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A alimentar Sara Lee engole Courtaulds Textiles

Não é apenas no mundo da banca, dos artigos de luxo, da internet ou das telecomunicações que se assiste a grandes negociações e aquisições, abrindo o mercado a empresas gigantes.

O sector têxtil e do vestuário acompanhou esta tendência com a compra da britânica Courtaulds Textiles, detentora da Well, Gossard, Georges Rech,… pelo gigante americano Sara Lee Corporation, propriétária da Dim, Playtex, Wonderbra, Champion, entre outras.

Depois da recusa de algumas propostas em privado, a Sara Lee foi mais longe e anunciou na bolsa de Londres uma Oferta Pública de Aquisição hostil sobre a totalidade do capital da Courtaulds por 34,6 milhões de contos, cuja recusa resultou no aumento da oferta para 50,1 milhões de contos. Perante a aceitação deste valor no dia 24 de Março, o segmento têxtil da Sara Lee vai aumentar considerávelmente.

Cerca de 1,5 mil milhões de contos de volume de negócios no exercício de 1999, sobre um total de 4,02 mil milhões do total de actividades do grupo, já destacavam a Sara Lee como lider mundial do vestuário de marca, aos quais agora acrescem 300 milhões do adquirido. A Sara Lee vai assim reforçar as suas posições sobre alguns mercados chave onde a Courtaulds está presente, designadamente a França e o Reino Unido. Neste último, adquirirá os collants Aristoc e as marcas de lingerie Berlei e Gossard, o que, sendo já propietária dos collants Pretty Polly , acentuará a sua liderança neste mercado. Acrescente-se que o grupo apoderar-se-á da sub-contratação da Courtaulds pela Marks & Spencer, em segmentos como o «casualwear», a roupa interior, a lingerie e os collants, representando estes últimos 40% das vendas consolidadas da marca inglesa.

Por outro lado, a Courtaulds é um dos fornecedores de lingerie da cadeia americana Victoria’s Secret. A integração de actividades sem marca (private labels) entra contudo em contradição com a estratégia praticada nestes últimos dois anos pela presidência da Sara Lee, recentrando o grupo nas marcas internacionais e abandonando as actividades de produção para as subcontratar em países com menores custos salariais.

Neste contexto, as linhas de orientação da Courtaulds, em versão Sara Lee, deverão sofrer sérias mudanças. Joan d’Olier, do Deutsch Bank adianta que «Marks & Spencer vai negociar com um interlocutor muito mais poderoso que no passado», tendo outro analista londrino lembrado que a empresa de Chicago deverá adaptar-se ao sistema da M&S, sendo capaz de lidar com a posição desta marca na cadeia têxtil. A Sara Lee está habituada a vender a grupos que intervêm menos na produção, como a Wal-Mart, que entretanto investiu no Reino Unido com a Asda, o que poderá criar problemas de concorrência entre a Asda e a M&S.

Relativamente ao mercado francês, é sobretudo a marca de collants e lingerie Well e as meias para homem Stem que cairão nas mãos do grupo americano. Este passará assim a protagonizar uma destacada liderança no mercado dos collants e da roupa interior apresentados na grande distribuição francesa, controlando nos collants o número um e dois do mercado e reforçando a sua posição na lingerie.

Acrescente-se que a marca americana tornar-se-á detentora da marca de pronto-a-vestir de gama alta Georges Rech, uma área que não pertencia à cultura do grupo, considerando também que a Courtaulds controla a marca de golf Lyle & Scott, vendida em lojas da especialidade.

Sublinhe-se que a Sara Lee vai entrar numa área que pouco conhece, o têxtil a montante, dado que a Courtaulds é um dos principais produtores europeus de tecidos elásticos para a lingerie, com a Penn Elastic, e de rendas e bordados com a Deseilles e a Broderies Deschamps. Considere-se ainda que o grupo britânico controla dois negócios de têxteis-lar, a Christy e a Zorbit. E ninguém poderá adivinhar se estas actividades serão conservadas se não constarem da estratégia da Sara Lee.

De qualquer forma, como sublinha Joan d’Olier «os dois grupos conhecem-se bem e a Courtaulds Textiles é um fornecedor de matérias primas das marcas da Sara Lee».