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Marcas imortais

Cansados de produtos que, em pouco tempo, ficam fora de moda ou se estragam, cada vez mais consumidores procuram produtos com um ciclo de vida mais alargado, dando preferência a designs intemporais, artigos que possam ser reparados e, até, etiquetas digitais que guardam memórias.

«É um grito de guerra. Nem tudo devia ser descartável», lamenta a equipa de design da Flint and Tinder. Em resposta ao aumento da obsolescência planeada (produtos desenhados para durarem pouco tempo para assegurar que são substituídos e, dessa forma, impulsionam as vendas), a empresa de vestuário sediada em Brooklyn apresentou a 10-Year Hoodie, uma peça de vestuário que vem com arranjos grátis durante uma década.

Há uma mudança clara nos ciclos de vida dos produtos, numa altura em que a exigência de qualidade está a começar a triunfar sobre a fast fashion.

A Flint and Tinder não está sozinha nesta cruzada por produtos com garantia alargada: no mês passado Tom Cridland lançou a 30-Year Sweatshirt e a 30-Year T-Shirt está em pré-venda através da Indiegogo. «As modas mudam e nós, designers, mantemo-nos no negócio com o desenvolvimento de novas modas, mas os básicos do guarda-roupa devem ser feitos para durar», considera Cridland numa entrevista. «A Apple pode lançar um novo iPhone todos os anos, mas o novo modelo tem novas características, há aí inovação. Com uma simples t-shirt branca, não há inovação, está-se apenas a comprar a mesma coisa, uma e outra vez», acrescenta.

O fundador da Pad & Quill, Brian Holmes, acredita que o design intemporal e as garantias alargadas devem ser os novos padrões da indústria. «Espero que, daqui a 25 anos, a mochila que fazemos seja muito semelhante a esta, porque o design mostrou ser intemporal», afirma Holmes. «Acho que só o tempo dirá».

Remendar e reparar

O recente aumento de serviços e negócios para remendar e reparar está a ser impulsionado por dois fatores: a sustentabilidade e a ligação emocional ao produto. À medida que as pessoas redefinem valor, tanto no propósito do artigo como no seu valor monetário, há uma importância crescente em reparar artigos que a pessoa gosta em vez de os substituir.

Para alguns retalhistas, remendar e arranjar tem sido um serviço de valor acrescentado prestado há vários anos: a Brooks Brothers repara e restaura produtos diretamente na loja sem ser necessário recibo e a Barbour repara qualquer casaco encerado independentemente da data de compra. Outros retalhistas, incluindo a Alden e a Allen Edmonds, oferecem serviços do género sujeitos a uma taxa nominal.

Os serviços de arranjos estão a evoluir e a servir várias demografias que procuram alargar o ciclo de ida do produto. O programa Worn Wear da Patagonia celebra a roupa e as histórias por detrás da roupa, aumentando a vida dos produtos através de remendos ou, quando necessário, reciclando-os para dar origem a algo de novo.

A loja de serviços para ténis de Jason Markks em Los Angeles está a dar resposta à comunidade de fãs de ténis, oferecendo serviços de limpeza a seco e restauração pela equipa Sneaker Care Technicians.

À medida que mais retalhistas físicos de reparação de vestuário e ténis entram no mercado, é provável que surjam igualmente serviços de nicho do género na Internet.

Para memória futura

Imagine herdar um artigo de um familiar ou amigo com uma etiqueta digital que permite aceder a todas as memórias associadas a esse produto em particular. Esta forma digital de imortalidade da marca está a emergir e deverá ter impacto no conceito tradicional de relíquia de família e história de produto.

A Faribault, uma produtora americana de cobertores, revelou a Memory Mill em 2015. A plataforma online preserva «memórias para os futuros donos do cobertor através de um Memory Thread, uma mensagem digital simples criada para ser recuperada por uma determinada pessoa». As memórias são acessíveis através de um número de identificação único que é atribuído ao produto quando este é comprado.

«A ideia surgiu de uma verdade profunda e emocional sobre a nossa marca com 150 anos. Os nossos cobertores duram gerações. E, quase todos os dias, um consumidor conta-nos uma história pessoal sobre a sua relação com o cobertor», explica Bruce Bildsten, diretor de marketing da Faribault. «Falam sobre o cobertor que herdaram da avó ou da manta que receberam como presente de casamento ou até sobre aquele cobertor que levaram para um estádio para um grande jogo», exemplifica.

A History Tag da Hiut Denim vai um passo mais longe, permitindo que os utilizadores façam o upload de imagens e notas para o website da History Tag, que podem ser acedidas através de um número de identificação específico. Segundo a Hiut, a History Tag «dá mais significado aos objetos. Vai significar que deitaremos as coisas fora menos frequentemente. Porque liga histórias aos objetos que adoramos», resume.