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Verdadeiro e falso

​O sector da moda de luxo integra crescentes preocupações éticas e de sustentabilidade dos recursos, promovendo a popularização do uso de peles sintéticas, que cada vez mais, se apresentam como uma proposta alternativa válida, conquistando marcas e consumidores.

No respeitante às acérrimas seguidoras das tendências da moda, a personagem Cruella de Vil é um exemplo particularmente medonho – a sua perseguição irracional pela pele perfeita conduziu-a através de uma séria de percalços. Ela é um exemplo extremo, mas de forma alguma único: os velhos hábitos custam a desaparecer e a pele ainda é vista como a última declaração do luxo em muitos mercados, sendo usada livremente e, literalmente, dos pés à cabeça. No entanto, à medida que os consumidores, provenientes dos mais variados estratos de rendimentos, se tornam mais conscientes do verdadeiro custo subjacente a estas peças – moral e ambiental, ao invés de apenas financeiro – o mercado das peles e couro sintéticos adquire relevância, preferidos por motivos éticos, em detrimento de económicos.

Stella McCartney é o exemplo mais óbvio – especialmente desde o lançamento da sua coleção de outono/inverno, que introduz casacos gigantescos e desalinhados, confecionados com recurso a pele falsa, cada um deles com a etiqueta “Fur Free Fur”. A designer vegetariana utiliza já, há muito tempo, camurça e couro sintéticos em coleções que denomina de vegan, mas não tinha usado, até ao momento, pelas falsas. «Eu usei peles falsas há muitos, muitos anos atrás», revelou – a sua última coleção outono/inverno para a casa Chloé, em 2001, por exemplo, utiliza abundantemente este material – «e questionava-me, efetivamente, se seria apropriado fazê-lo e se seria necessário. Porque, atualmente, a pele falsa parece tão real, que receava estar a promover a pele verdadeira, mas criei estas etiquetas que assinalam o facto de ser isenta de peles verdadeiras, que serão colocadas no exterior do produto, para que possamos dizer às pessoas que não são verdadeiras. Somos uma casa que acredita que as peles não são relevantes. Parece antiquado», acrescentou.

A obra de Hannah Weiland nunca poderia ser descrita assim; as suas peças de pele falsa colorida, divulgadas sob a marca Shrimps, conquistaram muitos elogios desde o lançamento em 2013. «Eu decidi, especificamente, utilizar peles sintéticas por diversas razões: o meu gosto e pontos de vista pessoais, preço, cor e flexibilidade criativa», explicou Weiland. «Tive a sorte de me deparar com uma fábrica que produz pele falsa da mais elevada qualidade. Creio que é uma perceção errada o facto de a pele falsa não ser considerada um produto de luxo – dado o quão incrível a tecnologia moderna é, podemos produzir peles artificiais com o mesmo nível de suavidade, qualidade e calor de uma pele real, o que torna o argumento a favor da pele verdadeira muito mais difícil».

Judd Crane, diretor de moda feminina e acessórios dos grandes armazéns Selfridges, acredita que não existe discussão – os grandes armazéns estão orgulhosamente isentos da comercialização de peles há uma década. Crane regozija-se com a crescente visibilidade das peles falsas, como uma proposta de luxo de direito próprio: «Estamos interessados ​​em alternativas que respondam às necessidades de todos os consumidores de luxo, e temos isso para o outono/inverno, mais do que nunca. As peles falsas de Stella McCartney gozam de credenciais de moda, luxo e éticas e existem ótimas opções também na Dries Van Noten. A pele sintética está a estabelecer-se como um tecido de moda versátil, apropriado para todo o ano – a Shrimps tem sido uma das nossas maiores histórias de sucesso em todas as lojas».

A produção de peles, nomeadamente peles exóticas, como crocodilo, avestruz e piton, é uma questão complicada e prevalece o argumento de que a pele falsa não é necessariamente um material ecológico, devido às elevadas quantidades de produtos químicos usados ​​no seu fabrico, a par da sua incapacidade de se degradar biologicamente. A casa Stella McCartney, no entanto, tem investido no desenvolvimento de soluções que contornam esta limitação, usando solas biodegradáveis nas suas coleções.

Rachel Comey é uma designer nova-iorquina que contornou este conceito binário das peles verdadeiras e falsa, utilizando peles de animais que morreram de causas naturais, nomeadamente crias de alpacas. «Trabalho com uma fábrica de curtumes no Peru que me fornece as peles», revelou. «Os couros resultam exclusivamente da morte de alpacas bebés – o clima duro nas zonas de criação de alpacas, 3,6 quilómetros acima do nível do mar, provoca a morte de 15% das crias de alpacas nos primeiros três meses de vida». A natureza do seu fornecimento significa que Comey opera numa escala de reduzida dimensão, garantindo exclusividade – uma palavra-chave no mercado de luxo. Mas acredita que cada fabricante deve respeitar os mesmos princípios de ética «tanto ambiental como humanamente».

No Reino Unido o uso de peles verdadeiras ainda suscita muitas emoções e debates acalorados. Diversas publicações britânicas – incluindo a Vogue, Elle e Harper Bazaar – não as fotografam editorialmente e uma pesquisa da RSPCA, realizada em 2011, revelou que 95% dos britânicos se recusaria a usar peles verdadeiras, apesar da sua prevalência nas passerelles internacionais.

No ano passado, o grupo de luxo Kering – proprietário da marca Stella McCartney – fez uma declaração ousada das suas credenciais éticas. Numa palestra concedida na London College of Fashion, o presidente e diretor-executivo do grupo, François-Henri Pinault, explicou que o grupo Kering investiu no desenvolvimento de um método de curtimento de couro que não utiliza poluentes nocivos, como metais pesados. Esse tipo de consciência ambiental poderá ser esperada de McCartney ou da sempre ambientalmente consciente Vivienne Westwood, mas como acionista maioritário de marcas famosas pelas suas bolsas e acessórios de couro, como Gucci, Bottega Veneta e Balenciaga, este foi um passo ousado. Ainda mais ousado foi o facto de Pinault ter anunciado a intenção de partilhar essas informações com empresas rivais, demonstrando o desejo de promover mudanças reais ao invés de manter uma vantagem competitiva.

«O consumo desnecessário não é nosso amigo», afirma Iain Renwick, presidente da Eco-Age, uma marca de consultoria que colabora com retalhistas e fabricantes de diferentes dimensões, no sentido de melhorar a sua sustentabilidade. «Existe a opinião de que algo mais dispendioso é, por vezes, mais ético – isto pode dever-se simplesmente ao facto dos artigos de luxo serem produzidos em menores quantidades, ou necessitarem de muito trabalho manual, técnicas artesanais. Fundamentalmente, estes não são artigos descartáveis», explica. A própria natureza da indústria de luxo significa que esta assimila as mudanças lentamente, independentemente da iniciativa existente. Mas uma mudança incremental é melhor do que a ausência de mudança, defende Renwick, que reconhece que as marcas dispõem ainda de produtos que pretendem lançar: «Denominamo-lo de emergência da ética e estética».

A Edun é um exemplo de uma marca que apresenta uma combinação equilibrada de ética e estética – embora não tenha sido sempre assim. Atualmente integrada no conglomerado de marcas de luxo Louis Vuitton Moët Hennessy, a Edun foi fundada por Ali Hewson e pelo seu marido, o vocalista da banda U2, Bono, em 2005, com o objetivo de promover o continente africano. Apesar de admirável, a marca debatia-se com a dificuldade de ser reconhecida seriamente devido à ausência de uma estética forte e relevante. Danielle Sherman foi nomeada para o cargo de diretora criativa da Edun em 2013, trazendo consigo os conhecimentos adquiridos nas marca The Row e Alexander Wang, que transformaram a marca numa proposta de moda relevante.

Em última análise, a indústria da moda não vende apenas roupas, calçado e bolsas, vende a aspiração – e como Comey sustenta, o luxo moderno prende-se com o «desacelerar, produzir menos e comprar o que é especial e o que pode durar uma vida inteira».