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A escravatura do século XXI

A escravatura é um elemento presente nas cadeias de aprovisionamento de empresas internacionais dos mais diversos sectores de atividade, mas estas podem desempenhar um papel ativo na erradicação destas situações.

A Organização Internacional do Trabalho estima que 21 milhões de pessoas em todo o mundo são sujeitas a situações de trabalhos forçados, gerando 150 mil milhões de dólares (140,3 mil milhões de euros) em lucros ilegais em sectores tão diversos como a agricultura, as pescas, a exploração mineira, a construção e a indústria do sexo.

Os ativistas afirmam que o trabalho forçado se esconde, frequentemente, ao longo das cadeias de aprovisionamento, com vários fornecedores em países diferentes envolvidos na produção, embalamento e distribuição de bens.

«Creio que todas as empresas têm situações de escravatura nas suas cadeias de aprovisionamento e alguns desses casos são absolutamente horríveis», referiu Giles Bolton, diretor de sourcing da Tesco, na conferência Trust Women sobre os direitos e o tráfico de mulheres, organizada pela Fundação Thomson Reuters. «Por vezes, pode dar-se o caso da pressão da concorrência conduzir a alguns destes problemas, mas na maior parte das vezes as empresas são parte integrante da solução», acrescentou.

Durante a sua intervenção num painel sobre a erradicação da escravatura das cadeias de aprovisionamento, Bolton referiu ainda que não é benéfico para as empresas boicotarem países como o Bangladesh, onde mais de 1.100 pessoas morreram no desabamento do edifício fabril Rana Plaza, em 2013.

A tragédia, que suscitou exigências urgentes no sentido dos retalhistas globais garantirem a segurança dos trabalhadores, foi um duro golpe para este país desfavorecido do sudeste asiático, onde milhões de pessoas dependem da indústria do vestuário para a obtenção de rendimentos. Cerca de 150.000 pessoas perderam os seus postos de trabalho depois de 220 fábricas de vestuário terem sido encerradas.

«Alguns dos ativistas mais simplistas dizem: “não comprem dez t-shirts do Bangladesh, comprem uma de Itália”. Por favor, não façam isso», pediu Bolton, lembrando que a indústria de vestuário resgatou milhões de pessoas da pobreza no continente asiático.

Identificar os problemas

A Nestlé, a maior produtora mundial de alimentos embalados, com marcas como os chocolates KitKat, a água mineral Perrier e a marca de produtos alimentares para animais domésticos Purina, também fez questão de reiterar o seu compromisso para com a eliminação da prática de trabalhos forçados e abusos na sua cadeia de fornecimento.

«Quando somos líderes na nossa indústria, compreendemos que podemos influenciar as cadeias de fornecimento com as quais trabalhamos e é isso que fazemos», referiu Marco Gonçalves, diretor de aprovisionamento da Nestlé. «Reconhecemos que é uma questão com a qual é difícil lidar», sublinhou.

Ao longo dos últimos cinco anos, a Nestlé identificou 30.000 casos de não-cumprimento de fornecedores de Nível 1, relacionados com questões tão amplas como a saúde, segurança e condições de trabalho. No entanto, a Nestlé tem investido na resolução da maioria dos problemas, garantiu Marco Gonçalves. O diretor de aprovisionamento da marca revelou que menos de 1% dos fornecedores da Nestlé tiveram de ser eliminados da sua cadeia de fornecimento devido ao não-cumprimento.

Desde agosto, o escritório de advocacia americano Hagens Berman submeteu duas ações judiciais contra a Nestlé, acusando-a de importar alimentos para animais domésticos feitos à base de peixe de um fornecedor tailandês que recorre ao uso de trabalho escravo, assim como de importar grãos de cacau de fornecedores que recorrem ao uso de mão de obra infantil, incluindo crianças traficadas com o objetivo de trabalharem nas fazendas de produção, na Costa do Marfim.

Marco Gonçalves afirmou que a Nestlé partilha da preocupação face à alegada existência de trabalho infantil no sector de produção de cacau, mas apelou a que os críticos se desloquem às propriedades de produção de cacau para contactarem diretamente com a realidade. «Apercebemo-nos, quando estamos no terreno, de que o principal problema é a falta de certidões de nascimento. Se as crianças não possuem certidões de nascimento, não podem frequentar a escola», explicou.

O grupo de combate à pobreza Oxfam revelou, em março, que a Nestlé atualizou no último ano o seu plano de ação de apoio às mulheres integradas nas cadeias de fornecimento do sector do cacau e obteve bons resultados no respeitante aos direitos dos trabalhadores.

A Fundação Thomson Reuters lançou na passada quarta-feira o Stop Slavery Award, um prémio que será atribuído pela primeira vez em 2016 e que tem como objetivo incentivar as empresas a erradicarem a escravidão das suas cadeias de aprovisionamento.