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Espaço de mudança

A narrativa que atualmente impera é que os shoppings estão a morrer: uma pesquisa rápida na web fornece todas as indicações de que este hábito de compras é descartado pelos consumidores. Não obstante, uma análise mais profunda permite perceber que os centros comerciais de topo não estão a ser considerados, e o melhor exemplo é o florescimento do Dubai Mall, nos Emirados Árabes Unidos.

Os shoppings de topo não estão apenas a sobreviver, mas a prosperar. Porém, para uma análise abrangente importa começar por perceber o pessimismo em torno do tema, sendo que os números negativos moram, sobretudo, nos centros comerciais americanos. Um estudo recente do CoStar Group, líder na divulgação de dados sobre a indústria do imobiliário, mostrou que cerca de 80% dos 1200 shoppings americanos estão bem, classificados inclusivamente como “saudáveis”, com taxas de desocupação na casa dos 10% ou menos.

Todavia, esses números (80%) caíram dos 94% de 2006. E 15% dos centros comerciais têm taxas de desocupação de 10 a 40%, um aumento de 5% relativamente a 2006. Há ainda cerca de 3.4% que estão à beira da rutura, com taxas de desocupação acima dos 40%.

Contudo, ainda há esperança para as grandes superfícies comerciais. Aliás, o maior contra-argumento à ideia de que os shoppings estão a morrer é a proposição de que apenas aqueles com má performance se vão extinguir. E os centros comerciais considerados de linha “A” – com lojas de topo e impressionantes interiores – estão, inclusivamente, a prosperar.

Neste segmento, há novos empreendimentos em agenda. Em 2017, New Jersey vai receber o American Dream Meadowlands, um projeto de 5 mil milhões de dólares (aproximadamente 4,7 mil milhões de euros) que albergará cerca de 500 espaços de retalho incluindo insígnias como Uniqlo, Lord & Taylor e Hermès. É um investimento ambicioso, mas ainda assim fica aquém do monumento ao consumismo erguido no Dubai.

O investimento de 20 mil milhões de dólares, localizado no megalómano Burj Khalifa, agrega 1.200 lojas e é o maior do mundo. Abriu portas em 2008 e levou apenas quatro anos a ser construído. No último ano, cerca 80 milhões de pessoas calcorrearam o espaço, fazendo daquele o destino de lifestyle mais visitado do mundo.

Mas o Dubai Mall não é apenas popular, é lucrativo. De acordo com a operadora Emaar Malls, o espaço gera cerca de 5% do PIB do Dubai. As marcas com espaços dentro do Dubai Mall também prosperam com os gastos dos consumidores em escalada. A secção “Fashion Avenue”, que inclui marcas como Louis Vuitton, Bottega Veneta, John Lobb e Tom Ford, assume-se com um verdadeiro destino de luxo.

À entrada, há uma pop-up Hermès, bem como montras da Piaget, Cartier, Patek Philippe, e Rolex. A Level Shoe District, uma das maiores lojas de topo de calçado do mundo, vende cerca de 600 pares de sapatos por dia. E, com o dinheiro necessário, é possível adquirir quase tudo o que se deseja.

Comparativamente, parecem legítimas as previsões que indicam que os shoppings americanos estão a morrer. As suas opções limitadas, numa altura em que os consumidores sabem exatamente o que pretendem adquirir, fazem com o comércio eletrónico se revele uma forte alternativa. Em última análise, os espaços físicos do retalho não vão extinguir-se, mas terão de se adaptar a uma nova realidade. Por um lado, há pequenos negócios e boutiques que estão a encontrar renovado sucesso e a alterar as regras do jogo; por outro, existem os centros comerciais cada vez mais luxuosos e caros. Estes dois casos serão, nos próximos anos, o “novo normal” do retalho.