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A caminho da 5.ª revolução industrial

As questões da segurança cibernética, a implementação dos princípios da indústria 4.0 nas empresas mas também o próximo passo, num percurso que inevitavelmente irá levar à 5.ª revolução industrial, foram algumas das questões levantadas na conferência “A Economia Portuguesa e a Indústria 4.0: Indústria Têxtil e do Calçado”.

O conceito de indústria 4.0 pode ser relativamente recente, mas os princípios que a norteiam são já praticados pelas empresas dos sectores ditos tradicionais – têxtil, vestuário e calçado – há vários anos, garantiram os intervenientes na conferência “A Economia Portuguesa e a Indústria 4.0: Indústria Têxtil e do Calçado”, organizada ontem, 5 de julho, pelo jornal Vida Económica, nas instalações do Citeve.

«A indústria 4.0 já existe no têxtil e vestuário há muito e muito antes até dela ter chegado aos discursos políticos ou até de ter sido apropriada por alguns sectores, ditos mais modernos, que adotam quase como sua bandeira», afirmou Paulo Vaz, diretor-geral da ATP – Associação Têxtil e Vestuário de Portugal.

Paulo Vaz

Como focou Augusto Lima, coordenador do projeto Famalicão Made IN, da Câmara Municipal de Vila Nova de Famalicão, num tecido industrial com empresas pequenas, «a maioria não sabe o que é a indústria 4.0, as suas potencialidades, os seus desafios, as suas oportunidades e também os riscos que pode trazer», embora reconheça que várias já põem em prática alguns dos princípios.

«Acho que se transmitirmos o conceito da indústria 4.0 a um empresário relativamente bem informado de uma pequena e média empresa, a resposta que vamos ter é: “ah, afinal é isso?”», afirmou Hélder Rosendo, diretor-geral da P&R Têxteis. «A indústria 4.0 acaba por ser uma roupagem nova para um conjunto de conceitos que não são novos, que a grande maioria das empresas portuguesas até já os tem implementados e isto não é mais do que integrar um conjunto de coisas e pô-las a “falar” umas com as outras», sublinhou.

Exemplos nacionais

Os exemplos foram dados ao longo da conferência, desde a confeção que produz 600 fatos por dia «um por um», um exemplo de customização em massa, citada por Paulo Vaz, à “high speed shoe factory”, implementada pela Kyaia e apresentada por Leandro Melo, diretor-geral do Centro Tecnológico do Calçado de Portugal (CTCP).

Leandro Melo

«Com esta solução, transformamos uma linha que podia ser contínua numa linha completamente não-contínua. Uma operação pode passar do último posto de trabalho para o primeiro, para um ponto intermédio, voltar ao fim, voltar ao princípio, sempre com uma sequência que é escolhida, a cada momento, de acordo com a tipologia do modelo e processo de fabrico», explicou.

Este novo conceito de produção, referiu Luís Carneiro, do Inesc Tec (Instituto de Engenharia de Sistemas e Computadores, Tecnologia e Ciência), implicado no desenvolvimento, permite «fabricar calçado em 24 horas» e em ambientes de pequenas séries revelou «ganhos de produtividade superiores a 20%».

Luís Carneiro

O administrador-executivo apresentou ainda outros projetos realizados pelo Inesc Tec, incluindo o Shoe ID, que recorre a tecnologia Rfid para permitir uma maior automatização do armazém e a sua ligação com o ponto de venda, que tem já um projeto seguinte para desenvolvimento da tecnologia, batizado Fascom, que inclui a análise do comportamento do consumidor no ponto de venda, e o projeto europeu BEinCPPS, que teve como ponto de partida o protótipo da high speed shoe factory, e tem como meta melhorar a adoção de sistemas de produção ciber-físicos por toda a Europa.

Desafios no horizonte

Sem negarem o potencial da indústria 4.0, os intervenientes na conferência mostraram-se também atentos aos desafios levantados por esta 4.ª revolução tecnológica, desde a implementação na produção à evolução dos consumidores, sem esquecer as questões de segurança e do emprego.

«O primeiro passo é avaliar a maturidade da empresa, depois confrontar com as melhores práticas e identificar oportunidades», apontou Luís Carneiro, destacando que é importante escolher as iniciativas que vão trazer retorno à empresa, já que «o objetivo é conseguir resultados».

Daniel Agis

Mas a segurança cibernética será igualmente uma questão a analisar. «Passa a ser muito mais fácil passar informação de dentro para fora da empresa», acredita Hélder Rosendo. Um problema que preocupa o diretor-geral da P&R Têxteis, até porque a empresa está a digitalizar os processos e recorre já à prototipagem virtual. «A informação está num formato a que não estávamos habituados, e passa a estar por vezes na mão de pessoas que não têm o quadro de referência do ponto de vista tradicional, habituadas a questões de privacidade, e, porventura, lidarão menos bem com estas coisas, porque não têm formação para tal», acrescentou.

Aliás, a questão da formação dos recursos humanos, e da sua eventual reconversão face à implementação dos conceitos da indústria 4.0, é um outro desafio que as empresas terão que enfrentar no futuro, citado por Hélder Rosendo e Luís Carneiro, embora este último acredite que o futuro trará boas notícias nesta área. «Quando se lançaram os primeiros computadores, toda a gente estava preocupada com o desemprego. Mas feitos os estudos, muitos empregos desapareceram, outros mudaram radicalmente, mas globalmente, desde que se introduziram os sistemas de informação, não veio criar desemprego. E novamente, é o que acredito, que vai ser criado emprego», explicou Luís Carneiro.

Braz Costa

Os desafios para as empresas passam ainda pela mudança de paradigmas, nomeadamente ligados ao consumo, como afirmou Daniel Agis, desde as novas formas de comunicação aos novos consumidores, passando pela necessidade de adaptar a logística e adotar a distribuição omnicanal.

Em relação a Portugal, e face a estas mudanças, o consultor acredita que existirão obstáculos, mas também oportunidades. Embora vá haver «pressão sobre a competitividade» e uma ameaça pelo fator origem «por parte de países que hoje são clientes de Portugal, em detrimento do near-shoring», indicou Daniel Agis, «o grau de integração dos clusters – têxteis, calçado –, flexibilidade, capacidade de renovar-se, a própria resiliência para poder fazer frente a períodos como foi nos anos 2000, em que tiveram de dar uma grande volta, são fatores importantes».

A indústria têxtil e vestuário, de resto, como referiu Braz Costa, diretor-geral do Citeve, esteve na origem da 1.ª Revolução Industrial e, além das empresas portuguesas do sector estarem muito «interessadas» neste conceito da indústria 4.0, a 5.ª Revolução Industrial já se perfila no horizonte. «Já estamos a esfregar as mãos para a indústria 5.0, que diria que será a indústria focada na pessoa. Estamos quase a chegar, já nos estamos a preparar para pensar no que vai ser a próxima vaga. Quem me dera que fossem os portugueses a marcar o padrão e a dizer “somos os criadores do conceito 5.0”», concluiu o diretor-geral do Citeve.