtos importados de Portugal e, pelo outro, que os produtos portugueses exportados para os Estados Unidos se tornassem relativamente mais acessíveis. Esta evolução, bem como o dinamismo da economia dos EUA permitiu que as exportações portuguesas de têxteis e vestuário para os Estados Unidos tivessem apresentado um crescimento superior a 9%, passando de 56 milhões de contos, em 1998, para 61 milhões, em 1999.

Outro facto marcante do ano de 1999 foi a expectativa criada à volta da conferência ministerial da Organização Mundial do Comércio, agendada para 30 de Novembro. Após uma série de rondas negociais, nas quais os países em vias de desenvolvimento tentaram colocar sobre a mesa a discussão acerca de uma possível aceleração do processo de liberalização do comércio mundial de têxteis e vestuário, o “folclore” criado à volta da reunião, bem como a posição de força assumida pela União Europeia e os Estados Unidos impediram que se avançasse neste campo.

Nesta perspectiva, da liberalização do comércio mundial de têxteis e vestuário, tudo ficou adiado. Contudo, o acordo celebrado entre os Estados Unidos e a China para a entrada desta na OMC foi, do ponto de vista do impacto que poderá vir a assumir, uma questão em evidência já no final do ano. A entrada da China na OMC, dependendo em grande medida do processo de transição que for negociado, poderá vir a ser ou uma forte ameaça para a ITV portuguesa, ou uma oportunidade de negócio.

Do ponto de vista macroeconómico, e na esfera da economia europeia, a política monetária seguida pelo Sistema Europeu de Bancos Centrais (SEBC) ao longo do ano contribuiu, por um lado, para a redução dos custos de endividamento das empresas e, pelo outro, para a evolução cambial negativa do Euro. O SEBC adoptou, desde o seu início, uma postura relativamente expansionista, mantendo taxas de juro, quer para a cedência, quer para a absorção de liquidez, a níveis relativamente baixos em termos reais. Esta política teve como principal objectivo apoiar o relançamento das principais economias da zona EURO, nomeadamente a economia alemã e francesa. Contudo, a política expansionista seguida pelo SEBC foi, de certa forma, economicamente desaconselhável para as economias menos desenvolvidas, como é o caso das economias de Portugal, Espanha e Irlanda, que, numa análise mais detalhada, apresentam alguns sinais de sobreaquecimento.

Apesar da política monetária relativamente expansionista seguida pelo SEBC, não se detectaram pressões inflacionistas sobre a economia portuguesa. Duas explicações poderão ser adiantadas para este facto. Em primeiro lugar, o mercado laboral português encontra-se cada vez mais flexível, flexibilidade essa conseguida mais por via de um recurso a formas alternativas da relação laboral (recibos verdes, etc) do que por via da legislação laboral. Em segundo lugar, a política seguida pelo Ministério da Economia relativamente à questão do preço dos combustíveis “imunizou” a taxa de inflação da evolução altista do preço do crude, tendo assim travado o efeito de aumento de preços que seria provocado pela transmissão dos preços relativamente elevados dos combustíveis praticados nos mercados internacionais. A taxa de inflação da economia portuguesa, avaliada pela variação homóloga do índice de preços no consumidor, variou em 1999 entre um máximo de 3,0% em Março e um mínimo de 1,9% em Agosto.

É contudo de assinalar que se tem vindo a assistir a uma forte subida das remunerações, provocada em grande parte por uma substancial redução na taxa de desemprego. A taxa de desemprego verificada no quarto trimestre de 1999 (4,1%) será, segundo a maioria das instituições, muito próxima da NAIRU (Non-accelerating inflation rate of unemployment), ou seja, Portugal estará a operar muito próximo, senão acima, da sua taxa de crescimento potencial. A actividade económica em Portugal, durante o ano de 1999, sofreu uma ligeira desaceleração, provocada parcialmente pelo fim de um ciclo que culminou na Expo 98 e na abertura da Ponte Vasco da Gama, obras que provocaram, em 1998, fortes crescimentos, quer no consumo público, quer no investimento.

No último trimestre de 1999, o indicador coincidente da actividade económica, que visa avaliar a evolução do PIB, registava uma variação homóloga de 3,3%, face ao valor de 4,3% registado no primeiro trimestre do mesmo ano. A evolução da produção industrial, avaliada pelo Índice de Produção Industrial, foi similar à registada pelo indicador de actividade económica, apresentando uma desaceleração durante todo o ano de 1999.

Relativamente à evolução da industria têxtil e do vestuário, além dos factores já mencionados, da introdução da moeda única e do fracasso da ronda negocial de Seattle, o ano fica marcado pelo fim do programa IMIT que permitiu, até ao final do mês de Março, o apoio a 1154 projectos, envolvendo verbas superiores a 277 milhões de contos. Contudo, comparativamente com 1998, o último ano poderá ser considerado como um ano de transição, com uma ligeira redução no volume de negócios e emprego da indústria, a par de uma descida nas exportações. Um factor que se destaca, porém, é a evolução dos custos do trabalho. Entre 1997 e 1999, a remuneração por trabalhador/hora cresceu mais de 15%. Em 1999, o aumento foi de 8,0%. Neste sentido, o desafio da produtividade coloca-se de uma forma cada vez mais aguda para a ITV nacional. Com os fortes aumentos dos custos de trabalho, é essencial um crescimento superior da produtividade de forma a ser possível manter a competitividade de um sector que, em Portugal, garantia mais de 252 mil postos de trabalho no final de 1999.