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A ambição da ITV do Bangladesh

O país fez enormes progressos nos últimos 18 meses para melhorar a proteção contra incêndios e a segurança dos edifícios e dos trabalhadores, numa iniciativa que contou com o apoio de 220 marcas e retalhistas da América do Norte, Europa e Austrália. O crescimento dos envios internacionais do maior país exportador de vestuário a seguir à China foi igualmente impressionante, registando uma média anual de 19% nos últimos cinco anos e representando 81% das exportações totais do Bangladesh, que no ano fiscal 2013/2014 atingiram 30,1 mil milhões de dólares (26,62 mil milhões de euros). Além disso, desde 1991 o número de empresas de confeção aumentou 15 vezes, flutuando agora entre 3.500 e 4.500, e os trabalhadores da indústria multiplicaram-se por 33, para 4,4 milhões de pessoas. Mas para o Bangladesh aumentar as suas exportações de 24,5 mil milhões de dólares no ano fiscal 2013/2014 para 50 mil milhões de dólares em 2021 – ano em que celebra 50 anos de independência – terá de aumentar a sua quota de mercado mundial de 5% dos 450 mil milhões de dólares da atualidade para 8%, de um total mundial que se estima atingir 650 mil milhões de dólares, em apenas sete anos. Este desafio esteve em debate na Cimeira de Vestuário de Dhaka, em dezembro, que juntou centenas de players ligados à indústria, incluindo retalhistas, marcas, políticos do país, governos internacionais, empresários locais, sindicatos, organizações não-governamentais e académicos. O consenso, segundo o just-style.com, parece ser que, apesar do enorme apoio e boa vontade para com o sector após o incêndio na fábrica Tazreen Fashion e o colapso do Rana Plaza, que em conjunto terão ceifado a vida a mais de 1.300 pessoas, existem ainda inúmeros desafios que o país tem de ultrapassar para atingir a sua meta. E estes desafios incluem a necessidade de melhorar a perceção externa da marca Bangladesh e a responsabilidade social e ambiental do sector, aumentar a qualificação da mão de obra e a produtividade e resolver os problemas infraestruturais do país, incluindo o fornecimento energético e as infraestruturas rodoviárias e portuárias. Há ainda questões burocráticas que têm de ser abordadas, incluindo pelo governo do país, assim como a necessidade dos compradores pagarem preços mais altos pelo vestuário que adquirem no país, tanto para cobrir os custos crescentes das fábricas para atualizarem as suas instalações como para assegurar um melhor salário aos trabalhadores. «Temos muito trabalho para fazer, há muita capacidade de construção que tem de acontecer, mas têm o apoio e empenho de 220 marcas que realmente estão dispostas a fazer com que isto funcione. E isso dá uma vantagem inicial em relação a todos os países que não têm este tipo de apoio», destacou Tom Nelson, vice-presidente de compras na VF Corporation e membro do conselho de administradores da Aliança pela Segurança dos Trabalhadores do Bangladesh. Aproveitar este dinamismo e melhorias na segurança, acredita Rick Darling, diretor-executivo de administração e assuntos externos na Li & Fung (Trading) Ltd, será «crítico se o Bangladesh quiser atingir os seus objetivos». Até agora, mais de 2.100 empresas foram inspecionadas pela Aliança pela Segurança dos Trabalhadores do Bangladesh, pelo Acordo de Segurança de Edifícios e Incêndios do Bangladesh e pelo Plano Nacional de Ação implementado pelo governo, com planos de correção e trabalhos de melhorias em curso. Mas é apenas o início, acreditam os especialistas. As melhorias a implementar nas fábricas do Bangladesh fazem parte de um processo complexo que irá demorar anos. Foi também manifestada alguma preocupação pela aparente falta de empenho do governo para supervisionar a inspeção e o processo de correção para pelo menos 1.500 empresas que estão sob a sua alçada, assim como pela sua capacidade de tomar a liderança quando a Aliança pela Segurança dos Trabalhadores do Bangladesh e o Acordo de Segurança de Edifícios e Incêndios do Bangladesh saírem em 2018. Rick Darling referiu que a maior oportunidade para o Bangladesh está nas alterações que estão a ter lugar na China, que está a mudar o seu foco da produção para o consumo, com um aumento anual de 1.315% dos salários mínimos nos últimos cinco anos. Esta mudança de produtos de baixo valor acrescentado, como vestuário, «funciona como uma vantagem para países como o Bangladesh», apontou. No entanto, advertiu, «não são os únicos a tentar ganhar essa quota de mercado. Trabalhamos com países como o Vietname, Camboja, Indonésia, Índia e agora, potencialmente, Quénia e Etiópia, que estão muito atentos a essa quota de mercado da China». Além disso, as exportações do Vietname para os EUA e o Canadá podem deixar de ter taxas alfandegárias sob a Parceria Trans-Pacífico. «Se esta indústria quer mesmo atingir a meta de 50 mil milhões de dólares em 2021 precisa de começar a falar e a envolver os trabalhadores», afirmou, por seu lado, Debbie Coulter, diretora de programas na Iniciativa de Comércio Ético, que representa retalhistas e marcas no Reino Unido, Dinamarca e Noruega. Arnold Zack, professor na Escola de Direito de Harvard, concorda. «O Bangladesh pode evoluir para uma indústria de vestuário modelo, mas o modelo exige que se faça uma coisa simples: pensar nos trabalhadores que ignorou e explorou. Sindicatos, ONG’s, fábricas e marcas são todos parceiros nisso. O mundo está a ver e esta é a vossa [do Bangladesh] oportunidade», concluiu.