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2021 a duas velocidades

Especialistas em finanças e economia do IHS Markit publicaram as suas 10 previsões económicas para o próximo ano e apontam para duas velocidades, com 2021 a dever começar com uma recuperação lenta e a acelerar a partir do segundo semestre. EUA, Europa e China também avançam a diferentes ritmos.

[©Pixabay/martaposemuckel]

Tendo como tema geral o «ultrapassar a pandemia e monitorização de novos caminhos para a economia mundial», a diretora-executiva para a economia mundial Sara Johnson, o vice-presidente de ciências da vida Gustav Ando, o diretor de economia dos EUA Joel Prakken, o economista-chefe para a Europa Ken Wattret e o consultor financeiro Brian Lawson, todos do IHS, partilharam as suas perspetivas e previsões num webinar, onde revelaram 10 previsões para o próximo ano.

A primeira prende-se com a evolução do Covid-19. Embora o vírus deva permanecer na nossa vida, os especialistas do IHS antecipam que vacinas e tratamentos eficientes vão estar disponíveis para grande parte da população até meados de 2021, facilitando a transição para uma economia pós-pandémica.

«A chegada rápida de vacinas eficientes e a reabertura das economias deve gradualmente despoletar uma nova vaga de consumo em viagens e serviços, impulsionando um crescimento robusto na parte mais final de 2021», indicou Sara Johnson.

Embora a vacinação inicial se foque em trabalhadores da área da saúde e utentes de lares, o impacto comercial será disseminado. Contudo, o esforço de vacinação enfrenta barreiras logísticas, incluindo o aprovisionamento de matérias-primas e a distribuição.

Apesar da recuperação no terceiro trimestre por toda a Europa, o PIB real está ainda bastante abaixo dos níveis do quarto trimestre de 2019, com exceção da Irlanda. Tendo em conta as perdas do PIB, um jato de crescimento deverá surgir com o pós-vacinação em meados de 2021, embora os problemas fiscais e baixas taxas de crescimento potenciais coloquem dificuldades a longo prazo.

Como tal, e na segunda previsão, a economia mundial vai entrar em 2021 com uma taxa de crescimento menor e deverá acelerar no segundo semestre.

A economia mundial deverá recuperar em 2021, liderada pela Ásia e pela América do Norte, com todas as regiões a regressarem à expansão económica em 2021.

«Depois de um declínio de 4% em 2020, a economia mundial deverá expandir-se 4,5% no próximo ano, com a produção mundial a dever atingir um novo pico», referiu Johnson.

Efeitos retardados

Isto irá permitir aos investidores e legisladores abandonarem as preocupações com o Covid-19 para passarem a focar-se no ambiente – a terceira previsão.

As crescentes preocupações ambientais, sociais e de governance irão aumentar a sua importância e impacto nas empresas e governos. Um aumento do foco político nesta questão vai abranger desde a taxonomia da União Europeia à candidatura da Reserva Federal dos EUA para se juntar à Networking for Greening the Financial System.

[©Pixabay/Frauke Riether]
Os especialistas do IHS também antecipam que as políticas monetárias vão manter-se conciliatórias e que mais bancos centrais vão inclinar-se para a forma flexível de definição da meta para a inflação média da Reserva Federal americana. Dessa forma, as previsões para lucros e dividendos permanece de alguma forma salvaguardada. No fundo haverá ganhos modestos nos preços em 2021.

A quinta previsão espera que o sector financeiro mundial evite grandes crises em 2021, pelo menos nas economias avançadas, embora os riscos com a banca devam aumentar.

Múltiplos fatores adversos vão estender-se para 2021, mesmo que o vírus seja contido, embora muitos desses sejam graduais em vez de eventos de choque. Isso inclui a inevitabilidade de estragos duradouros na economia provocados pelo Covid-19 que levem a um aumento da falência de empresas ao longo do tempo e a muitas perdas de postos de trabalho.

A deterioração do crédito está adiada e mascarada pelas medidas estatais para mitigar a pandemia. Globalmente, registam-se maiores dívidas externas dos países e das empresas, mas o apoio do estado é provável quando for possível para preservar a estabilidade sistémica. Países mais fracos e em dificuldades continuam vulneráveis a stress financeiro localizado.

A sexta previsão aponta para um aumento dos preços dos bens finais. Os preços das matérias-primas para a indústria aumentaram fortemente desde o início de maio, atingindo os níveis mais altos desde setembro de 2014. Estes aumentos de custos vão cair nos próximos seis a nove meses. Com o tempo, o IHS Markit acredita que os preços das matérias-primas vão crescer de forma relativamente lenta ao longo de 2021.

A retoma nos preços das commodities vai gerar uma aceleração nos preços dos bens finais nos próximos seis a nove meses. Com as vacinas de Covid-19 a ficarem vastamente disponíveis, a procura do consumidor e as pressões de preços vão começar a mudar dos bens para os serviços.

Diferentes velocidades

Em relação aos EUA, os especialistas antecipam que a economia comece 2021 devagar e acelere no segundo semestre. Se outro pacote de estímulo modesto for implementado e um programa de vacinação bem sucedido estiver a bom ritmo no verão, o crescimento real do PIB no ano deverá ultrapassar os 4%, com uma razoável boa probabilidade do crescimento superar os 5% no segundo semestre do ano.

A IHS considera que a agenda fiscal do presidente-eleito Joe Biden é ambiciosa, mas pouco provável de ser implementada em 2021.

[©Pixabay/S K]
Já na Europa, as expectativas são menos positivas. A prevalência de Covid-19 e as medidas de confinamento vão continuar a atrasar a recuperação no início de 2021. O aumento das insolvências e do desemprego, que têm sido retardados, deverá restringir o crescimento à medida que os apoios diminuem, embora o IHS espere uma recuperação pronunciada provocada pela vacina nas taxas de crescimento da Zona Euro a partir de meados do ano. O PIB real da Zona Euro deverá subir 3,5% em 2021, com o regresso aos níveis anteriores à pandemia a não ser esperado até ao final de 2022.

A economia da China continental, por seu lado, vai acelerar para a taxa de crescimento mais forte dos últimos anos, mas a retoma vai esmorecer. A China Continental está a usufruir de um ressurgimento económico, mas não deverá durar, apontam os especialistas da IHS. Com as reformas económicas estagnadas, o crescimento da produtividade está a abrandar. Em resposta ao aumento em 2020 da dívida das empresas, o governo vai restringir a liquidez. As empresas estrangeiras vão continuar a diversificar o seu sourcing, afastando-se da China.

Por último, como 10.ª previsão, o dólar deverá ficar mais fraco em 2021, numa resposta atrasada à política da Reserva Federal no início deste ano e a um aumento na tolerância de risco dos investidores.

A taxa de câmbio do dólar deverá cair até meados de 2023 em resposta à expectativa de que as taxas de juro dos EUA continuem baixas por um período alargado, a um aumento na tolerância ao risco dos investidores, que deverá levar à recuperação nas moedas em alguns mercados emergentes, e à persistência de grandes défices correntes dos EUA.

«No fundo, o crescimento económico mundial em 2021 vai começar lento e acabar rápido», resumiu Johnson. «Apesar de uma aceleração nos preços dos bens finais, no geral a inflação vai manter-se moderada em 2021, com a produção e o emprego a permanecerem abaixo do potencial», concluiu.