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A camisola amarela

As pressões deflacionárias, a ascensão da Amazon e a expansão das cadeias de desconto e fast-fashion reúnem potencial para perturbar os tradicionais retalhistas de vestuário americanos – mas o segmento desportivo permanece na frente da corrida, saindo ileso destas circunstâncias transformadoras.

A clerk rearranges a display where sweaters were offered at $15 as part of many day-after-Christmas-only specials offered at H&M retailer on 34th Street in New York. Cost-conscious shoppers haven't just been looking for bargains this season. They've also been more deliberate about when to find those deals. (AP Photo/Kathy Willens)

Os analistas da empresa Cowen and Company afirmam que, apesar do ambiente propício ao consumidor americano, a margem bruta e o retorno sobre o investimento apresentam-se tendencialmente dececionantes para muitas marcas de vestuário e retalhistas dos EUA.

Ao invés, o forte crescimento do emprego, o aumento dos rendimentos e a expansão das linhas de crédito deverão incentivar os gastos com automóveis e outras compras avultadas, que estão na origem do crescimento das vendas de retalho testemunhado ao longo dos últimos meses.

Apesar das vantagens inerentes para as vendas globais a retalho, o gasto em vestuário e acessórios tem sido largamente superado pelo crescimento na categoria automóvel desde o segundo semestre de 2009, afirmam os analistas. Em acréscimo, um aumento nos gastos com mobiliário e artigos domésticos ultrapassou o crescimento das vendas de vestuário nos últimos dois anos.

A permanência de um ciclo macroeconómico positivo significa que o potencial de crescimento dessas categorias permanece sólido, conduzindo a uma diminuição dos gastos com o vestuário. «Considerando um mercado de vestuário já altamente competitivo, detetamos um risco estrutural elevado para os modelos de negócios de fornecedores de vestuário e retalhistas que têm sido incapazes de gerar crescimento de vendas num ciclo económico positivo», observaram os analistas.

Outros riscos para os retalhistas de vestuário tradicionais incluem a pressão deflacionária sobre os preços, o crescimento da Amazon como uma força significativa na venda de vestuário, a expansão dos canais de desconto e retalhistas de moda rápida e os gastos com wearables aplicados ao fitness.

Pressões deflacionárias
De acordo com o índice de preços no consumidor, os preços do vestuário caíram ao ritmo mais elevado dos últimos 10 anos nos meses de junho (-2.3%) e julho (-3%). As circunstâncias não deverão melhorar na eventualidade da degradação do ambiente macroeconómico, o que provavelmente colocaria pressão adicional sobre os preços e unidades.

Esta pressão é agravada pela crescente presença da Amazon no segmento de vestuário, apontam os analistas. O gigante do retalho online global deverá tornar-se o maior retalhista de vestuário americano em 2017 e os analistas estimam que o segmento de vestuário da Amazon deverá crescer de 16 mil milhões de dólares em 2015 para 52 mil milhões de dólares em 2020. E, devido à potencial conquista de quota de mercado aos retalhistas tradicionais, os analistas sugerem que as principais marcas de vestuário e calçado devem repensar a sua relação com a Amazon.

Além disso, devem considerar o crescimento «substancial» do canal de desconto, em termos de receitas e de expansão de lojas. A Cowen and Company estima que as cadeias líderes TJ Maxx, Marshalls, Ross Stores e Burlington deverão expandir as suas bases de lojas, nos EUA, em 2.500 locais.

O conceito está em expansão, num momento em que a Macy’s e a Kohl’s se unem aos pares Nordstrom, Saks e Neiman Marcus na inauguração de modelos de desconto, ainda este ano. Os efeitos vão sentir-se sob a forma de uma acrescida pressão deflacionária sobre os preços do vestuário.

A quota de mercado do segmento fast-fashion, em parlelo, está a crescer rapidamente por todo o mundo. As retalhistas H&M, Uniqlo, Zara, Primark e Forever 21 geraram um total de 68 mil milhões de dólares em vendas globais em 2014, representando cerca de 6% do mercado de vestuário global. A Cowen and Company antecipa que as vendas de fast-fashion continuarão a crescer a uma taxa elevada até 2020, impulsionadas pelo crescimento da base de lojas.

«Este canal,  a par do canal de descontos e da Amazon, utilizando os preços promocionais ou com desconto, deverá conquistar os métodos tradicionais de distribuição de vestuário e exercer pressão deflacionária sobre a unidade média de retalho, num momento em que todas as modalidades competem por uma quota da carteira dos clientes», referem.

Paralelamente, os gastos em wearables aplicados ao fitness, excluindo o Apple Watch, poderão alcançar os 15,8 mil milhões de dólares em vendas até 2020, redirecionando os gastos tradicionalmente aplicados na categoria de vestuário.

Desporto soma e segue
Dito isto, algumas entidades, em particular as retalhistas de vestuário desportivo, parecem ser imunes a estas questões. A Nike e a Under Armour estão em vantagem devido à «disposição dos seus consumidores para pagarem pela inovação, desempenho e novidade».

A satisfação com o preço continua a aumentar entre os consumidores da Nike e da Under Armour, apesar do aumento dos preços de venda, que para a divisão de acessórios da Nike, na América do Norte, foi de cerca de 3% ao longo dos últimos quatro trimestres.

A VF Corp, Dick’s Sporting Goods, Columbia Sportswear, Ralph Lauren e Sequential Brands Group estão, também, «bem posicionados» para evitar os desafios enfrentados pelas retalhistas tradicionais de vestuário e acessórios, concluem os analistas.