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A verdade do “made in UK”

A eventualidade do regresso da produção têxtil e de vestuário ao Reino Unido tem sido tema de debate contínuo. Embora a formação, o custo e a conformidade sejam fatores importantes a considerar, o consenso determina que, apesar da possibilidade de produzir localmente, esta deverá ocorrer a uma escala significativamente menor do que no passado.

De acordo com Adrian Elliott, presidente de vestuário e calçado da Coats Plc., o regresso da produção de têxteis e vestuário ao Reino Unido não é uma falsa promessa, nem tão pouco um renascimento. «Creio que se encontra algures no meio», afirma Elliott, acrescentando que «de forma geral, diria que será muito difícil estabelecer uma grande base de produção no Reino Unido. Creio que poderá aumentar ligeiramente, mas será muito difícil competir com as grandes empresas mundiais».

O consultor de sourcing Philip Worrall corrobora esta perspetiva. «É uma indústria de nicho no Reino Unido», advogou numa comunicação no âmbito de um painel de discussão do Fashion SVP, um evento de sourcing que decorreu em Londres no passado mês de outubro.

Formação

Philip Worrall acredita que existe uma oportunidade no Reino Unido de formar as pessoas de forma a que estas possam, então, integrar a indústria. «Atualmente, uma das minhas maiores dores de cabeça, e creio que também de toda a indústria, prende-se com a escassez efetiva de competências no respeitante a técnicos de tecidos e vestuário».

O consultor sugere que, talvez, preservando-o enquanto nicho da indústria no Reino Unido, poderá filtrar ou alimentar um sector maior, de forma a que os trabalhadores possam levar as melhores práticas a fábricas no exterior. «Talvez não seja, necessariamente, apenas uma falsa promessa ou um verdadeiro renascimento, mas exista uma oportunidade de formar a nossa indústria, que carece dessas pessoas, uma vez que as universidades não disponibilizam esses cursos», explica Worrall.

Jenny Holloway, CEO da empresa social sem fins lucrativos e de fabrico de vestuário Fashion Enter, que dirige um centro de tecnologia de moda e um projeto de ensino no Reino Unido, defende que «não devemos recear trazer novas competências e incuti-las na vanguarda da produção». «Trata-se de chegar ao mercado o mais rapidamente possível, com a melhor peça de vestuário. Está aqui, no Reino Unido», acrescenta.

 Uma questão de escala

Embora estas iniciativas sejam essenciais, Adrian Elliott considera tratar-se de uma questão de escala. Com as exportações de vestuário FOB (free on board, ou preços das exportações excluindo custos de transporte) da China avaliadas em 165 mil milhões de euros e as do Vietname em cerca de 21 mil milhões, Elliott destaca que «é tudo uma questão de escala». «Concordo que existe um futuro para a indústria aqui, apenas não creio que venha a adquirir a mesma escala que em locais como a Turquia, Vietname, Bangladesh, México ou América Central», ressalva.

Os especialistas observam as necessidades da indústria têxtil e vestuário através de cinco perspetivas: velocidade, custo, inovação, qualidade e conformidade, de acordo com Elliott. «Todos consideram estas cinco necessidades e pretendem encontrar o equilíbrio entre elas», admite.

Embora a velocidade seja uma vantagem para as empresas que procuram fabricar no Reino Unido, o presidente de vestuário e calçado da Coats acredita que a indústria deverá investir na inovação. «A velocidade e a inovação são duas áreas em que o Reino Unido poderá competir, apenas não acredito que seja algo de 10 mil milhões de dólares», explica.

Philip Worrall concorda. «Adoraria trazer a fabricação de volta ao Reino Unido, mas devemos ser realistas. A probabilidade de isso acontecer em volumes consideráveis é muito reduzida», afirma. «O que temos aqui é uma grande oportunidade, e sim devemos incentivá-la e implementá-la de forma a prosperar e crescer no Reino Unido. Mas creio que os retalhistas enfrentarão uma enorme pressão sobre as suas margens nos próximos meses, em particular devido ao salário mínimo do Reino Unido, pelo que irão focar-se nas margens, dificultando a tomada de decisão de o fazer no Reino Unido», justifica.

 Custos

Quando as margens se tornam apertadas, Worrall acredita que os retalhistas devem pensar sobre onde farão o aprovisionamento dos seus produtos. «Irão ponderar quaisquer países que possam reduzir os encargos de importação, tais como o Bangladesh, Vietname, Camboja; irão considerar e concentrar-se nos mercados nos quais podem produzir e obter os seus bens a um preço mais barato do que, infelizmente, o podem fazer no Reino Unido», explica o consultor.

Comparando os custos laborais no Reino Unido – 400 libras esterlinas (569 euros) por semana – com aqueles praticados no Bangladesh – 56 euros por mês -, Philip Worrall reitera que a fabricação local prende-se com a escala. «Não se trata de produzir 200.000 peças de vestuário por ano», afirma, apontando o exemplo de uma fábrica que visitou, que produz um milhão de peças de vestuário por mês, em apenas um estilo.

Mas Jenny Holloway defende que as marcas e retalhistas devem considerar os custos associados ao controlo de qualidade, transporte e reprocessamento. «Tudo o que será obliterado em consequência da fabricação no Reino Unido, e é isso que devem fazer», explica.

Philip Worrall, no entanto, destaca que «vivemos hoje numa sociedade de consumo. Infelizmente, é mais barato comprar uma t-shirt nova do que lavá-la; esses são os produtos baratos provenientes da Ásia. Por quanto tempo poderemos manter isto? Eu não sei».

Conformidade

Após o colapso da fábrica Rana Plaza no Bangladesh, que matou 1.100 pessoas, há mais de dois anos, Jenny Holloway destaca que não se parou de «gastar uma fortuna em conformidade, mas é a coisa certa a fazer».

Efetivamente, a sua fábrica desenvolveu um sistema de código de barras que assiste os técnicos na digitalização, com cada operação temporizada para que se possa comparar o custo de produção de um trabalhador para outro. «Desta forma evitamos essa dor de cabeça relacionada com o facto de estar a ser subcontratado a terceiros, que desconheçamos que o estejam a fazer», sustenta Holloway. «Se pretendemos ter uma indústria de que nos possamos orgulhar, então vamos fazê-lo e fazê-lo corretamente», conclui.