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Uma luz que nunca se apaga

A “Luz” da ModaLisboa renovou-se com os primeiros passos dos 10 talentos emergentes da plataforma Sangue Novo, iluminando também o regresso a casa de Aleksandar Protic e Nair Xavier e as novas viagens de Ricardo Preto, Dino Alves e Filipe Faísca.

Filipe Faísca ©ModaLisboa / Fotografia: Rui Vasco

Já a luz da “Cidade das 7 Colinas”, estando o Pavilhão Carlos Lopes – a localização eleita para a 49.ª edição do certame – numa delas, fez com que o verão se vivesse dentro e fora das passerelles, com as temperaturas próximas dos 30ºC durante os três dias de desfiles.

Luz que se renova

A luminosidade de Lisboa tem vindo a encantar poetas e pintores, fotógrafos e cineastas, nacionais e turistas, chegando inclusivamente a motivar a exposição “A Luz de Lisboa”, no Museu de Lisboa, em 2015. Agora, este fenómeno natural foi objeto de homenagem do certame batizado em honra da cidade que o embala desde o nascimento.

À 49.ª edição, a ModaLisboa voltou a ceder as honras de abertura aos jovens talentos, precisamente os responsáveis pela renovação da Luz, primeiro com dois desfiles da plataforma Lab, depois com a mostra coletiva dos 10 talentos do concurso Sangue Novo.

Patrick de Pádua ©ModaLisboa / Fotografia: Rui Vasco

Patrick de Pádua estreou a passerelle improvisada no exterior com a coleção “9490”, que propôs vários coordenados unissexo com mulheres em passerelle e explorou o terreno dos acessórios, em diferentes modelos de bolsas. «Foi inspirada nas memórias da infância, porque esse número é o indicativo de Vaduz [Liechtenstein], onde nasci», explicou, ao Portugal Têxtil, sobre um alinhamento que recebeu ainda influências do Cante Alentejano de Vila Nova de São Bento, vazadas para cores quentes e secas.

Também em viagem esteve a coleção da Duarte, neste caso não no tempo, mas no espaço. «Fala de uma viagem exótica à Índia, durante o pôr do sol, numa altura em que viajar era um luxo», destacou Ana Duarte sobre as propostas cada vez mais sofisticadas, sem por isso deixar de regar a raiz “sportswear luxury” da marca.

Entretanto, os 10 jovens iluminados do concurso Sangue Novo, que este ano concorriam a três galardões – o prémio Fashion Clash, concedido pelo reputado festival de moda holandês, o prémio The Feeting Room (em estreia) e o prémio ModaLisboa para a melhor coleção – aceleraram o tempo e desvelaram o futuro da moda perante Suzy Menkes, um dos nomes mais influentes da indústria, sentada na primeira fila.

Filipe Augusto, com uma coleção bebida nas sete saias do traje feminino da Nazaré, venceu o prémio Fashion Clash, garantindo a apresentação da coleção no festival holandês, a decorrer em junho de 2018.

«É o reconhecimento de que o trabalho estava bem feito, e ir para fora e poder representar Portugal é ótimo para mim», revelou o talento emergente ao Portugal Têxtil.

Rita Afonso, que na edição passada do certame ouviu o seu nome duas vezes – a primeira para receber o prémio Fashion Clash e a segunda para receber uma menção honrosa que lhe garantiu entrada direta na presente edição –, foi a grande eleita para a primeira corrida ao prémio The Feeting Room, tendo agora a possibilidade de vender a coleção na concept store, em Lisboa e no Porto.

Vencedores Sangue Novo ©ModaLisboa / Fotografia: Rui Vasco

«Este prémio é importante para começar a pensar na segunda parte, que é a parte de definir preços, perceber quem é o público-alvo, como é que se vão programar as produções, estabelecer-me como marca», apontou, focando a ajuda «inestimável» da Polopique, empresa na qual trabalha, para o desenvolvimento da coleção “O Dependurado”, que conquistou os presentes pela qualidade dos materiais e confeção.

O grande vencedor da noite, com o prémio ModaLisboa, foi David Pereira, verdadeiro explorador da silhueta andrógina inspirada na sobreposição dos códigos de streetwear.

«É mais uma etapa. Quero lançar a minha marca e isto vem-me ajudar», reconheceu. O jovem designer recebeu 5.000 euros, um Summer Course oferecido pela prestigiada academia de moda Domus Academy e ainda garantiu entrada direta na próxima edição da ModaLisboa.

Filipe Augusto e Rita Afonso juntaram-se depois à jovem designer Rita Sá e voltaram a cruzar a passerelle para serem reconhecidos com uma menção honrosa pelas mãos do júri constituído por Eduarda Abbondanza (presidente da ModaLisboa), Cláudia Barros (editora de moda da Vogue) e pelo designer Filipe Faísca.

Ricardo Preto ©ModaLisboa / Fotografia: Rui Vasco

Premiado o trabalho do talento emergente, a passerelle foi entregue a Kolovrat, Valentim Quaresma e Ricardo Preto, que, a encerrar o primeiro dia de desfiles, deixou os menos circunspectos a bater o pé e a abanar a cabeça ao som da banda sonora do desfile, “Whole Lotta Love”, dos Led Zeppelin.

«Esta coleção é conduzida pela personalidade, “sê tu próprio”, numa altura em que as marcas são globais e toda a gente veste a mesma coisa», esclareceu Ricardo Preto, que continua a vender as suas criações nos grandes armazéns filipinos Rustan’s e enalteceu o fitting longo e fluido na coleção primavera-verão 2018 da marca própria.

Luz no regresso a casa

Aleksandar Protic ©ModaLisboa / Fotografia: Rui Vasco

No sábado, segundo dia de desfiles de ModaLisboa Luz, aguardava-se com expectativa o regresso de Aleksandar Protic ao calendário, depois de um afastamento de um ano e meio por motivos pessoais.

«Precisei de parar, mas agora que regressei, sinto que nada mudou, mas pelo lado positivo», admitiu. A coleção, imbuída de referências às esculturas de Barbara Hepworth, celebrou a seda e o algodão com o vestido como protagonista.

De regresso esteve também a alfaiataria masculina de Nair Xavier, que desfilou na plataforma Lab, mas com reforços.

Depois de algumas estações de ausência, a jovem designer apresentou uma aliança entre a moda de autor e a indústria, numa coleção que teve o apoio da produtora de vestuário Diniz & Cruz. «A indústria precisa de nós e nós precisamos da indústria», resumiu.

Ainda antes de saber o tema do certame, «mas talvez por estar tão ligada à família ModaLisboa», Olga Noronha, que falhou a edição anterior, surpreendeu os presentes com jogos de luz e um piano de cauda para apresentar peças de resina epóxida pigmentada.

A Luz da ModaLisboa abrilhantou ainda as duas estreias da 49.ª edição – Carolina Machado subiu à plataforma Lab e a marca Imauve pisou a passerelle.

Na primavera-verão 2018 de Carolina Machado, o cinema motivou peças que casaram sedas e linhos com memórias de estilo dos anos 1980. «As mangas com volume vêm precisamente daí», confessou a jovem designer.

Dino Alves ©ModaLisboa / Fotografia: Rui Vasco

Na mostra da Imauve, marca da jovem designer Inês de Oliveira (ver A chegada da Imauve), respeitaram-se os códigos da alfaiataria urbana, transportada para uma paleta de tons terra em linha com a obra cinematográfica de Emir Kusturica.

Dino Alves encheu, para depois esvaziar, o Pavilhão Carlos Lopes, no último desfile do segundo dia da 49.ª edição da ModaLisboa.

«Depois de, na edição passada, ter dito aquilo tudo [ver O lado D da moda], agora procurei o silêncio», elucidou o designer sobre um desfile que como banda sonora teve apenas os sons da natureza e trabalhou peças limpas e fluidas com barras e linhas de cor criadas através de debruns XL e tiras entrelaçadas ou soltas, que se transformaram visualmente em riscas.

Luz sobre o futuro

Envolvidos no tema agregador da edição por intervenção divina, pelo consciente coletivo ou mero acaso, foram vários os veteranos que conduziram para a passerelle da ModaLisboa Luz uma primavera-verão 2018 radiante.

Nuno Gama ©ModaLisboa / Fotografia: Rui Vasco

«A inspiração veio ter comigo, como uma luz, enquanto ouvia uma banda sonora e me foram aparecendo vultos brancos», referiu Nuno Gama ao Portugal Têxtil sobre os homens de branco d’ “O Globalista”, que desfilaram casacos leves e respiráveis, num desfile performance que voltou a surpreender a assistência.

Luís Carvalho ©ModaLisboa / Fotografia: Rui Vasco

No domingo, a coleção de Luís Carvalho, esteve mais próxima do sol, no voo rasante de “Eagle Eye”. «Inspirei-me nas camadas e texturas da águia para criar os plissados e para a própria paleta de cor da linha feminina», salpicada de vários tons de areia, azul marinho, ocre e rosa pálido, aclarou o designer.

Já Filipe Faísca mostrou por que motivo há uma luz que nunca se apaga. Responsável pelo encerramento do calendário de desfiles, a coleção do designer iluminou-se de branco e brilho e anunciou a primavera-verão 2018.

Filipe Faísca ©ModaLisboa / Fotografia: Rui Vasco

«Não foi de todo pensado. Mas há um consciente coletivo que anda em sintonia e nós somos um país de luz», desvendou o designer sobre as propostas de “Fertilizer”, que incluíram ainda uma gabardina feita a partir de cortiça, numa parceria com a Corticeira Amorim.

Depois das salas vazias, no final da edição que adicionou uma nova geografia ao mapa da ModaLisboa, Eduarda Abbondanza parou para o balanço possível, deixando uma luz sobre as edições futuras.

«A nossa ideia é, dentro do que for possível, estender o mais possível aquilo que é a comunicação da moda em Portugal e a criação de uma cultura de moda, e este espaço permitiu isso», declarou a diretora da ModaLisboa, avançando ao Portugal Têxtil que há já uma nova localização em vista e que, possivelmente, o espaço será para intercalar com o Pavilhão Carlos Lopes – considerando o sucesso da ModaLisboa Luz – nas duas edições anuais.