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A “ameaça chinesa” em discussão

Em vez de um combate impossível com a China, tire vantagens deste país. Esta é a mensagem deixada aos empresários portugueses pela empresa de consultoria InterChina Consulting, num encontro promovido pela Associação Têxtil e de Vestuário de Portugal, em parceria com a Câmara de Comércio e indústria Luso-Chinesa. De acordo com a InterChina Consulting o primeiro passo é usar o gigante asiático como centro de compras, importando produtos para acabar em Portugal e assim reduzirem 40 a 50% os custos. Segue-se a deslocalização, que com a redução dos custos produtivos podem permitir um aumento de 90 a 200% da margem de produção.

A questão é delicada e exige medidas urgentes. O gigante asiático passou, em 15 anos, de potência regional de segunda ordem para o 6.° maior produtor de riqueza do mundo, entre a França e a Itália. Conquistou a liderança mundial nos têxteis, com as exportações a duplicarem entre 1999 e 2003, atingindo cerca de 66 mil milhões de euros. Em muito graças ao recurso ao dumping.

Com a liberalização do comércio em Janeiro de 2005, a China poderá aumentar a sua quota mundial em mais 50% num período de cinco anos. Os EUA e a União Europeia serão os mais afectados, podendo ver a quota chinesa do mercado aumentar, respectivamente, de 16 para 52% e de 20 para 29%. «A UE será afectada sobretudo através do impacto na indústria», avisa Eduardo Morcillo, da InterChina Consulting. A solução passa pela aposta em nichos muito especializados ou por atacar a ameaça asiática a partir de dentro.

De acordo com as actuais previsões, a economia chinesa será em 2020, a segunda maior do mundo, a seguir aos EUA, com um PIB superior a quatro mil milhões de euros. Em 2010, contará com 500 milhões de consumidores reais e só a economia da província de Xangai, onde se concentra mais de 70% da indústria de confecção, terá a dimensão da portuguesa em 2000. Ao potencial de consumo (mais de 110 mil milhões de euros gastos em vestuário e calçado em 2003), junte-se os baixos custos produtivos, com salários que chegam a ser 35 vezes inferiores aos europeus, e a grande apetência dos investidores. A China foi o país que mais investimento estrangeiro recebeu em 2002 e percebe-se que as oportunidades existem, variando a forma de as aproveitar.

Para quem dispõe de verbas, é sugerida a criação de uma empresa de capital totalmente estrangeiro. Asjoint ventures, diz o consultor, «trazem muitos benefícios de curto prazo, mas fracassam. Desde 1990, 90% das empresas criadas sob este regime correram mal». Se intenção for usar a China apenas como fornecedor, a consultora sugere a aquisição de uma rede produtiva fiável, da qual será accionista minoritário e o principal cliente.

Segundo dados da Câmara de Comércio Luso-Chinesa, as empresas de capital estrangeiro asseguram já metade do total das importações e exportações chinesas. Mas ficou um alerta: «Há riscos».