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Peso pesado na moda

O mercado de moda masculina e o segmento plus-size têm vindo a registar um forte crescimento nos últimos anos, mas, apesar da chegada de novos players, a oferta de vestuário trendy e com estilo a pensar nos homens maiores está ainda subdesenvolvida.

Quando Leo Park era mais jovem, era – nas suas próprias palavras – grande. Em criança, via-se obrigado a usar, frequentemente, roupas de adulto. Muitos dos seus familiares eram também grandes, mas, vivendo na Coreia do Sul, existiam poucas opções de vestuário. «A moda para os homens de tamanhos grandes não existia», explica. «Sempre quis vestir-me melhor, mas é frustrante quando não conseguimos encontrar roupas na moda», acrescenta.

Quando Park se mudou para o Canadá, as suas opções permaneceram limitadas. Os quatro principais retalhistas da especialidade – Tip Top Tailor, King’s Sports, George Richards e Mr. Big & Tall – eram detidos por uma única empresa, a Grafton Fraser, e produziam sobretudo itens básicos como camisas, jeans e calças cargo.

A falta de escolha permaneceu na mente de Park, mesmo quando cresceu e emagreceu. Em junho deste ano, ele e um amigo, Irfan Hajee, lançaram a marca online Parker & Pine com a intenção de criar roupa bem ajustada e moderna, destinada ao homem de tamanho grande. Park prevê um crescimento mensal de 5% do volume de negócios ao longo de 2016. Uma projeção, afirma, tendo em conta um «cenário conservador».

Atualmente, a moda de tamanhos grandes é um dos sectores de em mais rápido crescimento na indústria do vestuário. Em 2014, o NPD avaliou o mercado americano de moda feminina de tamanhos grandes em 17,5 mil milhões de dólares (16,5 mil milhões de euros), mais 5% do que no ano anterior. Relativamente ao segmento masculino de tamanhos grandes, não existem estatísticas nos EUA, mas no Reino Unido, onde as vendas de vestuário de tamanhos grandes atingiram os 5,1 mil milhões de libras (7,25 mil milhões de euros) em 2014, mais de 2 mil milhões de libras foram gerados pelo vestuário de homem, segundo a empresa de pesquisa de mercado Conlumino.

Mas existirá, realmente, um mercado para vestuário masculino de tamanhos grandes que siga as tendências de moda? De acordo com um relatório da Verdict Retail, 57,9% dos consumidores de vestuário de homem de tamanhos grandes «concordam que gastariam mais em vestuário se tivessem mais opções disponíveis». Por outro lado, apenas 30% dos homens de tamanhos grandes inquiridos pela Mintel se consideraram «na moda» e «com estilo».

O vestuário de homem, contudo, tem vindo a ganhar uma importância e visibilidade crescentes. Em 2014, o sector de moda masculina superou o de moda feminina em termos de crescimento, pelo segundo ano consecutivo – uma tendência que deverá manter-se até 2019, altura em que deverá representar 39,7 mil milhões de dólares em vendas no mundo inteiro, de acordo com o Euromonitor. A empresa de estudos de mercado também destaca o facto do rendimento disponível médio dos homens ser 50% mais elevado em comparação com o das mulheres. «Eles dispõem, efetivamente, do dinheiro para gastar em roupas», afirma Bernadette Kissane, analista de vestuário e calçado do Euromonitor.

Porém, apesar do crescimento testemunhado nos segmentos de moda masculina e no de tamanhos grandes, o vestuário de tamanho grande para homem que incorpore tendências de moda tem ficado para trás. Em 2014, existiam menos de 1.000 lojas de roupas de tamanhos grandes para homem nos EUA, em comparação com cerca de 6.000 para o público feminino, de acordo com a Ibis World. A maioria destas são retalhistas especializadas, que se concentram em estilos básicos e embora um pequeno número de marcas generalistas, como a Ralph Lauren e a Gant, e de grandes armazéns como a JC Penney, tenham propostas para este mercado, a maioria dos estilos que disponibilizam são «uma variante do clássico americano», sublinha Park.

«O mercado atual de moda masculina de tamanhos grandes tem geralmente como alvo um cliente mais velho e não está focado na disponibilização de opções generalistas e com estilo, como vemos no mercado feminino», explica Bruce Sturgell, fundador e editor-chefe do Chubstr.com, um site de lifestyle dedicado aos tamanhos grandes masculinos, que atrai mais de 60.000 utilizadores por mês. «Não existe um verdadeiro player com qualidade de moda», concorda Kissane. «Está pouco explorado», acrescenta.

Para Park, o mercado moda de masculina de tamanhos grandes, com bom ajuste e atento às tendências «ainda não está bem servido». Antes do lançamento da Parker & Pine, ele e Hajee inquiriram milhares de homens que vestem tamanhos grandes para tentar descobrir o que faltava ao mercado. A resposta é «literalmente tudo», sustenta. A marca estreou-se com roupas interior e, desde então, expandiu-se para a categoria de camisas – um produto com o qual os inquiridos tinham um particular problema de fit.

No entanto, à exceção de «algumas pequenas marcas» como a Parker & Pine, «não existe muita inovação na indústria neste momento», refere Sturgell, que lançou a plataforma Chubstr.com em 2011, expressando a sua frustração com a falta de escolhas e conselhos de moda para homens de tamanho grande. «Tem sido um pressuposto errado o conceito de que os homens não se importam tanto com o que vestem ou com o seu aspeto. Os homens de tamanho grande ouvem isso ainda com mais frequência do que os seus pares de tamanho convencional», garante.

De olho na «oportunidade perdida» do mercado, e convencido de que existe um «interesse real» pela moda entre os homens de tamanho grande, em 2013 lançou uma loja de comércio eletrónico que disponibiliza produtos de moda masculina, elegantes e bem ajustados – desde camisas de ganga, a calções slim-fit – cujos tamanhos alcançam o 6XL. «Testemunhamos, regularmente, três a quatro vezes as taxas de conversão de um site de e-commerce médio», indica Sturgell – um facto que atribui ao «foco único» do website num mercado, até ao momento, pouco explorado.

No Reino Unido, os retalhistas dispostos entrar no segmento de tamanhos grandes com vestuário inspirado nas tendências de moda têm também testemunhado um crescimento rápido. Nos três anos desde que foi lançado, o bigdudeclothing.co.uk, um retalhista britânico online que disponibiliza tamanhos grandes até ao 8XL e marcas como a Dr Martens e Lambretta, cresceu 150% em termos anuais.

Em 2007, a empresa britânica JD Williams – que possui várias especialistas em vestuário de tamanhos grandes, incluindo a High & Mighty e a Premier Man – lançou a Jacamo, uma retalhista de moda masculina orientada para um consumidor mais jovem de tamanhos grandes, que disponibiliza tamanhos dos mais pequenos até um 5XL. Para 2015, o volume de negócios esperado para a marca Jacamo é «ligeiramente inferior a 100 milhões de libras», revela Martin Roberts, diretor de moda masculina da JD Williams. Cerca de 90% das vendas provêm do seu site de e-commerce, operando, simultaneamente, 15 lojas no Reino Unido e um negócio por catálogo.

A Jacamo disponibiliza aos clientes «praticamente o mesmo que poderíamos obter dos retalhistas de moda da high street», refere Roberts. «É realmente um conceito antiquado a ideia de que um homem que tem uma cintura de 127 centímetros e um torso 4XL pretende apenas um simples par de jeans de cinco bolsos, uma t-shirt simples e uma camisola com capuz», sublinha.

A Raging Bull, outra marca de lifestyle para homem, lançada no Reino Unido em 2007, inaugurou 33 concessões nos grandes armazéns House of Fraser, com vendas anuais de 3 milhões de libras. Nos últimos três anos, a marca tem registado um crescimento das vendas de pelo menos 50% em termos anuais. Tal como a Jacamo, a maioria das vendas são feitas online – e, também como a Jacamo, a maioria dessas vendas online pressupõem a compra de artigos de tamanho 2XL e acima, de acordo com a diretora-geral Shannon Mercer.

O motivo pelo qual o vestuário masculino de tamanhos grandes permanece com pouca oferta prende-se com os desafios inerentes a vestir um homem maior. «Não se trata apenas de aumentar uns tamanhos à gama já existente. É necessário compreender as idiossincrasias de um corpo maior», explica Roberts.

«Temos um custo extra nas matérias-primas», acrescenta Mercer, referindo-se ao material adicional necessário para produzir roupas em tamanhos maiores. A Raging Bull acrescenta um prémio de cerca de 10% ao custo nas suas roupas maiores, «de forma a passar alguns dos custos para o consumidor», indica.

Este é um ponto sensível, em particular para os retalhistas e marcas da high street, cujos consumidores procuram valor. Em resultado, «os comerciantes de massas beneficiam, provavelmente, da melhor oportunidade de continuarem a servir o mercado no curto prazo», afirma Diana Smith, analista sénior de retalho e vestuário da Mintel.

Há ainda um custo extra relativo ao espaço de loja, que é ocupado rapidamente pela oferta de tamanhos superiores. Por este motivo, tanto Jacamo como a Raging Bull restringem a oferta de tamanhos nas lojas físicas, enquanto a maioria das marcas de tamanhos grandes disponibilizam as suas linhas, principalmente, através do comércio eletrónico.

Efetivamente, em alguns aspetos, o e-commerce é especialmente adequado ao cliente masculino de tamanhos grandes. Não só os clientes de tamanhos grandes compram mais através da Internet, como os homens são, também, mais propensos a esta modalidade de compras, uma vez que «todo o seu processo de compras se articula em função de uma maior conveniência», sublinha Kissane. Uma pesquisa realizada pela Mintel em 2015, relativa aos clientes de tamanhos grandes, revelou que 84% dos homens afirmaram comprar produtos do tipo «grande e alto» online.

No entanto, o domínio de lojas especializadas que existem há muito no mercado não deve ser subestimado, de acordo com Darrell Freeman, fundador da bigdudeclothing.com. «Há players bem estabelecidos neste mercado», afirma, ressalvando que os clientes de moda masculina de tamanhos grandes são particularmente fiéis.

«Se tivermos em conta a falta de marcas, os homens que já compram com eles são mais suscetíveis de serem fiéis, porque são as únicas marcas existentes», concorda Kissane.

No entanto, alguns estão confiantes de que o segmento de vestuário masculino de tamanhos grandes seguirá o recente crescimento do segmento feminino. «Se este é o momento da moda masculina, a moda de tamanhos grandes será a seguinte. É a progressão natural»», acredita Leo Park.