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Garantias de futuro

Organizações do comércio, instituições de educação e não-lucrativas, grupos de luxo e marcas estão a desenvolver um conjunto de ações que visam garantir o respeito da indústria pelo meio ambiente.

Há inclusivamente vontade de criar uma etiqueta que permite identificar o vestuário e acessórios produzidos de forma sustentável. E até a administração Obama entrou na corrida ao convidar marcas de moda e beleza a aderir ao “American Business Act on Climate Pledge”, um programa focado na redução da pegada do carbono da indústria.

«A indústria do luxo tem particular responsabilidade porque estabelece tendências e é aberta à inovação», afirma Marie-Claire Daveu, responsável pelo departamento de sustentabilidade no grupo de luxo Kering. «A sustentabilidade devia estar no nosso cerne», acrescenta em declarações ao The New York Times.

Os consumidores têm vindo a exigir das marcas uma abordagem sustentável à moda, o que tem contribuído para a crescente mudança de atitude da indústria. «A consciencialização e as expectativas do consumidor estão a mudar em relação às questões ambientais das empresas, sobretudo na geração millennial. Estes querem que as marcas se comportem de forma responsável», explica Elisa Niemtzow, diretora dos sectores do consumidor na BSR, a maior rede não lucrativa dedicada às questões da sustentabilidade.

Eva Kruse, diretora executiva do Danish Fashion Institute (DAFI), em Copenhaga, também salienta a importância da perceção dos consumidores. «É verdade que as pessoas questionam: “Como pode a moda ser sustentável se sempre foi sobre o consumo?”. Mas pode ser sustentável ao concentrar-se em reduzir o seu impacto negativo na sociedade e no meio ambiente. Não se vai parar de produzir vestuário, mas é necessário discutir a quantidade produzida», refere.

Para muitos, o pensamento verde das marcas passa por tecidos livres de pesados tratamentos químicos, direitos dos animais, produção transparente, condições de trabalho, direitos dos trabalhadores e uma abordagem proactiva ao impacto das alterações climáticas na indústria. Dentro destes, há ainda quem defenda que se esses objetivos não forem alcançados, é a própria cadeia de aprovisionamento de moda que sairá prejudicada.

No início deste mês, a BSR e o grupo Kering divulgaram um estudo que referia que as alterações climáticas terão «um efeito negativo na disponibilidade e na qualidade das matérias-primas e, por acréscimo, na vulnerabilidade das comunidades responsáveis pela produção desses materiais», resume Niemtzow. Por exemplo, os produtores de vicunha na Bolívia e no Peru «dependem daquele pelo para a sua subsistência. Se as vicunhas estiverem em risco devido às alterações climáticas, também essa gente estará», aponta.

Para diminuir este impacto, refere ainda o relatório BSR/Kering, a indústria da moda terá de ajudar estes fornecedores a melhorarem as suas práticas. «O mais importante a fazer enquanto empresa de luxo é perceber a cadeia de aprovisionamento para perceber onde se poderá estar mais vulnerável», considera Niemtzow. «A rastreabilidade é a chave», destaca.

As iniciativas a este respeito têm proliferado. Na Dinamarca, Suécia, Noruega, Finlândia e Islândia, o DAFI tem diferentes ferramentas para ajudar as marcas a “limparem” as suas práticas, como uma biblioteca de tecidos sustentáveis – mais de 1.500 amostras, em Copenhaga – e uma base de dados de cerca de 100 fornecedores de tecidos sustentáveis. «É uma “one-stop shop”», explica Jonas Eder-Hansen, diretor de desenvolvimento do instituto.

Para promover estas e outras iniciativas – como o guia de compras sustentáveis para Copenhaga –, o DAFI receberá na cidade dinamarquesa, em maio, a quarta edição da maior conferência de moda sustentável. «Queremos encorajar todas as pessoas a embarcarem nisto», diz Eder-Hansen.

Em setembro, a incontornável feira Première Vision, recebeu aquilo que apelidou de «discussão inteligente», em Paris, sobre «a nova geração de valores responsáveis na moda e na indústria têxtil». Mais de 200 pessoas ouviram Carlo Capasa, responsável pela italiana Camera Nazionale della Moda, Caroline Rush, presidente executiva do British Fashion Council, e Chantal Malingrey-Perrin, diretora de marketing da Première Vision, debater programas como o “Smart Creation”, que procura estabelecer condições sociais aceitáveis na produção, o Estethica, um showcase da London Fashion Week que promove marcas sustentáveis, e o grupo de trabalho da Camera Nazionale constituído por 10 das maiores casas italianas, incluindo Armani, Ermenegildo Zegna e Versace, que está a estudar uma forma de reduzir os tratamentos de tecidos com recurso a químicos.

Nos EUA, o Council of Fashion Designers of America (CFDA) tem uma parceria com a Lexus desde 2010 para o anual “eco-fashion challenge”, uma competição que homenageia pequenas empresas comprometidas em criar linhas de moda ambientalmente responsáveis. Lisa Smilor, diretora executiva do CFDA, refere que, no início, eram as pequenas empresas que revelavam preocupações desta natureza, mas atualmente as grandes marcas, como por exemplo a Ralph Lauren, mostram interesse em investir na sua expressão ecológica. «As grandes empresas representam a maior mudança», sustenta Smilor.

Não obstante, a maioria ressalva a próxima geração como esponsável pela verdadeira e significativa mudança neste campo. O Centre for Sustainable Fashion, um centro de pesquisa constituído por seis universidades de Londres criado em 2007, tem ajudado os estudantes de design e moda a ponderarem um conjunto de questões pertinentes em torno deste novo cenário de atuação. Em parceria com o grupo Kering, o centro endereça aos estudantes e empresários metas focadas na «autenticidade, integridade e design face à injustiça social e às alterações climáticas», explica o diretor, Dilys Williams.

Paralelamente, a Sustainable Apparel Coalition, uma associação de vestuário, calçado e de têxteis-lar sediada em San Francisco, está a desenvolver o Higg Index. O índice, que deverá estar concluído em 2017, será uma espécie de ferramenta de normalização da cadeia de aprovisionamento de moda e informará – através das etiquetas dos artigos – os consumidores acerca dos efeitos sociais e ambientais da sua compra.

«Será a mesma etiqueta, quer se trate de uma peça Walmart, Levi’s ou uma das marcas do grupo Kering, como a Alexander McQueen», informa Hansen, do Danish Fashion Institute, membro da Sustainable Apparel Coalition.

Outras medidas que foram ou estão a ser postas em prática incluem ainda a proibição do grupo Kering sobre a utilização de PVC, da produção da Bottega Veneta e da Gucci daquilo a que chamam de bolsas “zero-deforestation (desflorestação zero) e o início da responsibilityinfashion.org, uma organização que está a trabalhar com o CFDA para desenvolver um plano de ação que visa ajudar as empresas de moda a tornarem-se mais sustentáveis.

 Na joalharia

A sustentabilidade não é apenas um assunto exclusivo daquele lado do luxo e a joalharia entra também nesta corrida pelo ambiente. Marcas como Tiffany & Company e Chopard anunciaram recentemente a sua investida ética na extração de pedras preciosas, utilização de ouro, prata e platina reciclados e um trabalho com minas ecologicamente conscientes.

Em 2010, a Chopard integrou o Responsible Jewellery Council, uma aliança de 600 membros sediada em Londres que estabelece orientações sobre questões ambientais, sociais e económicas. A empresa suíça de base familiar está também a trabalhar com a Alliance for Responsible Mining, uma organização não-governamental com sede na América do Sul. Na passadeira vermelha do festival de Cannes de 2013, a Chopard apresentou a “Green Carpet Collection”, uma coleção de joalharia feita de acordo com o Green Carpet Challenge, uma plataforma que procura promover práticas éticas e sustentáveis. O movimento foi fundado por Livia Firth, diretora criativa da Eco-Age, uma consultora londrina.