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O plágio da Chanel

Na semana passada, e depois da onda de reprovação que havia inundado as redes sociais, a Chanel admitiu que algumas das camisolas desfiladas no seu último Métiers d’Art, em Roma, foram uma tradução demasiado literal de peças que alguns membros da equipa da casa francesa haviam comprado a Mati Ventrillon, designer das ilhas Shetland, na Escócia.

«A Chanel vai atribuir o crédito a Mati Ventrillon ao incluir as palavras “Mati Ventrillon design” nas suas ferramentas de comunicação para a reconhecer como fonte de inspiração dos modelos em questão», informou um porta-voz da casa francesa na passada quinta-feira.

As camisolas de malha em questão foram nomeadamente embainhadas pelos “ardinas” masculinos que rodearam Karl Lagerfeld no seu passeio triunfal no final do desfile do dia 1 de dezembro. Ainda que os tradicionais padrões nórdicos “Fair Isle” sejam de domínio público, várias peças da Chanel tinham exatamente a mesma forma, paleta de cores e organização de padrões dos designs de Ventrillon, algo que se apressou a delatar numa publicação na rede social Facebook.

A 3 de dezembro, Mati Ventrillon partilhou uma fotografia com imagens do desfile da casa de moda dispostas lado-a-lado com o seu trabalho, escrevendo «endosso ou plágio? No início do verão, dois elementos da equipa da Chanel visitaram Fair Isle e compraram algumas das minhas peças, com a explicação de que os artigos eram para pesquisa. Eu deixei claro que lhes venderia as peças pela reputação da casa Chanel e porque não esperaria que eles copiassem o meu design».

A propriedade intelectual na moda é algo difícil de proteger sobretudo devido às constantes traduções do retalho (ver A fina arte da cópia). As marcas têm vindo a adotar uma posição mais agressiva na proteção do seu trabalho, mas esta é uma área de difícil alcance – recorde-se, a propósito, o caso Christian Louboutin versus Yves Saint Laurent sobre o direito à exploração das solas vermelhas: as duas marcas consideram ter ganho.

Nas redes sociais, porém, os utilizadores não são parcimoniosos nos julgamentos e este descuido da Chanel não foi exceção. Depois da publicação de Ventrillon, seguir-se-iam muitos “gostos” e partilhas, para lá das margens da rede social de Mark Zuckerberg.

Este assunto ganhou particular relevo não só por se tratar da Chanel, mas sobretudo pelo conceito subjacente aos desfiles Métiers d’Art, que nesta passerelle particular celebraram o trabalho de casas adquiridas pela marca, como a especialista em bordados Lesage e a chapelaria Maison Michel, com o objetivo de proteger e promover o seu trabalho artesanal. Algo que Ventrillon considera ter-lhe sido negado.

A campanha da designer foi ouvida e teve resposta por parte da Chanel, que não só se aprontou a reconhecer-lhe o crédito do trabalho, como endereçou, em comunicado, as desculpas a Mati Ventrillon. «A Chanel reconhece que esta situação resulta de uma disfuncionalidade entre as equipas e apresenta as suas desculpas. A Chanel também reconhece a herança e know-how da Fair Isle. A Chanel destaque que a casa é extramente cautelosa em termos do respeito pela criatividade, quer seja a sua ou dos outros».

Depois disto, a designer reconheceu o catalisador que foi sua publicação na resolução do problema. «Gostaria de agradecer a todas as pessoas nas redes sociais e particularmente nas Shetland que mostraram o seu apoio», escreveu, novamente, no Facebook. «Fico feliz ao dizer que a Chanel se mostrou disponível ao longo do processo. Pediram desculpa imediatamente e disseram que iam olhar para a situação, houve um descuido da equipa da Chanel e sinto que com as suas desculpas e ao creditarem o design mostrarem respeito e o apoio aos pequenos artesãos».

Em última análise, resume o The New York Times, a designer não desencadeou ações legais contra a casa, mas levou-a a julgamento na nova praça pública – as redes sociais.