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ITV britânica vista de dentro

A indústria têxtil e vestuário do Reino Unido aposta na revitalização do sector, potenciando a produção no país junto de marcas e designers, que são incentivados a fabricar localmente. No entanto, vários são os desafios a enfrentar.

Quando Christian Murphy se deparou com a necessidade de escolher um local para sediar uma unidade de produção de malhas no ano passado, considerou que a reputação de Londres, enquanto núcleo de construção de marcas de luxo, fazia desta cidade o local ideal para iniciar o novo negócio.

O fundador da Albion Knitting Company, com clientes como a LVMH, a Gucci e o Richemont Group, está de regresso a Londres, depois de 18 anos na China, e tem como objetivo oferecer algo diferente para o grande número de jovens designers britânicos: uma fábrica à porta de casa. «Pensei que seria exclusivo ser capaz de construir uma fábrica de malhas à porta de um hub criativo, dando aos designers a oportunidade de simplesmente entrarem no metro e estarem numa unidade de produção de malhas de primeira classe», explicou.

A procura por artigos de luxo fabricados em território britânico está a aumentar, à medida que os consumidores – especialmente aqueles de origem chinesa, que representam 30% do mercado de luxo global, de acordo com a consultora Bain and Company – se tornam mais exigente sobre a proveniência dos produtos.

Mais de um quarto dos consumidores do Reino Unido afirmaram, também, privilegiar as marcas do país na compra de produtos de moda e calçado, segundo um relatório da empresa de pesquisa Mintel.

A marca John Smedley, que produz as suas linhas de vestuário na Grã-Bretanha, está a apostar no ressurgimento da indústria têxtil nacional, cuja produção aumentou no primeiro semestre do ano, de acordo com o Instituto Nacional de Estatística britânico.

Foco no resultado final

A indústria têxtil e vestuário tem revelado um declínio constante nas últimas três décadas, com as empresas do sector a privilegiarem a competitividade de preços oferecida pela China e pela Índia. Porém, regressa lentamente ao crescimento, à medida que mais empresas começam a explorar as opções nacionais.

Do ponto de vista de um designer, a fabricação na Grã-Bretanha pode ser, simultaneamente, uma oportunidade e um desafio. Os produtores britânicos oferecem prazos de entrega mais curtos, bem como uma redução dos custos de transporte e materiais. «Creio que é importante considerar o que temos aqui», defende a designer escocesa Holly Fulton. «Por sermos muito pequeno, não fazemos grandes séries de produção».

Contudo, esta opção pode representar, simultaneamente, muitos desafios, como a dificuldade em encontrar as aptidões específicas necessárias à produção ou uma simples falta de investimento em maquinaria. «É efetivamente difícil encontrar trabalhadores qualificados em termos de fabrico do bordado (no Reino Unido), pelo que temos de nos aprovisionar na China ou na Índia», considera a designer Judy Wu.

O Conselho Britânico de Moda (BFC) executa programas de incentivo à produção e aprovisionamento nacional junto dos designers britânicos, mas a CEO Caroline Rush revela existir falta de transparência no sector, o que dificulta a produção em solo britânico. «É uma parte complexa da indústria», refere Rush. O BFC, que disponibiliza folhetos, relatórios e guias que pretendem instruir os designers sobre como atuar junto dos fabricantes, tem o objetivo de criar um banco de dados que promova a conexão entre os dois grupos.

Substituir uma população ativa tendencialmente envelhecida é, também, um dos mais significativos desafios impostos à recuperação da indústria têxtil e vestuário da Grã-Bretanha. «É necessário um maior apoio do governo», sustenta Jess McGuire Dudley, diretora de marketing da John Smedley. «Se pudessem subsidiar as pessoas enquanto estão a realizar estágios ou subsidiar as empresas de forma a que estas sejam capazes de disponibilizar mais estágios, creio que seria verdadeiramente útil».

«Simplesmente não existem programadores suficientes para o trabalho que a indústria poderia fazer ou rumo ao qual poderia crescer», reconhece Murphy, que perdeu um candidato quando lhe foi oferecido o dobro do salário por um fabricante do Vietname. «É muito difícil para nós competir por este tipo de aptidões face às grandes operações sediadas no continente asiático», conclui.