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7º Fórum ATP anuncia Selo Dínamo para a ITV

O auditório do CITEVE de Famalicão (com 200 lugares) e a sua área envolvente – apetrechada de ecrãs plasma – não chegaram para receber todos os interessados para assistir ao 7º Fórum da Indústria Têxtil, promovido pela ATP, subordinado ao tema «A Liberalização do Comércio Internacional de Têxteis e Vestuário». O presidente da ATP, Paulo Nunes de Almeida, abriu a sessão, passando a mensagem de que e se a importância da ITV para a economia nacional – 18% do emprego e das exportações nacionais –, justifica a pertinência da realização de mais um fórum ATP (bi-anual), o facto da China tornar-se já em 2006 detentora de 50% do mercado mundial e por em risco mais 70 mil postos de trabalho em Portugal dentro de 5 anos, justifica o tema em particular.

Manuel Teixeira, director geral do CENESTAP, fez então um enquadramento do tema com base em dados do Observatório Textil. Depois de uma contextualização histórica, salientou que as exportações do TVC começaram por representar 27% do total (307M€) na década de 80, contando com 315 mil trabalhadores, com custos laborais dos produtores europeus muito superiores (começando por Espanha-3X- e acabando na Alemanha-6X). Na década de 90 passou para 29% (de 3.427M€), e contou com 445 mil trabalhadores (TVC). Em 2004 já só representou 15% (de 4362), com 211 mil trabalhadores (ITV), e o custo da mão-de-obra quase triplicou em relação a 1990. A ITV nacional perdeu quota na tecelagem, no vestuário e nos têxteis-lar. Só até Junho de 2005, Portugal teve uma queda de 8,2% da produção, até Julho de 10,4% nas exportações, e até Julho de 6,9% no emprego, enquanto as importações de vestuário na UE da China aumentaram mais de 80%.

Nas perspectivas para 2010, Manuel Teixeira sublinhou que o sourcing remoto vai ter de aumentar, o produtor vai apresentar um full package ao cliente, incluindo desenvolvimento do produto, design, preço, etc. Nos pontos fortes da ITV destaca-se a resposta rápida a pequenas séries, o know-how e a proximidade geográfica, e nos fracos a preponderância produtiva, a pesada estrutura de custos fixos, a falta de estratégia e de cooperação, e o pouco domínio da distribuição. As oportunidades passam pela criação da Zona euro-mediterrânea, e pela aposta na logística e na imagem, entre outras.

O modelo de negócio alterou-se: a prestação de serviço, a gestão de marcas e distribuição e a aposta em I&D passam de 80, 10 e 10% para 55, 25 e 20% em 2010, respectivamente. O director acabou a salientar que nos «anos 90 ainda havia uma politica, uma estratégia para o sector, através do IMIT. Agora não há!».

O formato do programa Prós e Contras da RTP, mediado por Fátima Campos Ferreira, replicou aqui o seu sucesso, com a participação do vice-presidente da Goldman Sachs, António Borges, do deputado europeu Silva Peneda, do presidente do CENESTAP e do CITEVE António Amorim, do administrador da Impetus Alberto Figueiredo, do editor de economia do Expresso Jorge Fiel, e do próprio presidente da ATP. Para o final estavam reservadas as conclusões do presidente da EGP Daniel Bessa e uma intervenção do Ministro da Economia e da Inovação Manuel Pinho.

Fátima perguntou a António Borges se há prós para a ITV, e a resposta foi positiva. Afirmou que Portugal tem apostado em sectores que já estão protegidos e não está apostar noutros que precisam de se internacionalizar, e esta indústria tem um grande capital de experiência e «será oneroso para Portugal deixar que a concorrência nos varra do mapa».

Nunes de Almeida comentou que «os protagonistas deste filme devemos ser nós, mas nos filmes também há mais actores, e o Estado deverá ser um deles. Para quem ache que não temos feito o nosso papel recordo que a balança comercial com Espanha foi excedentária, e que há lá 100 lojas de marcas portuguesas». Isto num país que tem a vantagem comparativa de um IVA mais reduzido e menores custos energéticos. Jorge Fiel salientou que uma das estratégias de sucesso dos empresários seria a capacidade de antecipação, como o Grupo Pizarro, que prevendo a aposta do grupo Inditex na América do Sul construiu a Ibatex no Brasil. Alberto Figueiredo acrescentou ao debate a instabilidade politica no país, que não permite concretizar as ideias se vão tendo, e sugeriu: «o presidente do Icep- cuja organização está em constante mudança -, pode ser de nomeação politica, mas podiam nomear os vice’s com mais proximidade aos sectores para os quais trabalham».

A inflexibilidade da nossa legislação laboral foi o denominador comum das intervenções seguintes, com António Amorim a lembrar que só a sua melhoria permite às empresas a resposta rápida necessária, e recordou que em Itália o Estado paga 2/3 para os trabalhadores ficarem em casa enquanto não há encomendas, e quando há, regressam. Francisco van Zeller, presidente da CIP, lembrou que o Governo anulou uma das poucas clausulas que dava flexibilidade ao código, ao que François Gros, administrador da Tebe, acrescentou que assim «caminhamos com sapatos de chumbo».

Silva Peneda salientou então a necessidade de termos uma politica interna para resolver a crise na região do Ave, e uma externa, para que não se repitam as condições do recente acordo UE/China, onde esta «fez batota».

António Borges sublinhou a importância de produzir com valor acrescentado: «a General Motors, o maior construtor mundial de automóveis, está na falência, e reparem se a Administração Bush se interessa…mas se o Silicon Valley estivesse em risco, já víamos grandes preocupações», afirmou. Daniel Bessa começou por se apresentar como homem da casa, e por trabalhar de perto com esta problemáticas alertou para os problemas serem sensivelmente os mesmos ao longo da história destes fóruns, pelo que é preciso focar, para melhor solucionar. E o foco empresarial deve ser nas condições actuais do negócio. Nunes de Almeida fez o discurso final com a tónica na próxima reunião da OMC (em Dezembro) em Hong-Kong, ser uma boa oportunidade para o Governo português defender os interesses de um sector tão importante para a economia nacional, e que «se deixarem que não se cumpram as regras da OMC estamos a entrar por um caminho perigoso, e a seguir ao têxtil outros sectores ficarão prejudicados».

Manuel Pinho anunciou então que o seu Ministério se empenhará para defender a ITV nessa reunião, e que «nós vamos passar o Dínamo à prática». Na envolvente empresarial, no primeiro Eixo irá ser criado um Fórum para a estratégia dos Sectores da Moda, no segundo Eixo um Centros de Inteligência de Moda e de Mercados e um de Nanomateriais. Vai também promover, no terceiro Eixo, a realização da Semana da Moda, em que «eu vou fazer tudo para que já se realize na próxima temporada, ou seja, em Fevereiro ou Março», anunciou o ministro ao Jornal Têxtil. Para além do Portugal Fashion, Moda Lisboa e Porto Fashion Awards, está agora prevista a Top Brands Exhibition, uma mostra dos melhores criadores e marcas nacionais, a promover no exterior. Foi também anunciado o Selo Dínamo, uma espécie de «via verde» para os projectos que tenham por base maior criação de valor, mais inovação nos produtos, e que envolvam internacionalização. O IAPMEI terá um Gabinete Dínamo, localizado no Porto, tendo «como coordenador Braz Costa», (ex-director geral do CITEVE e actual administrador deste instituto), adiantou o seu presidente ao Jornal Têxtil.