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4 desejos para o futuro da ITV

Nas iTechStyle Talks by CITEVE, no último Modtissimo, Alexandra Araújo, CEO da LMA, Susana Serrano, CEO da Acatel, João Almeida, CEO da JF Almeida, e Mico Mineiro, COO da Twintex, expressaram quatro desejos para o futuro da ITV.

No encerramento das iTechStyle Talks, que decorreram durante o Modtissimo, no seu regresso à Exponor no passado mês de fevereiro, este painel, moderado pelo diretor-geral do CITEVE, António Braz Costa, foi dedicado à realidade quotidiana das empresas, cada vez mais procuradas por clientes internacionais, com dificuldades cada vez maiores ao nível da mão de obra e dos custos produtivos, mas otimistas para o futuro da indústria têxtil e vestuário (ITV). «Estamos muito positivos na LMA. A procura tem sido grande, acreditamos que vai ser um ano animado, mas estamos preocupados – bastante preocupados – com os nossos custos e como vamos arranjar equipa para trabalhar com tanta procura», afirmou Alexandra Araújo, CEO da LMA. O mesmo acontece na JF Almeida. «Já não falo de mão de obra qualificada, já não reclamo isso porque internamente criámos escolas para formar costureiras, para formar tintureiros, para formar tecelões», explicou João Almeida, CEO da JF Almeida.

António Braz Costa

Uma outra solução pode passar pela produção da ITV fora do país. «Está a acontecer, a indústria portuguesa de confeção está a sair para Marrocos, em muitas circunstâncias, quando não consegue arranjar capacidade produtiva aqui», salientou Alexandra Araújo. É o caso da Twintex, assumiu Mico Mineiro. Apesar de ter criado a Twintex Academy e de empregar pessoas de diferentes nacionalidades, a empresa sediada no Fundão tem tido dificuldades em responder à procura em Portugal e, como tal, está a usar Marrocos como plataforma produtiva. «Produzimos em Marrocos porque não temos hipótese nenhuma de viver de outra forma. E não vamos a Marrocos por preço, não vamos a Marrocos por outro motivo qualquer que não seja capacidade – temos de ter capacidade de entregar aos nossos clientes na data. Conseguimos desenvolver um produto, ter os tecidos, mandar a Marrocos e receber em três semanas. Em Portugal não conseguimos isto de forma alguma. Em Marrocos há bom e há mau, há barato e há caro, é como em todo o lado do mundo. Porquê Marrocos? Porque geograficamente, estou em minha casa em Tortosendo e consigo estar no barco em Tarifa em cinco horas e passado meia hora estou em Tânger a trabalhar. Saio de casa de manhã e à tarde trabalho em Marrocos», justificou o COO da Twintex.

Mico Mineiro

Um outro problema na ITV prende-se com os custos de produção. «Tivemos dois anos muito bons, com muita faturação, muita procura, mas chegámos ao final do ano – e agora no início deste ano – em que não é só o gás ou a eletricidade: é a matéria-prima, são os químicos, é tudo [a aumentar de preço]. Estamos numa fase em que temos muita procura, o “made in Portugal” está num estádio em que nunca esteve antes, fazemos produtos de qualidade, estamos a ser reconhecidos diria que quase mundialmente, mas estamos com esta dificuldade enorme que é: como vamos dar reposta tendo todas estas dificuldades de preços, de mão de obra, de competências e tornar as nossa empresas competitivas em Portugal para a internacionalização», resumiu Susana Serrano. Uma ideia corroborada por João Almeida. «Além dos preços da energia, temos de falar da água – o preço do metro cúbico que se paga no sector têxtil, principalmente na área da tinturaria, é ridículo comparativamente com outros mundos e outros países», acrescentou.

Foco na sustentabilidade

Alexandra Araújo

A sustentabilidade da ITV foi igualmente um tema em cima da mesa. A certificação nesta área é, para Alexandra Araújo, «essencial» e a CEO da LMA acredita que «chegamos a uma maturidade na nossa indústria têxtil em que [a sustentabilidade] está implementada». Embora nem sempre os clientes estejam dispostos a pagar o preço que isso acarreta, a indústria nacional tem procurado soluções. «Tentamos ter uma abordagem comercial a marcas que efetivamente tenham a mesma linha estratégica que nós em termos de sustentabilidade, porque é mais fácil entrarmos nesse mercado, pois são pessoas que têm já uma exigência superior e até contemplam isso no valor», referiu Susana Serrano.

,João Almeida

Há ainda a questão financeira, destacou João Almeida. «Neste momento, se as nossas empresas não forem ou não tiverem políticas sustentáveis, também não são sustentáveis financeiramente. Estamos a falar de água, de recursos energéticos como fotovoltaicos, caldeiras a biomassa – para sermos sustentáveis temos que ter essas políticas, não só para espelhar isso aos nossos clientes, mas também para ser sustentável financeiramente», considera. Além disso, «neste momento existem certificados para entrar em determinados clientes: para trabalharmos com a H&M existe uma plataforma que se chama Higg FEM [Higg Facility Environmental Module] e, mediante as medidas de sustentabilidade que as empresas têm, se não passarem dos 40% (a JF Almeida está nos 62%, parece pouco mas é muito bom), esqueçam», exemplificou o CEO da empresa de têxteis-lar.

E, na Twintex, há ainda um grande foco na sustentabilidade social, nomeadamente com o cartão Life, que é atribuído aos funcionários e familiares diretos e concede descontos numa série de compras e serviços, do dentista à bomba de gasolina. «Temos cerca de 1.500 cartões de desconto emitidos e isto é sustentabilidade», sublinhou Mico Mineiro.

Susana Serrano

É também neste âmbito que o COO da Twintex formulou um desejo para tornar a ITV mais atraente. «Nenhum gestor ou responsável de uma empresa se revê no nível de salários que o nosso país paga na nossa indústria. Porque nós não somos responsáveis de empresas, nós somos responsáveis pelas pessoas que trabalham nas empresas, elas é que são responsáveis pela empresa. E quanto mais nós dermos a essas pessoas, mais tiramos das nossas empresas, logo melhor serviço terão os nossos clientes. E há um pormenor ou dois na realidade fiscal do nosso país que deve ser revisto. Para mim era um sonho deste ano, era um desígnio importante, que as horas extraordinárias deixassem de ser tributadas, pelo menos na parte que cabe ao trabalhador», afirmou, deixando uma chamada de atenção: «não disse que a empresa não deva ser taxada, disse o funcionário. E não vejo sindicato nenhum a defender isto». Também João Almeida defende a revisão fiscal, acrescentando como segundo desejo «a união das empresas», algo que «já está basicamente a ser concretizado», considera o CEO da JF Almeida, que aponta os consórcios na área da investigação como um exemplo de cooperação empresarial. «Por favor unam-se, porque unidos somos mais fortes», apelou.

Um terceiro desejo foi formulado pela CEO da Acatel que, apoiando os dois anteriores, espera que haja medidas para diminuir «a conta do gás e da eletricidade, porque estamos a ficar completamente entupidos em termos de preço e começa a ser muito difícil as empresas gerirem desta forma».

Já Alexandra Araújo lançou o repto para que haja incentivos às empresas que produzem em Portugal com melhores resultados, que se «crie uma forma de medir o que tu enriqueceste o teu país naquele ano», concluiu.