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8 tendências que vão renovar o sourcing

As problemáticas subjacentes à indústria de vestuário e às cadeias de aprovisionamento existiam muito antes do aparecimento da crise pandémica, mas esta veio acentuá-las ainda mais. Muitas empresas estão já a alterar a forma como operam e a dar uma nova vida ao sourcing, regendo-se por oito preceitos.

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As restrições entre países, os encerramentos das fábricas, a escassez de mão de obra e de matérias-primas, os custos de logística crescentes, as falências dos fornecedores e retalhistas e o aumento da procura online expuseram a indústria às fragilidades do sourcing, o que fez com que muitas empresas da indústria de vestuário estejam a planear introduzir ou implementassem já mudanças guiadas por oito postulados.

Resiliência

Construir uma maior resiliência nas cadeias de aprovisionamento é a principal prioridade no que diz respeito ao aprovisionamento de vestuário, tendo em conta que evita a dependência de qualquer país. Deste modo, passa a ser possível identificar aspetos vulneráveis do aprovisionamento, como a disponibilidade de componentes, o que permite às empresas ter alternativas em mente. «A resiliência raramente aparece nas análises das cadeias de aprovisionamento, agora é a hora de começar a insistir que apareça», aponta o just-syle.com.

Equilíbrio

Agora, mais do que nunca, é necessário equilibrar as cadeias de aprovisionamento para obter uma maior capacidade e flexibilidade de resposta nas relações comerciais. Movimentar parte da produção para mercados mais próximos e transferir pedidos para fora da China são ações já em curso por parte das empresas, graças aos retrocessos na relação entre os EUA e a China, o que provoca a diminuição do ritmo dos concorrentes asiáticos como o Vietname, Bangladesh e o Camboja. O sourcing regional mais voltado para o consumidor vai continuar em expansão, especificamente da Ásia para a Ásia, a região EMEA (Europa, Oriente Médio, África) para a EMEA e a América para a América.

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Apesar do peso do fator proximidade, construir novas relações com os fornecedores não é um processo fácil, assim como encontrar infraestruturas adequadas como portos, logística, fibras, fios, têxteis, acabamentos, serviços de qualidade e disponibilidade produtiva. A capacidade da indústria têxtil e vestuário da China fazem com este mercado domine a produção global deste sector, que continuará a ser fornecedor das fábricas dos mais variados pontos do globo.

Parcerias estratégicas

A interrupção e o cancelamento de pedidos, o rompimento de contratos e a falta de pagamento fizeram com que a confiança entre os fornecedores e os compradores fosse muito afetada pela pandemia, pelo que é necessário reescrever as regras entre estes players da indústria. Trabalhar de forma mais próxima com um menor número de fornecedores e retalhistas, que sejam sólidos do ponto de vista financeiro, passou a ser fundamental para dispor de cadeias de aprovisionamento mais rápidas, responsivas e sustentáveis. A partir de parcerias mais profundas, as empresas podem evitar os constrangimentos e as perdas financeiras que sofreram em 2020.

Aceleração digital

A digitalização foi outra das áreas impactadas pelo Covid-19, que obrigou as empresas a recorrer ao online para manter e alimentar as sinergias comerciais e também a investir em novas tecnologias. A modelagem 3D, a amostragem digital, showrooms virtuais são exemplos de investimentos tecnológicos que contribuem para processos mais rápidos e decisões mais eficazes. A própria sustentabilidade é beneficiada, dado que é possível uma maior rastreabilidade dos produtos, assim como o controlo dos mesmos no aprovisionamento, o que evita desperdícios e diminui a pegada de carbono. Para os próximos anos, a digitalização continuará a ser uma das chaves de progresso para o sector, que terá acesso a cada vez mais informação sobre os consumidores, facilitando a produção e a introdução de tendências vendáveis.

Inteligência rápida

Como consequência da digitalização, as cadeias de aprovisionamento de vestuário tornam-se, além de mais rápidas e ágeis, também inteligentes. A previsibilidade na procura do consumidor permite uma melhor resposta das empresas às necessidades do mercado, o que evita a necessidade da colocação de grandes pedidos e com seis meses de antecedência. Esta prática ajuda também a gerir o stock, evitando o excesso do mesmo. A análise de dados e ferramentas preditivas podem mesmo marcar o fim da era produtiva, que atuará apenas quando existir uma procura evidente.

Rastreabilidade e transparência

Com as convicções asseguradas e a certeza de que os valores pesam na decisão de compra dos consumidores, as marcas e as retalhistas de moda preocupam-se mais em ser transparentes, documentando as etapas produtivas às quais um determinado produto é submetido, assim como a origem das matérias-primas. Esta preocupação, contudo, vai já além dos consumidores e alarga-se às empresas que compram matérias-primas éticas para não prejudicar a respetiva reputação no mercado. O trabalho forçado em Xinjiang no cultivo de algodão é um desses exemplos.

Reforçar a sustentabilidade

A ética e a sustentabilidade surgem lado a lado e, para os consumidores, caminham juntas. Porém, para as empresas, a concordância entre aquilo que comunicam, uma vez que se assumem como sustentáveis, e aquilo que praticam nem sempre se verifica por completo com a reorganização das prioridades no negócio. Prova disso foi o facto de retalhistas terem abdicado de muitos pedidos no início da pandemia, o que expôs vários negócios a situações vulneráveis e os trabalhadores a condições deficientes. O próprio inventário que ficou dentro de portas gerou o desperdício, enquanto muitas empresas lutavam pela sobrevivência.

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Neste sentido, os esforços éticos e ambientais devem ser uma prioridade para o aprovisionamento têxtil, que tem de impedir este tipo de danos, tanto para o negócio como para a sociedade, evitando o greenwashing. Todas as etapas do ciclo de vida de um determinado produto devem ser regidas sob estas preocupações.

Reduzir emissões

As emissões de carbono e a neutralidade carbónica estão particularmente no centro das atenções, com o Reino Unido a ser o anfitrião da cimeira COP26 no final do ano e os EUA a considerarem voltar a fazer parte do Acordo de Paris referente às alterações climáticas sob a presidência de Joe Biden.

A maior pegada de carbono e as maiores emissões dos gases de efeito de estufa são gerados pela indústria de moda, cujo aprovisionamento fomenta o transporte de matérias-primas por milhares de quilómetros e, depois de convertidas em produtos acabados, estes voltam a ser transportados para vários pontos do globo.

O acesso a recursos renováveis vai, de resto, determinar a pegada das empresas, que devem conduzir uma mudança real e não só estabelecer metas, como também tomar medidas para as cumprir. Se isto não se verificar, as normas climáticas podem passar de voluntárias a obrigatórias, como já está a ser debatido na UE e nos EUA.