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A arte de dolce fare niente

A marca italiana Brunello Cucinelli, reputada pelos seus artigos de luxo em caxemira, quer proporcionar uma melhor qualidade de vida aos seus trabalhadores, na pitoresca vila de Solomeo.

O magnata italiano da moda Brunello Cucinelli aproveita o intervalo entre reuniões com os designers da sua coleção de inverno de 2016 para falar sobre o trabalho – e o motivo pelo qual as pessoas não devem desgastar-se a fazê-lo. Era uma manhã de meados de setembro em Solomeo, a aldeia do século XII, onde o CEO de 62 anos estabeleceu a sua morada e a sede global da sua casa de moda epónima.

No topo da colina arborizada por ciprestes está um castelo medieval que Brunello Cucinelli restaurou, tendo aí instalado a sua residência e uma escola. Nas imediações, encontra-se uma biblioteca aberta aos funcionários, que inclui os pensadores favoritos de Cucinelli, incluindo Kant e Ruskin. Um pouco mais abaixo, na colina, artesãos tricotam camisolas de caxemira de 3.000 dólares, proveniente do velo de cabras Hircus, uma espécie rara. Cucinelli solicita à sua equipa, constituída por 1.000 trabalhadores, que deixem o local de trabalho às 17:30 e que não enviem e-mails relacionados com o trabalho depois dessa hora, de forma a conservarem as energias criativas. «As pessoas precisam do seu descanso», afirma Cucinelli. «Se eu os sobrecarregar de trabalho, estou a roubar-lhes a alma».

Brunello Cucinelli denomina a sua abordagem, centrada no trabalhador, de capitalismo humanista, que remonta aos seus anos de adolescente. O CEO viu o pai trocar a vida da família numa quinta por mais dinheiro numa fábrica, apenas para voltar para casa exausto. «Era um trabalho muito repetitivo, difícil», reconhece. «Ele era, muitas vezes, humilhado».

Cucinelli insiste na necessidade de equilíbrio na sua empresa. Isso inclui uma pausa de 90 minutos às 13h, quando os trabalhadores saem em massa para o almoço, que custa apenas alguns euros na cantina subsidiada. A sua fundação Brunello & Federica Cucinelli estende a ação ao financiamento de projetos que tornam o mundo um lugar mais agradável. «Restaurando uma igreja ou talvez através do conserto de um hospital», aponta, a título de exemplo.

Para um magnata que compete com as célebres casas italianas Gucci e Prada, Cucinelli é um estreante ambicioso. A Gucci era gerida por membros da segunda geração da família fundadora antes mesmo de Brunello Cucinelli ter nascido. Cucinelli fundou a sua empresa em 1978 e expandiu-a desde então, contabilizando 1.400 funcionários, uma presença em 60 países e uma avaliação de mil milhões de dólares no mercado. Desde 2012, quando a Brunello Cucinelli SpA foi listada na Bolsa de Milão, o lucro líquido anual aumentou 52%, fixando-se em 43,9 milhões de dólares. As vendas cresceram 10,4%, para 472,8 milhões de dólares no ano passado, mais do dobro da média das 37 empresas de artigos de luxo citadas pela Bloomberg Intelligence.

O também CEO Gildo Zegna é um admirador da Cucinelli, tanto que o seu conglomerado de moda masculina, o Ermenegildo Zegna Group, detém uma participação de 3% da casa italiana. «Foi algo natural ter-me tornado um investidor», afirma Zegna. «Admiramos o seu capitalismo filantrópico e humanista», explica.

Os analistas mostram-se menos deslumbrados. As ações caíram mais de um terço desde o pico de janeiro de 2014, privando Brunello Cucinelli do estatuto de multimilionário. «A pergunta que coloco a Cucinelli é se a marca tem características únicas suficientes e elementos tangíveis subjacentes que permitam manter o preço muito elevado no longo prazo», lança Luca Solca, diretor de pesquisa de produtos de luxo do Exane BNP Paribas.

Brunello Cucinelli responde que pretende ganhar dinheiro, mas o leque de preços deve ser razoável. A sua margem operacional é de 13,8%, inferior à média de 17% dos seus pares, segundo dados compilados pela Bloomberg. «Quereria adquirir um produto se soubesse que o fabricante aufere um lucro absurdo?», questiona. O CEO explica que os preços refletem a produção local, o trabalho manual e o sourcing sustentável na Mongólia e norte da Índia. Paralelamente, paga aos empregados cerca de 20% mais do que a média dos salários na indústria de produção italiana. «Se este ethos atrai clientes, tanto melhor», admite.

Em Solomeo, Cucinelli testemunhou a mudança decorrente da recuperação da vila, que os residentes tinham abandonado, na qual criou o local de trabalho que o seu pai nunca teve. A sua esposa Federica cresceu na vila. Brunello começou a visitá-la em 1970, após ter abandonado a escola de engenharia aos 21 anos. Estabeleceu uma pequena empresa em Ellera di Corciano, perto de Perugia, confecionando camisolas de caxemira muito bem tingidas. À medida que a empresa crescia, decidiu que, quando tivesse dinheiro, traria a vida de volta à vila de Solomeo. «Eu queria ser um guardião», reconhece. «Alguém que, basicamente, passou a sua vida neste pequeno canto do mundo e o embelezou, restaurou, construindo algo novo», explica.

Cucinelli comprou a parte central do castelo ao seu anterior proprietário e aí instalou a empresa em 1987. «Pensei que voltaríamos a apreciar a vida na aldeia e que os meus edifícios adquiririam valor», justifica. Atualmente, as mulheres em batas cinzentas trabalham em espaços cheios de luz, a antítese da fábrica húmida e escura onde o seu pai trabalhava.

O CEO vive no topo da colina, rodeado por uma igreja de 300 anos e salas de aula construídas para ensinar aos jovens diversas artes, da tricotagem à alvenaria. O seu próximo empreendimento é já bem visível. Está a derrubar seis armazéns abandonados no vale mais próximo para aí construir um estádio desportivo para os mais jovens, vinhas e pomares. Brunello Cucinelli vendeu ações no valor de 71 milhões de dólares em janeiro, para financiar os parques, encarados como barreira à expansão industrial. «Temos de devolver a humanidade à periferia», acredita.

Quando os empregados regressam à periferia no final do dia, Cucinelli regressará provavelmente ao seu castelo para restaurar a própria energia criativa. «Estou aqui apenas de passagem», refere. «É meu dever deixar estes lugares mais bonitos do que os encontrei».