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Que futuro para a ITV de Myanmar?

Os produtores de vestuário e calçado de Myanmar acreditam que a antecipada transferência do poder governamental para a oposição, em março do próximo ano, irá contribuir para um aumento do investimento estrangeiro no país, mas não escondem alguma preocupação com o aumento da concorrência estrangeira.

O partido Liga Nacional para a Democracia (LND), de Aung San Suu Kyi, venceu as primeiras eleições gerais do país nos últimos 25 anos de forma esmagadora, com a comissão eleitoral do país a anunciar, na sexta-feira, dia 13 de novembro, que a LND obteve a maioria necessária para formar um governo.

Isto ocorreu apesar da fação militar ter garantido, automaticamente, 25% dos assentos parlamentares e de Suu Kyi ter sido constitucionalmente impedida de se tornar presidente, por ser casada com um cidadão estrangeiro (britânico), e ter filhos estrangeiros. O Partido União, Solidariedade e Prosperidade controlará o parlamento até março, mas comprometeu-se a respeitar o resultado das eleições.

U Khin Hlaing, proprietário de uma fábrica de vestuário denominada Zawtika em Yangon, acredita que «efetivamente ocorrerá um aumento do investimento direto estrangeiro em Myanmar, uma vez que o novo governo, liderado por Aung San Suu Kyi, é apoiado por países estrangeiros. Acredito que o sector de vestuário tem à sua frente um cenário positivo».

A diretora-executiva da Câmara de Comércio Britânica em Myanmar, Stephanie Ashmore, acrescenta que «a comunidade empresarial queria a realização de eleições credíveis e transparentes e está satisfeita que isso tenha acontecido. Os primeiros sinais de compromisso por parte de todos os partidos para respeitar os resultados e constituir um novo governo também é muito encorajador». Stephanie Ashmore acredita que «Myanmar apresenta um enorme potencial para os negócios britânicos e antecipamos que o interesse das empresas aumente nos próximos meses. A Câmara Britânica continuará a apoiar as relações comerciais e de investimento entre o Reino Unido e Myanmar e estamos ansiosos por colaborarmos com o novo governo, assim que este assuma funções».

Preocupações futuras

Porém, nem todos os produtores de vestuário e calçado de Myanmar se mostram confiantes face ao futuro. De acordo com Tin Maung Oo, proprietário de uma fábrica dedicada à produção de chinelos, a forma mais comum de calçado no Myanmar para homens e mulheres, «à medida que Myanmar se abre mais com um governo da LND, os chinelos que são produzidos em países como a China, as Filipinas, a Indonésia e a Tailândia chegarão a Myanmar num fluxo sem precedentes. Preocupa-me que possa colocar dificuldades para o meu negócio».

Simultaneamente, mostra-se também preocupado com a concorrência regional de outros países da Associação de Nações do Sudeste Asiático (ASEAN, na sigla inglesa), assim que o bloco comercial da Comunidade Económica da ASEAN entrar em vigor, no dia 31 de dezembro. Os seus dez membros são o Brunei, Indonésia, Malásia, Filipinas, Singapura, Tailândia, Camboja, Laos, Myanmar e Vietname.

U Okka Thein, vice-diretor do Ministério do Trabalho, Emprego e Segurança Social, admite que, à medida que Myanmar se torna cada vez mais integrado na economia global, «muitas pequenas e médias empresas serão duramente afetadas. O atual governo ainda não tem planos detalhados sobre como proteger as fábricas de vestuário de Myanmar do impacto da integração económica».

A forma como a LND irá lidar com esses problemas também não é clara, mas o seu manifesto eleitoral revelava a intenção de «incentivar a criação de mercados financeiros e organizações de financiamento que permitam o acesso ao capital, tecnologia e financiamento necessário para o desenvolvimento nacional».

O manifesto acrescenta que «para incentivar um maior investimento estrangeiro, em consonância com os mais altos padrões internacionais, pretendemos estabelecer caminhos para uma cooperação económica que poderá trazer benefícios mútuos sustentáveis ​​a longo prazo para ambas as partes. Mediante isto, seremos capazes de entrar em mercados internacionais, desenvolver novas oportunidades de emprego e beneficiar da transferência de tecnologia e melhores competências laborais».

O presidente do conselho de administração da Associação de Produtores de Vestuário de Myanmar, U Soe Myint, no entanto, recusa-se a comentar o impacto da eleição sobre o sector de vestuário do país. «Não tenho nenhum comentário a fazer sobre a situação política», afirma.

Entretanto, várias entidades da indústria de vestuário antecipam uma rápida normalização das relações comerciais, especialmente com os EUA, após a eleição. Os EUA ainda não disponibilizaram acesso sem taxas ao seu mercado aos exportadores de Myanmar, no âmbito do Sistema de Preferências Generalizadas (GSP). Porém, os líderes da indústria de vestuário já apelaram a Washington, no sentido de agirem positivamente face à ascensão ao poder da LND (ver ITV de Myanmar prepara futuro).