A mulher urbana
As transformações dos perfis económicos continuam a ser uma tendência crescente que molda o panorama do consumo em território chinês. O consumidor nacional tornou-se mais próspero mas esta tendência é particularmente visível entre o sexo feminino, com particular destaque para as mulheres chinesas que vivem e trabalham em centros urbanos.

As mulheres chinesas auferem substancialmente menos que os seus pares do sexo masculino – de acordo com o Euromonitor a diferença era de 40,7% em 2013 – mas continuam a assistir a um aumento do seu poder de compra.

Em 1995, os homens respondiam por 90% do consumo de bens de luxo na China, afirma a consultora Bain & Co. Atualmente, as mulheres são responsáveis por metade do total das aquisições de bens de luxo internas, denotando a sua crescente independência e poder aquisitivo.

Em simultâneo, as mulheres são, também, cada vez mais responsáveis pela tomada de decisões familiares no respeitante à aquisição de bens. Na sequência do recente Dia dos Solteiros, o maior evento de compras em território chinês, o presidente do grupo de retalho Alibaba, Jack Ma, afirmou que o recorde de vendas alcançado foi dinamizado pelo género feminino, que efetuou compras não só a título pessoal mas também para os seus pais, maridos e filhos.

A mulher urbana representa um grupo lucrativo de consumidores que continuará a estimular as vendas de vestuário e bens de luxo em território chinês no decorrer de 2015. A prioridade dos retalhistas incluirá a familiarização com as formas de comunicação e os meios necessários para alcançar este novo segmento de consumo, que combina simultaneamente uma índole independente e um foco familiar.

Serviço e conveniência
Os consumidores chineses tornam-se cada vez mais sofisticados e esperam também um serviço de maior qualidade da parte dos retalhistas, incluindo maior facilidade de pesquisa e aquisição em plataformas online e físicas ou preferência por rapidez e conveniência.

A requalificação do serviço prestado continuará a ser uma prioridade para o sucesso do retalho em 2015, somando-se ao esforço já desempenhado no sector, através de multicanais ou retalhistas que operam exclusivamente online. A retalhista chinesa de vestuário Metersbonwe, por exemplo, lançou um serviço de apoio digital em loja, destinado a ajudar os clientes na pesquisa de cores e tamanhos indisponíveis. Se adquiridos nos espaços físicos da marca, os produtos serão expedidos gratuitamente, ultrapassando a limitação da inexistência do item pretendido numa loja física, sem custo acrescido para o consumidor.

O serviço ao consumidor é, também, um importante diferenciador entre as plataformas de compras exclusivamente digitais, à medida que o mercado de e-commerce chinês amadurece e se consolida, com entidades como Tmall, JD.com, Shangpin e Vip.com a investirem no aperfeiçoamento dos serviços de entrega.

O grupo Alibaba e JD.com estabeleceram uma parceria com a distribuidora de correio estatal, aumentando a rapidez do serviço de entrega em áreas rurais, enquanto o Shangpin se uniu à FedEx, permitindo que os clientes provem as peças adquiridas e devolvam os bens não pretendidos através do serviço de entrega.

A potencialização das ferramentas tecnológicas e reconceptualização das jornadas de compras estarão estre as prioridades dos retalhistas chineses ao longo deste ano, respondendo à intensificação da concorrência e tentativa de satisfação acrescida dos consumidores através de serviços e conveniência.

Luxo acessível
Os consumidores chineses são os maiores consumidores de bens de luxo do mundo, mas o poder aquisitivo da emergente classe média nacional fica ainda aquém daquele atribuído aos países ocidentais. O abrandamento das vendas tradicionais de bens de luxo registado no ano passado, deverá prolongar-se em 2015. No entanto, o continuado desejo de aquisição de bens de luxo está a impulsionar uma transformação dos padrões de consumo, com o privilégio concedido a marcas de design mais acessíveis ou preferência de compra no exterior.

Os consumidores chineses procuram qualidade, variedade e valorização do investimento feito. Estas tendências estimulam a propagação do formato de retalho multimarca, propiciando simultaneamente a criação de novas marcas e difusão de linhas mais acessíveis.

Depois de se estabelecerem em lojas multimarcas e sedimentarem a sua reputação, as marcas domésticas expandem-se, criando os seus próprios espaços de venda. A marca de design acessível Fussed registou um aumento das vendas de 50% no segundo semestre de 2014, no seguimento da parceria estabelecida com a marca independente Aint. Nan Zheng, cofundador de ambas as marcas, atribui este aumento ao efeito de alavancagem da imagem de luxo da Aint. Oferecendo um preço mais acessível, a empresa foi capaz de ampliar o seu alcance e expandir a distribuição ao cliente, alcançando as vendas estáveis necessárias à manutenção das operações.

Entretanto, a cadeia de lojas JNBY aumentou os preços praticados para reposicionar-se como uma oferta contemporânea, investindo simultaneamente na sua marca subsidiária mais acessível, Less.

No final de 2015, a retalhista Shangai Village planeia inaugurar um novo espaço, expandindo a sua oferta de artigos de luxo acessíveis. Esta tendência incorpora, também, a necessidade de potenciar a experiência de compra do consumidor, através da integração de peças de arte e entretenimento diário no seu espaço.

Na segunda parte deste artigo serão abordadas as mudanças operadas pela emergência do comércio eletrónico e a forma como este está a revolucionar a expansão do retalho em zonas distantes dos principais centros urbanos. Em paralelo, o vestuário e o equipamento desportivo ganham popularidade, acompanhando a preocupação crescente do consumidor chinês face a um estilo de vida saudável.