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Fast fashion de passagem?

Um novo ambiente de retalho, em constante mutação, limitou o declínio de alguns clássicos do sector, favorecendo o crescimento de marcas de fast fashion, que se afiguram como as favoritas do mercado bolsista. No entanto, muitos aguardam ainda o renascimento das marcas tradicionais.

Os compradores experientes distinguem as peças de vestuário da Gap, Ralph Lauren e Abercrombie & Fitch imediatamente. Porém, de acordo com o mercado de ações, estas retalhistas são todas iguais e simultaneamente pouco atrativas. Os preços das ações caíram 30% ou mais este ano, num momento em que estas insígnias, outrora ditadoras de tendências, se debatem para encontrar o seu lugar num novo ambiente de retalho. A fast fashion lidera atualmente e cadeias como a H&M e a Zara povoam os espaços comerciais de todo o mundo, configurando-se uma escolha difícil para os investidores, que devem agora optar por investir nas ações das marcas-tendência ou apostar que as recém-excluídas acabarão por regressar em força.

A fast fashion não é propriamente um segmento novo, mas a estratégia de retalho que tem por base a criação de moda, de forma rápida e económica, com a chegada permanente de novos artigos às prateleiras das lojas, criando uma seleção diversificada de produtos, tornou-se uma das grandes histórias da inovação dos modelos de negócios. «Está aqui para ficar», afirma George Minakakis, consultor de retalho e CEO do Inception Retail Group, no Canadá.

Isso explica o motivo pelo qual a velha-guarda continua a mirrar e o segmento da fast fashion realiza o percurso inverso. A Hennes & Mauritz AB, a empresa-mãe da H&M, tem-se expandido a um ritmo alucinante, colaborando com designers de topo como Stella McCartney, Versace e Alexander Wang. A empresa sueca opera, na atualidade, 3.700 lojas à escala mundial, tendo aumentado a sua contagem em mais de 1.000 nos últimos três anos, e tem planos para inaugurar mais 240 lojas no quarto trimestre, tornando-se a segundo maior retalhista de vestuário do mundo.

A primeira posição é ocupada pela Industria de Diseño Textil SA, ou Inditex, detentora da Zara e várias outras marcas. A empresa espanhola detém mais de 6.600 lojas em 88 mercados e o preço das ações continua a crescer, antecipando-se uma trajetória ascendente. As ações da Inditex aumentaram 42% este ano, impulsionadas por previsões dos analistas que apontam um aumento dos lucros de 16% em 2015 e por um modelo de negócios imponente que não vacilou. A Zara produz 18.000 designs por ano, com novos modelos desenvolvidos no espaço de apenas três semanas.

O contraste com as entidades mais antigas da indústria é impressionante. Por insistentemente se apegarem a estratégias e estilos passados, diversas cadeias de retalho tradicionais alimentaram o crescimento da fast fashion com o seu próprio declínio. A Gap Inc. costumava ser um dos principais retalhistas de vestuário do mundo, mas as suas vendas continuam a cair, à medida que os consumidores mais jovens se afastam. Em junho, a empresa norte-americana anunciou que iria encerrar um quarto das lojas Gap na América do Norte, embora a cadeia Old Navy tenha apresentado resultados consideravelmente melhores.

A lista de outras vítimas do retalho de vestuário é longa: a American Apparel pediu proteção contra falência em outubro, a J. Crew registou uma queda das vendas na mesma base de lojas, o ícone da moda Ralph Lauren abandonou o leme da sua marca epónima em setembro, que enfrenta uma deterioração das vendas e é agora descrita como indesejável.

Estes contratempos desvalorizaram as ações de diversas retalhistas. O preço das ações da Gap caiu para mínimos de três anos. O rácio de preço/rendimento é agora inferior a 10, um valor inferior ao rácio de 20 assinalado apenas há três anos. Esta queda de preços aumentou os dividendos para uns atrativos 3,4%, mas os investidores ainda se mostram prudentes.

Mesmo considerando os preços severamente reduzidos, as retalhistas que estão fora de moda podem ser uma aposta perigosa. Os consultores de retalho dizem que a perceção da marca é muitas vezes inalterável. Por outras palavras, as ações de retalho caídas em descrédito são completamente diferentes das execuções cíclicas mais confiáveis sobre os bancos e entidades públicas. Alguns retalhistas poderão nunca mais regressar a uma situação favorável.

Isto significa que se deve apostar na H&M, na Inditex ou na japonesa Fast Retailing, a empresa-mãe da cadeia Uniqlo? Esta última pretende inaugurar as duas primeiras lojas no Canadá no próximo ano. Naturalmente, existem riscos inerentes também a estas ações. Um conceito de negócio baseado na compra de vestuário barato e, em seguida, descartável no espaço de uma estação pode irritar os críticos e alienar os consumidores. Vários atores sentiram, pelo menos, uma pontada de culpa após o colapso de um complexo de fábricas de vestuário no Bangladesh, em 2013, que provocou a morte a 1.100 trabalhadores.

A história dos negócios está repleta de exemplos de entidades inovadoras superadas pela inovação. As marcas mais recentes como a Primark, Missguided, Boohoo e Nasty Gal estão a crescer, muitas delas com um foco particular no retalho online.

Na sua maioria, no entanto, as vantagens parecem superar os riscos. Apesar da sua enorme dimensão, a H&M e a Zara ainda têm espaço para crescer. Em julho, a H&M lançou a linha H&M Beauty de maquilhagem e produtos de cuidados para a pele, aplicando essencialmente conceitos de fast fashion à cosmétias. Agora pretende expandir-se nos EUA, onde a sua quota de mercado fica ainda aquém da Gap.

A Zara está a integrar as vendas online nas suas operações em loja e afirma-se capaz de atrair milhões de compradores sem canibalizar as vendas nas lojas físicas. Em Tóquio, o carismático fundador do grupo Fast Retailing, Tadashi Yanai, pretende que a Uniqlo venha a superar a Zara, tornando-se a maior marca privada do mundo.

Deste modo, é difícil encontrar pechinchas entre as ações das grandes marcas. A H&M é negociada a 25 vezes os seus lucros, a Inditex a 39 e o grupo Fast Retailing a 41. Estas avaliações sugerem que as fortes perspetivas de crescimento são incorporadas nos preços das ações. As ações têm vindo a aumentar de forma constante, refletindo o crescimento real, ao invés da paixão investidor. O barato e moderno oferece algumas recompensas.