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2018 em revista – Parte 4

No produto ou nos processos, das matérias-primas aos têxteis-lar, passando pelos fios, tecidos, malhas e vestuário, foram muitos os resultados da investigação e desenvolvimento que se faz nas instituições e empresas portuguesas que viram a luz do dia em 2018.

António Teixeira (Penteadora)

Entre os diversos investimentos das empresas portuguesas da indústria têxtil e vestuário, incluindo no retalho, a área de inovação e desenvolvimento teve um foco considerável e foram vários os projetos que chegaram ao mercado em 2018.

Bem a montante da cadeia, no processamento de matérias-primas, a Cortadoria Nacional de Pêlo mostrou que se pode ser inovadora aos 75 anos e, depois de sete anos de investigação, criou um novo processo de extração do pelo de coelho que permite reaproveitar a pele para a sua aplicação em artigos de luxo.

Marla Gonçalves (Tearfil)

«No processo tradicional, o equipamento que retira o pelo da pele destrói a pele. Agora temos um corte por divisão que permite separar a pele, cortar o pelo junto à raiz e aproveitar integralmente a fibra sem destruir a pele», explicou o administrador Nuno Oliveira Figueiredo ao Jornal Têxtil. A empresa desenvolveu ainda um processo capaz de remover o pelo da pele do coelho com recurso a água oxigenada e enzimas, em vez do crómio e metais pesados tradicionalmente usados na indústria dos curtumes, tornando a produção mais sustentável.

Fios renovados

Carlos Gonçalves (MIT-Portugal da UMinho)

A sustentabilidade foi, de resto, impulsionadora da inovação nas empresas nacionais, de que é prova o Infini, um fio 100% biodegradável, obtido a partir do caule do milho, que é depois combinado com outras fibras como lã orgânica, cânhamo, linho, algodão orgânico e Refibra da Lenzing, que foi desenvolvido pela Tearfil em resposta a um desafio da Triwool. «O projeto pretende resolver a problemática da contaminação por plásticos dos oceanos. Existem já inúmeros projetos que trabalham reativamente, ou seja, que querem recolher os plásticos dos oceanos, reciclá-los, e produzir fios e produtos novos a partir do desperdício que já existe. Este projeto é diferente, é efetivamente trabalhar proativamente, isto é, trabalhar para evitar que esse desperdício aconteça», revelou Marla Gonçalves, diretora da Tearfil.

Xavier Leite (Têxteis Penedo)

A fiação teve ainda outras novidades em 2018, com o “nascimento”, por exemplo, do Cork.a.Tex-Yarn, um fio com elevada incorporação de cortiça resultante de um projeto promovido pela Sedacor em parceria com a Têxteis Penedo, o Citeve e a Faculdade de Engenharia da Universidade do Porto, através do laboratório associado LSRE-LCM. O fio de algodão revestido com cortiça iniciou os testes de industrialização, com a linha de produção piloto instalada no Citeve, inaugurada em março. «É um produto totalmente inovador e com sucesso total porque o mercado procura cada vez mais os produtos ecológicos, recicláveis. E acho que isto será uma novidade que vai trazer valor acrescentado. Estamos orgulhosos do trabalho que conseguimos», afirmou Xavier Leite, presidente da Têxteis Penedo.

Cortinas iluminam ambiente

A produtora de têxteis-lar apresentou ainda em 2018 o projeto LEDinTEX, uma parceria com o Citeve e o CeNTI, que deverá gerar mais de um milhão de euros de faturação anual a curto prazo. A produção das cortinas com iluminação LED, que pode ser acionada por Bluetooth, faz-se agora através de um processo industrial. «Temos uma patente já registada e esperamos atacar o mundo inteiro, se possível» adiantou o administrador Agostinho Afonso.

Tecidos sustentáveis

Nuno Oliveira Figueiredo (Cortadoria Nacional de Pelo)

No universo dos tecidos, a Penteadora criou duas novas linhas de produto, que chegaram o ano passado ao mercado. A linha Hybrid possui um revestimento especial que permite alterar o aspeto do tecido, ao mesmo tempo que lhe confere repelência à água. Já a Reborn usa os desperdícios das fiações de penteado e cardado do grupo Paulo de Oliveira, do qual faz parte a Penteadora, na produção de tecidos 100% lã e 60% lã/40% poliéster. «Temos que repensar, que reutilizar, pensar no que é que podemos fazer para trazer valor acrescentado aos nossos produtos», assegurou o diretor de vendas, António Teixeira.

Investigação académica em destaque

No campo académico, Carlos Gonçalves, aluno do MIT Portugal da UMinho, venceu o programa Startup Nano, que acelera startups de nanotecnologia, com uma manga de compressão ativa que ajuda a combater o linfedema dos membros superiores (caracterizado por um aumento do diâmetro dos braços) em pacientes com cancro da mama. O projeto, que resultou da parceria entre a UMinho, o CeNTI e o MIT, encontra-se atualmente num processo de patente a nível nacional. «Estamos a aguardar para breve o resultado do pedido de patenteamento e a finalizar os procedimentos necessários para submetermos o pedido para uma patente europeia, tendo em vista a futura comercialização do projeto», revelou Carlos Gonçalves.

Rui Miguel (UBI)

A investigação portuguesa no âmbito das instituições de ensino superior tem vindo, de resto, a aprofundar-se e são dezenas os projetos na área têxtil que estiveram em curso em 2018. A Universidade da Beira Interior não é exceção, com a instituição a prosseguir os desenvolvimentos na área dos têxteis inteligentes, antimicrobianos e para aplicação médica, incluindo um projeto para desenvolver antenas para telecomunicações com apenas materiais têxteis. «A investigação, quer em Engenharia Têxtil, quer em Design de Moda, e a ligação às empresas das duas áreas são dois vetores que estão sempre presentes e que queremos aprofundar ainda mais», garantiu Rui Miguel, presidente do Departamento de Ciência e Tecnologia Têxteis da UBI, ao Jornal Têxtil.