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5 inovações para mudar o mundo

De algodão cultivado em laboratório à criação de tecidos ao nível do ADN, passando pela conversão de CO2 em poliéster sustentável, rastreabilidade de fibras com tecnologias blockchain e separação de águas residuais, a edição do Global Change Award da Fundação H&M mostrou que a inovação é cada vez mais premente na ITV.

Incredible Cotton (GALY)

A pandemia da Covid-19 tem afetado muitos eventos e alterado muitos planos, mas a Fundação H&M não quis deixar de lado um dos momentos mais aguardados do ano e voltou a galardoar os projetos mais inovadores para a área da sustentabilidade na indústria têxtil e vestuário (ITV), com um prémio total de um milhão de euros, que distribuiu por cinco projetos.

«A Fundação H&M apoia a luta contra o coronavírus e, ao mesmo tempo, continuamos a apoiar os empresários e inovadores na sustentabilidade a longo prazo», afirma Karl-Johan Persson, um dos administradores da Fundação H&M. «Todos os anos ficamos surpreendidos com as ideias submetidas ao Global Change Award. As inovações são, em si próprias, desafiantes da forma como pensamos sobre a moda. Temos de deixar para trás as formas de pensar anteriores e lineares e mover-nos mais rapidamente para um planeta positivo e um modelo sustentável. As inovações vencedoras vão ajudar a nossa indústria a reinventar-se e, esperamos, a inspirar outros para também encontrar novas soluções», explica o neto do fundador da retalhista sueca, Erling Persson.

Karl-Johan Persson

Os cinco vencedores – Incredible Cotton da GALY, Feature Fibres da Werewool, Airwear da Fairbrics, Tracing Threads da TextileGenesis e Zero Sludge da SeaChange Technologies –, selecionados entre 5.893 candidaturas de 175 países, representam, para Tariq Fancy, fundador e presidente do conselho de administração da organização sem fins lucrativos Rumie e um dos membros do painel de especialistas do Global Change Award, «uma nova vaga de empreendedores que estão a olhar para a indústria com uma lente fresca e criativa».

Matérias-primas de raiz

Os dois projetos mais valorizados no Global Change Award estão ligados às fibras. O Incredible Cotton, desenvolvido por investigadores brasileiros da empresa GALY, sediada nos EUA, está a aplicar a biotecnologia para criar algodão em laboratório. «O algodão produzido em laboratório pode ser cultivado em qualquer lugar, sem depender de condições do solo ou meteorológicas e sem drenar [os recursos] do planeta», garante a GALY, destacando que o método é 10 vezes mais rápido e usa menos 80% de água e terra, ao mesmo tempo que emite apenas uma pequena parte de gases com efeitos de estufa. «O preço seria o mesmo do algodão de elevada qualidade que se encontra atualmente no mercado», aponta.

Feature Fibres (Werewool)

Este projeto mereceu uma bolsa no valor de 300 mil euros. O prémio, revela Luciano Bueno, fundador e CEO da GALY, «valida o reconhecimento e confiança na nossa visão enquanto empresa e abre novas portas para parcerias, tecnologia e passagem à ação para toda a indústria. Vamos trabalhar muito para que esta visão se concretize».

Com um prémio no valor de 250 mil euros, a Feature Fibres, da americana Werewool, tem como objetivo criar tecidos ao nível do ADN, definindo os seus atributos desde o início. O resultado, indica, é «uma fibra revolucionária que traz as características desejadas». Para isso pode utilizar as proteínas encontradas em corais, alforrecas, anémonas, tartarugas, ostras e leite de vaca, «sem prejudicar os organismos envolvidos», para fazer as matérias-primas com a cor, elasticidade, humidade e repelência à água pretendidas, sem necessidade de outro tipo de processos, como tingimento e acabamentos. A fibra resultante é ainda biodegradável.

Ainda no campo das fibras, o projeto Airwear da francesa Fairbrics foi distinguido com uma bolsa de 150 mil euros para continuar a converter gases com efeito de estufa em poliéster sustentável. A produção convencional de poliéster é efetuada a partir de petróleo num processo que emite enormes quantidades de gases com efeito de estufa. «Em vez de emitir dióxido de carbono para a atmosfera, o gás é aprisionado, ativado e transformado em pellets de poliéster sustentável», refere a empresa. O resultado, acrescenta, «será um poliéster sustentável que tem o aspeto e o toque do poliéster normal».

Airwear (Fairbrics)

Para Benoit Illy, «ganhar o Global Change Award é um reconhecimento incrível para nós e para todo o trabalho árduo que fizemos, dia após dia, para criar e tornar a Fairbrics real». O fundador da empresa espera agora «criar relações a longo prazo com pessoas talentosas que têm como objetivo comum tornar a indústria da moda sustentável».

Atuar nos processos

Para além destes projetos nas fibras, o Global Change Award premiou também a capacidade de atuar nos processos. Um primeiro projeto, que garantiu uma bolsa de 150 mil euros, faz a rastreabilidade de fibras sustentáveis com recurso a tecnologia de blockchain, permitindo a transparência de toda a cadeia até ao retalho. Cada lote de material é certificado com uma “fibracoin” gémea, um token digital que pode ser ligado a uma impressão digital, assegurando uma identidade digital única para a fibra produzida de forma sustentável.

Tracing Threads (TextileGenesis)

«É como um sistema de contabilidade digital que não pode ser manipulado, alterado ou ter interferências e a sua história fica gravada para sempre», resume a empresa indiana TextileGenesis, responsável pelo projeto, batizado Tracing Threads.

Por último, a Fundação H&M premiou, também com 150 mil euros, a Zero Sludge, uma iniciativa da americana SeaChange Technologies que permite separar e limpar as águas residuais da indústria, nomeadamente após o tingimento, para eliminar lama tóxica em aterros. «A água poluída transforma-se numa lama tóxica compacta que é difícil de tratar. Todos os dias, a indústria de vestuário gera centenas de toneladas de lama que é muitas vezes colocada em aterros», justifica a empresa. A solução agora avançada liga um dispositivo inteligente aos sistemas existentes e permite separar a água das toxinas com a ajuda de uma turbina a jato. As toxinas separadas transformam-se num pó, mais fácil de processar, e a água limpa é transformada numa bruma que pode ser libertada ou reutilizada. «Estamos muito entusiasmados e energizados por trabalhar com a Fundação H&M para criar uma mudança grande e positiva no nosso planeta», confessa Dipak Mahato, fundador e CEO da SeaChange Technologies.

Zero Sludge (SeaChange Technologies)

Para além das bolsas, a Fundação H&M coloca os vencedores num programa de um ano de aceleração de inovação, realizado em parceria com a Accenture e o KTH Royal Institute of Technology, cujo objetivo é estabelecer relações entre estes empreendedores e a indústria da moda e acelerar o processo de chegada ao mercado dos seus desenvolvimentos.

O Global Change Award começou em 2015 e, desde então, já contou com mais de 20 mil candidaturas de mais de 200 países.