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Uma questão de números

Na China, os algarismos são mais do que apenas indicações de unidades. Cada um esconde um significado oculto e permite transmitir ideias complexas de forma simples. Das conversas do quotidiano aos media sociais e marketing, os números são acima de tudo códigos plenos de significado.

Historicamente, os números tinham uma importância simbólica, sendo vistos como auspiciosos ou de mau augúrio, na China. Entre os números da sorte estão: o zero (ling), associado muitas vezes a dinheiro; o 2 (er), um par; o 3 (san), que representa as três fases da vida, tendo ainda um som semelhante à palavra nascimento (sheng); o 6 (liu) que é um homónimo da palavra que significa “fluir”, considerado um bom prenúncio para os negócios; o 7(qi), que é também o conceito chinês da energia das coisas vivas ou força da vida e um homónimo de “levantar”, apesar de também ter um som semelhante à palavra “raiva” em chinês; o 8 (ba), que rima com a palavra prosperidade (fa); e o 9 (jiu), que é um homónimo para longevidade.

Já os números considerados de azar são o 4 (si), que é um homónimo da palavra “morte”; 5 (wu), que é um homónimo de “nada”, também usada como partícula de negação em chinês; e 14 (shi si), que é um homónimo da expressão “estar morto”.

Importância do 3

Representando as três fases da vida, o clássico da literatura “Romance dos Três Reinos” e as divindades Fu Lu Shou (que significa “fortuna, prosperidade e longevidade”), o três é um número importante para os chineses.

Nos últimos 100 anos, figuras da cultura nacional, como as irmãs Soong, a teoria política e a família nuclear chinesa pós-1970 revolveram em torno deste número.

Considerado um conjunto, três é também o número de caracteres mais comum para nomes completos no país.

O paradoxo do quatro

Embora a palavra chinesa para quatro, “si”, seja um homónimo de “morte”, tornando-o em azar, o número em si é um paradoxo. É considerado inadequado para conjuntos de presentes, nomes de empresas, andares de edifícios, moradas ou informação de contacto, mas no que diz respeito à sintaxe, o algarismo é o número de palavras preferido para a escrita. Usado em tudo, desde poesia clássica a calão, provérbios, slogans de marketing ou localização da marca, estas frases são normalmente construídas como dois conjuntos de pares, representando equilíbrio e harmonia.

Embora o jogo de palavras dos provérbios seja valorizado como estilo de escrita pela sua capacidade de condensar conceitos complexos em frases curtas e inteligentes, no final do ano passado o governo publicou um aviso oficial a proibir a utilização de trocadilhos nos media.

Uma vez que cada provérbio normalmente representa uma história através de jogos de palavras, os chineses podem indiretamente expressar as suas opiniões e levantar questões políticas e sociais através da sátira. Curtas e de fácil memorização, estas frases têm o poder de ser tornar virais. Como estilo de escrita, isso coloca uma ameaça às restrições de censura do país porque o significado está apenas implícito, tornando difícil de regulamentar.

Números como acrónimos

Nos canais dos media sociais e para as mensagens escritas, os números são uma forma rápida de comunicar com os amigos, eliminando a necessidade de procurar caracteres pelo seu “pinyin” (som fonético).

Usados para formar uma grande variedade de frases, estes números são normalmente associados com as seguintes palavras:

0: ling – tu

1: yi – quero, já

2: er – amor, vir, fome

3: san – a pensar em, desejo, falta, vida, tempo de vida

4: si – ser, morrer

5: wu – sem, eu

6: liu – “le”, uma particular chinesa usada a seguir aos verbos para indicar uma ação concluída

7: qi – raiva, sentimento, comer

8: ba – “ba”, uma particular chinesa usada para fazer sugestões, não

9: jiu – partir (ir embora), precisamente

Marcos da vida

Na China, os marcos da vida são diferentes do Ocidente. Para os recém-nascidos e respetivas mães, o primeiro mês é, passado em confinamento, o “yuezi”. Depois dos primeiros 30 dias de vida (“man yue”), as crianças recebem o nome e são apresentadas aos amigos e família. Os 100 dias de vida de uma criança são celebrados com um banquete (“bai ti yan”).

Com base nos escritos do filósofo Confúcio, as décadas representam marcos da vida. Segundo o vídeo do YouTube Off the Great Wall, aos 20 anos os indivíduos tornam-se adultos, aos 30 é estabelecida uma carreira e família, aos 40 é atingida estabilidade e clareza de vida, aos 50 chega-se à sabedoria de vida e aos 60 celebra-se os sucessos e a família.

As décadas têm ainda um papel importante a definir os grupos na China. Por exemplo, nascidas depois das reformas económicas do país, as gerações pós anos 80 e 90 representam uma enorme diferença cultural em comparação com as gerações anteriores. Tendo crescido mais expostos ao Ocidente e a um padrão de vida que tem melhorado consistentemente, estes indivíduos também raramente têm irmãos devido à política de filho único na China.

Narrativas artísticas

Na China, os números que são potências de 10 estão associados a prosperidade e longevidade. 100 representa variedade e perfeição, enquanto 1.000 simboliza abundância, um longo período de tempo ou mudança rápida. Com origem na dinastia Tang como uma saudação ao imperador, “wan sui” (10 mil anos) pode ser usado para desejar a alguém uma longa vida.

A mostra White on White do fotógrafo de Xangai Maleonn representa o desaparecimento da memória coletiva da China à medida que o país se moderniza, usando o número 1.000. este número partilha a mesma pronúncia fonética de passado (“yi qian”). Em combinação com fotos a preto e branco, que são tradicionalmente penduradas para lembrar os mortos, o artista criou uma instalação intitulada Retratos de 1.000 Estranhos.

Com muitos números associados a prosperidade e longevidade, Ai Weiwei juntou 100 milhões de sementes de girassol em cerâmica para o projeto Sementes de Girassol como forma de crítica social. Traçando o percurso da China da austeridade a fábrica do mundo, a instalação, que esteve no Tate Modern, em Londres, aborda o tema da produção em massa e do consumismo.