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A ITV num novo ciclo político

Apesar de ter uma imagem melhor do que no passado, a ITV tem ainda um longo caminho a percorrer em termos de comunicação. A conclusão saiu do XVII Fórum da Indústria Têxtil, onde foram ainda discutidas as perspetivas do sector para o novo governo liderado por António Costa.

Num formato que trouxe laivos de inovação ao Fórum da Indústria Têxtil, já na sua 17.ª edição, os entrevistadores passaram a entrevistados, num debate conduzido por Paulo Nunes de Almeida, presidente da AEP, e Daniel Bessa, diretor-geral da Cotec, que se centrou na imagem do sector têxtil e vestuário, mas que não fugiu ao tema do dia: o novo governo.

Reconhecendo que a imagem da indústria têxtil e vestuário atual é melhor do que no passado, os jornalistas presentes incentivaram as empresas a abrirem-se mais à curiosidade dos profissionais da informação para darem uma maior força ao sector junto do público nacional e internacional. «O sector ainda não sabe comunicar», afirmou Manuel Carvalho, jornalista do Público. «O que sei desta indústria é que é muito melhor do que a imagem que tem. As empresas continuam a ser muito fechadas, ainda não percebem a curiosidade dos jornalistas», sublinhou.

Nicolau Santos, do Expresso, usou o exemplo da indústria do calçado para mostrar a importância da comunicação. «A indústria têxtil tem de criar uma imagem forte», indicou, apelando a que «façam chegar os bons exemplos» aos órgãos de comunicação social. Nicolau Santos sugeriu ainda uma comunicação segmentada, face à complexidade do sector têxtil e vestuário, composto por diferentes subsectores – do vestuário aos têxteis-lar e têxteis técnicos, como focou Daniel Bessa. «Provavelmente tem de haver uma segmentação e cada área tem de ter a sua comunicação», ressalvou.

O que esperar do novo governo?

Realizado no mesmo dia em que António Costa, líder do PS, foi indigitado pelo Presidente da República para formar um novo governo, o tema tornou-se inevitável no XVII Fórum da Indústria Têxtil.

Camilo Lourenço, o terceiro jornalista convidado para o debate nesta edição, mostrou-se preocupado com a anunciada política deste novo governo para o consumo interno. «10 milhões de consumidores não fazem uma economia», considera, deixando o conselho às empresas de olharem lá para fora. «Nunca me sentiria encorajado a pensar no mercado interno. Temos que nascer e crescer a pensar no que há lá fora. O nosso mercado tem de ser o mundo», afirmou.

Manuel Carvalho, por seu lado, acredita que «quem consegue mostrar a resiliência que o sector mostrou, não tem razões de preocupação em relação ao futuro», até porque, indicou, «as empresas da indústria têxtil dependem mais do seu protagonismo e da sua capacidade do que da situação política».

Já Nicolau Santos tem uma visão mais otimista do panorama político nacional. «Parece-me que o dramatismo que decorreu destas eleições é manifestamente exagerado em relação àquilo que se vai seguir», não se mostrando «particularmente inquieto». Além disso, acrescentou, «a conjuntura externa constitui uma razoável almofada para não fazermos grandes disparates», pelo que na pior das hipóteses, avançou, «se as coisas não correrem bem, o próximo Presidente da República convocará eleições».

António Lobo Xavier, o key speaker desta edição do Fórum da Indústria Têxtil, organizado pela ATP – Associação Têxtil e Vestuário de Portugal, mostrou-se menos convicto do sucesso deste novo governo encabeçado por António Costa. «Gostando-se ou não dos protagonistas e das medidas do governo anterior, era possível encontrar uma cultura estratégica das orientações para o país. Havia a consciência da necessidade de ir para fora e de que os instrumentos públicos deviam estar ao serviço desse objetivo de voltar a economia lá para fora», afirmou. Durante a sua intervenção, o jurista e ex-deputado revelou-se ainda preocupado com alguns dos projetos que constam do programa eleitoral dos partidos da esquerda que agora detêm a maioria parlamentar, nomeadamente o regresso do imposto sucessório para heranças acima do milhão de euros. «Preocupa-me a transmissão das empresas familiares», referiu, apontando para 100 mil empresas que poderão estar nessa situação.

Quanto à indústria têxtil e vestuário em particular, Lobo Xavier lembrou que «os desafios não terminaram», apesar do sucesso «mais do que justo» que as empresas têm registado e aconselhou uma mudança da terminologia muitas vezes associada ao sector. «Indústria tradicional é uma expressão que tem uma carga negativa, associada a mão de obra intensiva, mal paga, produtos de baixo valor acrescentado. O sector já não é isso», afirmou.

Promover a competitividade

No encerramento do Fórum da Indústria Têxtil, João Costa, presidente da ATP, deu conta disso mesmo – tal como tinha feito, na abertura, Paulo Vaz, diretor-geral da ATP – focando o crescimento do sector, que deverá atingir os 5 mil milhões de euros de exportações antes de 2020, um objetivo delineado no plano estratégico apresentado, no passado, pela associação que representa. «Este sector tem uma vocação exportadora – mais de 80% do que faz é para o mercado externo», sublinhou. O presidente da ATP referiu ainda que «promover este sector é uma tarefa complexa», devido à abrangência de áreas que engloba. «Não obstante a importância dos têxteis técnicos e funcionais, e outros domínios do sector têxtil, é sempre o vestuário e aquilo que se produz para o vestuário, o têxtil chamado convencional, que representam a maior parte das exportações – cerca de 80% está aí», acrescentando que «esse é o grande caminho, como o mercado europeu é o grande destino».

Acima de tudo, João Costa apelou à criação de condições favoráveis ao investimento e ao aumento da competitividade das empresas nacionais do sector, citando questões como a legislação laboral, o acesso a financiamento e as oportunidades que podem decorrer da entrada em vigor do Acordo de Parceria Transatlântica de Comércio e Investimento entre a União Europeia e os EUA (TTIP). «Só temos que esperar, e exigir também, que este governo funcione bem, funcione de uma forma capaz, previsível, confiante, para que as empresas e a economia do país possam fazer o seu caminho e ser competitivas», concluiu.