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Roupa atrás das grades

As empresas, organizações sociais e escolas de moda estão a colaborar com as instituições prisionais na confeção de vestuário. Porém, surge a questão sobre a viabilidade – e ética subjacente – à construção de um negócio atrás das grades.

«As pessoas da Whispers estão a lucrar connosco», afirmou Piper Chapman durante o almoço, referindo-se ao período matinal que despendeu a costurar cuecas de renda cor-de-rosa. «Eu aceito isso», sustentou de forma indiferente uma das suas companheiras de reclusão, encolhendo os ombros. «Eu também», acrescentou outra.

Na última temporada da série “Orange is the New Black”, 40 reclusas da prisão de Lichfield são empregadas na costura de roupa interior para a Whispers, uma empresa de lingerie ficcional, que estabeleceu uma fábrica de vestuário no interior da prisão. Também fora da tela, há uma relação surpreendente entre as prisões e a indústria da moda.

Em toda a Inglaterra e País de Gales existem 105 prisões públicas que incluem 63 oficinas têxteis. Nos EUA, a Federal Prison Industries (uma empresa governamental, comumente conhecida pelo seu nome comercial Unicor) opera 78 fábricas no interior de instalações corretivas, que confecionam produtos para uso interno das prisões, como uniformes ou roupas de cama, trabalhando simultaneamente em contratos federais para produtos como uniformes militares. Em 2014, as receitas da Unicor atingiram os 389,1 milhões de dólares (1USD = 0,94EUR), em que as vendas de vestuário e têxteis representaram 69,4 milhões de dólares.

Estes programas existem desde 1930 mas, na última década, as marcas de vestuário, como a peruana Pietà, a americana Prison Blues e a Stripes Clothing nos Países Baixos, estabeleceram uma nova proximidade entre o segmento da moda e as prisões. Estas empresas vendem artigos de moda confecionados por detidos, o que levanta uma questão: confecionar vestuário nas prisões será um modelo de negócio viável?

Para muitos, o trabalho prisional tem a conotação de “mão-de-obra barata”. Nos EUA, alguns estados exigem que os reclusos federais que gozem de boa saúde trabalhem; na Inglaterra e no País de Gales, muitos são integrados em programas de formação profissional. Em ambos os sistemas, a alimentação, cuidados de saúde e alojamento dos reclusos são inteiramente providenciada. Em 2013, as taxas de remuneração dos recluso da Unicor variavam entre 23 cêntimos e 1,15 dólares por hora. Na Inglaterra e no País de Gales, a média é de 9,50 libras (1GBD = 1,42 EUR) por semana.

Porém, apesar da força de trabalho barata – bem como potenciais poupanças em custos de transporte em resultado do fabrico local –, a justificativa económica é fraca. Em 2014, a Unicor, que reinveste os rendimentos no sistema prisional, incorreu numa perda líquida de 37,5 milhões de dólares.

A Haeftling, marca de moda sediada em Berlim que esteve no ativo entre 2003 e 2013, recorria às instituições prisionais para a confeção das suas coleções. Os detidos eram pagos em linha com os salários prisionais. De acordo com o fundador Stephan Bohle, que vendeu a Haeftling a uma empresa de streetwear alemã em 2006, a faturação da empresa atingiu os sete dígitos.

Mas «enfrentamos imensos problemas na encomenda dos materiais, produzindo com uma qualidade decente, numa base regular», apontou Bohle. A procura dos consumidores era forte – num determinado momento, a marca suspendeu a sua loja on-line, porque a oficina prisional não conseguia acompanhar a procura –, mas a Haeftling debateu-se com dificuldades de variar a sua oferta de produtos, em consequência dos limites da formação dos reclusos.

Os clientes também ficaram confusos com o preço, especialmente à luz dos baixos salários dos prisioneiros. De acordo com Bohle, as despesas gerais da prisão eram muito elevadas. No geral, afirma, o negócio atingiu um ponto de equilíbrio, no qual as receitas eram apenas suficientes para colmatar as despesas.

A Penitenciária de Tegel, a maior prisão da Alemanha, com cerca de 1.700 reclusos, também tentou, há uma década, lançar uma loja on-line para a sua oficina de alfaiataria, mas teve que fechar a empresa devido à falta de pessoal.

No entanto, algumas organizações têm encontrado benefícios comerciais resultantes da cooperação com os reclusos. Em 2012, o fundador do projeto Pietà, Thomas Jacob, visitou uma prisão em Lima, Peru. «Conheci imensas pessoas maravilhosas; quentes, de mente aberta, cuja imagem estava muito distante daquela que se tem dos presidiários», relembra. «Eles queriam ultrapassar a situação, aprender uma técnica, trabalhar, ganhar dinheiro, mas não tinham quaisquer oportunidades».

A prisão já dispunha de teares de malhas e máquinas de costura para o fabrico interno, pelo que Jacob elaborou alguns designs para artigos básicos, como sweaters, e assim surgiu o project Pietà. Atualmente, o Pietà emprega cerca de 30 reclusos em três prisões de Lima, que cortam, costuram, bordam e estampam coleções de inspiração streetwear, incluindo casacos e polos com gola de couro, usando materiais locais, como o algodão pima orgânico e a lã de alpaca. Segundo Jacob, o projeto Pietà, que partilha os custos das máquinas e manutenção com as prisões, é rentável, embora se tenha recusado a revelar informações financeiras.

«Existe uma oportunidade de negócio real aqui», reconhece Jason Swettenham, diretor das indústrias das prisões do sector público na Inglaterra e no País de Gales. As oficinas têxteis, revela, têm a capacidade de envolver até 2.000 detidos em projetos de formação profissional. «A única coisa que é frustrante para nós é o facto de ser muito, muito difícil, num ambiente de prisão, publicitar os produtos».

Em setembro de 2014, a London College of Fashion (LCF) estabeleceu uma parceria com o Ministério da Justiça do Reino Unido para o lançamento de uma unidade de fabrico de vestuário dentro da H.M.P. Holloway, uma prisão feminina localizada em Londres. A unidade, que treina até 20 reclusas em simultâneo para a operação de máquinas utilizadas na produção de artigos de moda, tem como objetivo providenciar as habilitações necessárias para que as reclusas possam ocupar postos de trabalho em unidades de fabrico ou serem capazes de estabelecer um negócio de alterações de vestuário doméstico uma vez libertadas.

O benefício do negócio não é o lucro, mas a Responsabilidade Social Corporativa (RSC). A unidade da LCF em Holloway já trabalhou em contratos comerciais com marcas de moda de pequena escala, como The Ragged Priest. A unidade é operada em perda, apesar de ter recebido financiamento do LCF e da Fundação de Sir John Cass. De acordo com a professora Frances Corner, diretora da London College of Fashion, as empresas colaboram com a unidade enquanto empresas sociais (algumas incluem esta cooperação nos seus relatórios de RSC), mas não como uma empresa privada que pode competir com a indústria em termos de velocidade e custos de produção.

No entanto, uma grande questão para qualquer empresa que trabalha com prisões é a perceção: o que pensa o cliente? Na série “Orange is the New Black”, os personagens discutem se a Whispers, por empregar prisioneiros, é culpada de exploração.

«É uma história difícil de contar», admie Stephan Bohle da Haeftling, afirmando que alguns clientes também criticaram a marca, acusando-a de apoiar criminosos. Christian Birky, cofundador da Lazlo, uma start-up de vestuário masculino que emprega ex-reclusos, mostra-se cético em relação às motivações dessas empresas: «Na sua maioria, quando as empresas trabalham com as pessoas, permitindo que estas produzam na prisão, trata-se basicamente de uma exploração de uma força de trabalho», acredita. «É necessário muito investimento para preparar homens e mulheres que estão na prisão de forma a que tenham as habilitações necessárias quando saírem. Isso é muito diferente de dizer: “Por que não faz isso na prisão – pode pagar 20 cêntimos por hora”».

No Reino Unido, os salários são decididos por cada prisão e variam de acordo com a natureza do trabalho. No Perú, os prisioneiros têm de pagar por serviços como cuidados de saúde e muitos devem também pagar uma reparação civil, mas não dispõem de poupanças ou família no exterior que os possa ajudar. Na Pietà, os presos são pagos pelo seu trabalho, por peça de vestuário, embora Jacob se tenha recusado a especificar o valor. Em acréscimo, por cada quatro dias de trabalho realizado em colaboração com a Pietà, é subtraído um dia à sua sentença.

Nos últimos anos, o trabalho prisional passou a integrar o panorama da fabricação na indústria da moda. Ao longo das duas últimas décadas, com as empresas de moda a recorrerem a núcleos de produção que dispõem de mão-de-obra barata nos países em desenvolvimento, as indústrias de fabricação de roupas do Reino Unido e dos Estados Unidos foram severamente afetadas. Atualmente, os 150 fabricantes de artigos de moda sediados em Londres e nos seus arredores enfrentam um défice de cerca de 150 operadores de máquinas a cada ano.

A parceria da LCF foi estabelecida com dois objetivos: primeiramente, ajudar os infratores do sexo feminino a abandonarem a prática de crimes. Em seguida, preencher uma lacuna de competências na produção de artigos de moda no Reino Unido. O objetivo final do projeto da LCF é a criação de uma unidade de produção comercial em Londres, que irá empregar ex-detidos após a sua liberação. «Todos falam sobre o desejo de conseguirem fabricar aqui no Reino Unido e todos sabem que precisamos de uma força de trabalho qualificada», sustenta Corner. «Existe uma enorme oportunidade de formar operadores de máquinas muito qualificados».

Efetivamente, algumas empresas de moda têm colaborado com prisões na abordagem desta questão. A série “Orange is the New Black” baseia-se em factos reais – nos anos 90, a Third Generation, uma subcontratada para fabricação de vestuário, recorreu ao trabalho em prisões na Carolina do Sul, para produzir roupa interior e de lazer para a Victoria Secret e a J.C. Penney.

O objetivo do projeto – que, de acordo com um relatório do Instituto Nacional de Justiça, produziu aproximadamente 1,5 milhões de dólares em roupas em 1994 – era reabilitar prisioneiros e formar a força de trabalho local. «Não dispúnhamos de costureiros industriais qualificados em número suficiente na Carolina do Sul rural», revelou o então presidente da Third Generation, Merv Epstein.

No entanto, algumas entidades da indústria da moda dos EUA manifestaram a sua preocupação face à possibilidade das indústrias prisionais afetarem as empresas locais, depois de diversas empresas, incluindo a American Apparel Inc., produtora de uniformes militares do estado do Alabama, ter perdido contratos com a Unicor. «Nós apoiamos os esforços de reabilitação dos reclusos, incluindo os esforços que envolvem educação e formação em espaço laboral, mas esses esforços não devem deslocar os postos de trabalho dos trabalhadores do sector privado, cujos impostos pagam as operações prisionais», advoga Steve Lamar, vice-presidente executivo da Associação Americana de Vestuário e Calçado, acrescentando que a Unicor recebe «primazia» em contratos federais.

«Temos um rigoroso código de conduta», refere Swettenham. As empresas sediadas em prisões, na Inglaterra e no País de Gales, estabelecem parcerias com empresas que procuram repatriar a fabricação do exterior, «mas se isso significa que vão recusar um trabalho com um fabricante no Reino Unido para trabalharem connosco, então não estamos interessados em cooperar com eles», ressalva.

Para a LCF e a Pietà, a etapa final do processo é a reabilitação. Desde o seu lançamento em setembro passado, dois detidos da unidade LCF-Holloway obtiveram colocações em unidades de produção depois de terem sido libertados em licença temporária. Na Pietà, dois ex-detidos da prisão de Santa Mónica trabalham para a empresa no exterior, comprando materiais e preparando encomendas.

Mas, para aqueles atrás das grades, os projetos de formação profissional podem auxiliar na construção de um sentido de autoestima e ajudar os presos a «pensarem noutras coisas, a “escaparem”», defende Jacob. «Não devemos pensar que, apenas por estarem na prisão, estão esquecidos e que são inúteis para a sociedade», concorda Swettenham. «Porque a maioria deles fez apenas algo de errado e quer remediar a situação e quer uma oportunidade», conclui.