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Brasil em risco de depressão

Apontada, nos últimos anos, como uma economia de oportunidades e crescimento, o Brasil sofre agora os efeitos da instabilidade política, aumento da dívida pública e da falta de emprego, que está a pressionar o consumo das famílias e a levar à revisão da atratividade do país pelas principais agências de rating.

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A maior economia da América Latina encolheu mais do que os analistas esperavam, com o aumento do desemprego e da inflação a travar a procura interna, levando a nação para o que a Goldman Sachs chama de «uma completa depressão».

O Produto Interno Bruto (PIB) do Brasil contraiu 1,7% nos três meses terminados em setembro, depois de uma quebra revista de 2,1% no trimestre anterior, de acordo com os dados do gabinete de estatística do país. Um resultado pior do que quase todas as estimativas dos 44 economistas inquiridos pela Bloomberg, cuja previsão média apontava para um declínio de 1,2%. Marca também a primeira contração de três trimestres desde que o gabinete de estatística começou a compilar dados, em 1996, e uma quebra anual ajustada sazonalmente de 6,7%.

A investigação em curso sobre corrupção causou uma estagnação em Brasília, atrasando os esforços da Presidente Dilma Rousseff para passar medidas para fortalecer as contas fiscais e revitalizar a confiança. À medida que o défice orçamental foi aumentando, dando azo a ameaças de mais desvalorizações nos rankings para “lixo”, o governo viu-se obrigado a impor uma paragem parcial, congelando as despesas discricionárias. Entretanto, o Banco Central subiu as taxas de juro para empréstimos com o valor mais elevado desde 2006, deprimindo a procura e aumentando o desemprego, tendo falhado em responder à inflação de dois dígitos.

«O que começou como uma recessão provocada pelas necessidades de ajustamento de uma economia que acumulou enormes desequilíbrios está a agora a mudar para uma completa depressão, tendo em conta a profunda contração da procura interna», explica, numa nota, Alberto Ramos, economista-chefe para a América Latina no Goldman Sachs Group Inc. O swap de taxa de juro nos contratos até janeiro de 2017 caiu seis pontos base, ou 0,06%, para 15,74%, a 1 de dezembro. O real desceu 0,8%, para 3,8967 por dólar americano.

«É um golpe substancial não só para o investimento, que caiu nove trimestres consecutivos mas, este ano, a grande mudança é a quebra significativa no consumo», afirmou Carlos Kawall, economista-chefe no Banco Safra e ex-secretário do Tesouro Nacional. «Nunca vimos uma série de números tão negativos para o consumo», acrescentou, numa conversa telefónica com a Bloomberg.

Os níveis de consumo do Brasil estão pouco acima dos níveis mais baixos registados na última década. A confiança dos consumidores caiu, à medida que a taxa de desemprego atingiu 8,9% em setembro, mais 2% do que no mesmo mês do ano passado, e a inflação acima dos 10% está a prejudicar os salários reais. O consumo das famílias no terceiro trimestre diminuiu 1,5%, depois de uma queda revista de 2,4% no período anterior.

«A ideia de que os consumidores podem não ter rendimentos para pagar as dívidas nos próximos anos aterroriza-os», revela Bruno Rovai, economista no Barclays Plc. «Mesmo que haja uma retoma na confiança, acreditamos que o mercado de trabalho vai continuar a ser afetado ao longo do próximo ano, e isso irá travar o consumo dos agregados familiares», advoga.

Para abrandar o aumento dos preços ao consumidor, o Banco Central duplicou praticamente a taxa de referência desde 2013, para 14,25%. Isso levou as empresas a travar novos empréstimos, uma vez que o Banco de Fomento estatal também reduziu o crédito subsidiado. O investimento caiu 4% no terceiro trimestre – o nono declínio consecutivo, segundo o relatório do PIB. A produção contraiu 3,1%.

A investigação sobre corrupção na empresa estatal de petróleo Petrobras está a ensombrar as perspetivas de melhoria do clima de negócios e as contas do Governo. A prisão a 25 de novembro do senador Delcídio do Amaral por alegadamente tentar interferir nas investigações colocou a agenda política de Dilma Rousseff de lado, segundo André César, analista político em Brasília.

Com o governo a lutar com dificuldades para conseguir a aprovação de medidas de austeridade no Congresso, o Brasil registou uma quebra na avaliação da sua dívida nas três principais agências de rating no terceiro trimestre. A Moody’s e a Fitch Ratings baixaram o Brasil para o nível mais baixo de investimento, enquanto a Standard & Poor baixou para “lixo” após sete anos de ranking de nível de investimento. A S&P citou, como motivos, a deterioração da posição fiscal do Brasil, as dificuldades políticas para suportar as finanças públicas e a debilidade económica.

Haverá mais dois trimestres de contração, depois de três de quase estagnação, de acordo com uma estimativa média de cinco economistas inquiridos pela Bloomberg. A economia do Brasil vai contrair 3,19% este ano e 2,04% em 2016, segundo a estimativa média de cerca de 100 economistas inquiridos pelo Banco Central. Isso marcará a primeira recessão desde 1931.

À primeira leitura, o relatório lembra «um obituário», segundo André Perfeito, economista-chefe na Gradual Investimentos, que reviu em baixa as suas previsões de PIB para 2016, de um declínio de 2% para 3%, depois da publicação dos dados. «Não há espaço para qualquer crescimento nos próximos trimestres», reconheceu Perfeito. «A situação é muito, muito má», alertou.