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O sucesso do “made in Japan”

Com a sua queda para o design, tecidos de qualidade e cortes exímios, não é de admirar que Tóquio esteja a atrair as grandes marcas mundiais. Cada vez mais, para os fabricantes e consumidores, o "made in Japan" é uma referência.

Para os insiders do sector da moda, a simples declaração “made in Japan” costurada dentro de uma peça de vestuário surge associada a conotações de qualidade meticulosa, técnicas de vanguarda e preços agressivamente elevados. Para muitos designers e retalhistas, o custo compensa.

«Está tudo nos detalhes», afirma Mats Klingberg, da loja masculina Trunk, localizada na zona londrina de Marylebone, que reúne algumas das melhores marcas de alfaiataria e de casualwear japonesas, incluindo a Camoshita United Arrows, a Comoli e a Descente Allterrain. «Eles superam os limites e experimentam coisas novas. São mais propensos a despender mais tempo a confecionar algo perfeito. Quando vê algo bonito que considera inimaginável, mas faz sentido quando o vê, o mais provável é que seja japonês», admite.

As marcas de alfaiataria são especialmente atraídas pela fabricação japonesa. Embora a Thom Browne e a equipa de pai e filho Casely-Hayford sejam imediatamente associadas às suas respetivas casas em Nova Iorque e Londres, a maioria dos produtos é, efetivamente, confecionada no Japão. «A nossa alfaiataria é muito mais leve do que o estilo tradicional de Savile Row», destaca Joe Casely-Hayford. «Somente os japoneses criam essa nova alfaiataria inglesa sem perder a essência e o ADN que definem o estilo. Os italianos confecionam belos fatos leves, mas percebe-se que são italianos. Os japoneses podem reinterpretar a essência cultural de qualquer nacionalidade que pretenderem», explica.

A marca de alfaiataria italiana Zegna é outra marca líder que gaba as qualidades do “made in Japan”. O seu diretor criativo, Stefano Pilati, apresentou recentemente uma coleção cápsula masculina na flagship da marca em Tóquio. «É uma fusão perfeita do design da Ermenegildo Zegna com a produção e know-how japoneses», revela Pilati. «Já não é necessário enfatizar que a Zegna é uma marca italiana: quem é que não sabe disso?», questiona.

Poderá ser, também, a sensação de distância e diferenciação que confere um fascínio especial à produção japonesa, algo que é transmitido até mesmo ao mercado de massas da marca Uniqlo – a única marca de fast fashion que permanece aceitável para aqueles que, de outra forma, se sentiriam mais confortáveis numa peça Comme des Garçons ou Yohji Yamamoto. Embora o único produto da marca Uniqlo fabricado no Japão seja o denim premium, prevalece um sentimento entre os clientes de que a retalista partilha os mesmos valores personificados pelos mestres de Omotesando, o distrito com mais apurado sentido de moda em Tóquio. De certa forma, é verdade: a tecnologia subjacente ao seu produto térmico foi criada no estúdio Issey Miyake, enquanto os Miracle Air Jeans da marca são igualmente high tech – são 20% mais leves do que denim tradicional e 15% mais elásticos.

O denim é um segmento no qual o Japão se destaca verdadeiramente – os teares de Okayama produzem um tecido reconhecido pela sua excelente qualidade, a melhor à escala mundial, com uma teia mais apertada e uso de corantes naturais em vez de sintéticos. O tecido é extraordinariamente resistente. «Utilizamo-lo no nosso serviço personalizado, bem como na confeção à medida», revela o alfaiate londrino Timothy Everest. «Usamos tecido tingido com índigo em tudo, desde calças a blusões, e lavamos à mão com sal cada peça, no pátio localizado nas traseiras do atelier. Confecionamos alguns blusões para Ralph Fiennes, que é um cliente fiel». Apesar do sucesso e reconhecimento alcançados pelo denim japonês, foram os designers vanguardistas de Tóquio os responsáveis pela disseminação da imagem global da etiqueta “made in Japan”, mais do que qualquer outra entidade da indústria.

Os cortes complexos e a produção meticulosa da Comme des Garçons representaram o clímax da moda desde que Rei Kawakubo levou a marca para Paris na década de 80. Issey Miyake, por seu lado, é tanto um designer industrial visionário e de moda. As suas experiências com tecido reciclado, plissado sob o efeito do calor e lavável ​​à máquina são inigualáveis, enquanto a sua marca HaaT, lançada em 2000, celebra as ligações entre o designer e o produtor. O diretor criativo da marca, Makiko Minagawa, tem supervisionado o desenvolvimento de têxteis na empresa desde a estreia de Miyake, em 1971, e a atual coleção da HaaT inclui peças de vestuário surpreendentes, que resultam de um trabalho intensivo, mas habitual entre o design de luxo japonês, que representa um tipo diferente de integração vertical, das fábricas às lojas.

«Os designers no Japão começam a desenhar desde a fase do fio e do têxtil», explica Rie Nii, curador do Kyoto Costume Institute. «Eles estão profundamente envolvidos em todo o processo, até à peça final. A relação entre o designer e a indústria têxtil é incomparável», acrescenta. Nii recorre à história para explicar o status quo. «A indústria de fibras sintéticas desenvolveu-se aos soluços após a II Guerra Mundial e nos anos 80 assistimos a uma nova geração de têxteis tecnicamente avançados, tais como a Shingosen», aponta. Isto explica, parcialmente, o motivo pelo qual marcas como Comme des Garçons e a Yohji Yamamoto adotam a viscose e o poliéster da mesma forma que Itália adora lã merino.

Fundamentalmente, em todas as experiências científicas realizadas com tecidos, existe uma integridade associada à referência “made in Japan”, a que a maior parte dos outros países não pode almejar. São estas características que tornam estes produtos raros e dispendiosos. «A nossa indústria têxtil tem padrões meticulosos. Em contrapartida, 99% de uma peça de vestuário pode ser confecionada na China, mas, apenas por colocarem a etiqueta em Itália, pode ser considerada “made in Italy”. É difícil para nós competir pelo preço nestas circunstâncias», sublinhou, em 2010, Yohji Yamamoto. Já se tem uma etiqueta “made in Japan”, não poderia ter sido feita em nenhum outro lugar.